Vulnerabilidade reduz altura média e eleva sobrepeso infantil
Crianças indígenas e de alguns estados do Norte e do Nordeste, com até 9 anos, apresentam média de altura menor do que a de outras regiões do país e abaixo do padrão de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo um estudo com participação de pesquisadores do Cidacs/Fiocruz Bahia.
Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que a vulnerabilidade não “protege” do excesso de peso. Pelo contrário, ela expõe crianças a condições que prejudicam o crescimento saudável, com coexistência de déficits de crescimento e sobrepeso/obesidade em parte da população analisada.
O que explica a diferença de crescimento entre regiões
Entre os fatores associados aos piores resultados aparecem problemas de acesso e qualidade da atenção à saúde, alimentação inadequada, carga elevada de doenças, baixa condição socioeconômica e ambientes menos favoráveis ao desenvolvimento infantil.
O estudo ressalta que isso não significa que todas as crianças indígenas ou do Norte e Nordeste tenham baixa estatura, mas que há proporção maior nesses grupos em comparação com outras regiões.
Peso sobe mesmo quando a altura acompanha a referência
O padrão usado para comparação foi o da OMS, com curvas de crescimento e indicadores em escore-z. A referência de 5 a 19 anos, por exemplo, inclui medidas como altura por idade e IMC por idade, base para classificar excesso de peso e obesidade.
O ponto de atenção, segundo os autores, é que a altura média pode se manter próxima da referência, enquanto o peso tende a ultrapassar o esperado em algumas regiões, elevando o risco de obesidade já na infância.
Sobrepeso e obesidade por região
Os dados citados no material do Cidacs/Fiocruz Bahia indicam prevalências regionais de sobrepeso e obesidade entre crianças analisadas:
Região | Sobrepeso | Obesidade
Norte | 20% | 7,3%
Nordeste | 24% | 10,3%
Centro-Oeste | 28,1% | 13,9%
Sudeste | 26,6% | 11,7%
Sul | 32,6% | 14,4%
Como o estudo foi feito e por que isso importa
A pesquisa analisou registros de milhões de crianças vinculadas a famílias do CadÚnico e cruzou informações com bases como Sinasc e Sisvan, acompanhando peso e estatura do nascimento aos 9 anos. O artigo foi publicado em 22 de janeiro de 2026 na JAMA Network Open.
A leitura central é direta: existe um “duplo fardo” na infância brasileira de baixa renda, em que a vulnerabilidade pode empurrar parte das crianças para crescimento insuficiente e, simultaneamente, para ganho excessivo de peso. Isso pressiona a atenção primária e exige políticas que combinem alimentação adequada, vigilância nutricional e cuidado contínuo desde a gestação e primeiros anos.
Ultraprocessados entram na conta do risco
Os pesquisadores destacam que a expansão do consumo de ultraprocessados é um componente relevante para o aumento do peso em várias populações, inclusive na infância. Em outras palavras, a criança vulnerável não está em “bolha de proteção”; ela costuma estar, isso sim, na rota mais barata e mais fácil do alimento pior.
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