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Trajetórias que reescrevem o cinema negro brasileiro

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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Por muito tempo, o cinema brasileiro caminhou como se não enxergasse quem sustentava sua própria base social. Entre portas fechadas, ausência nos festivais e sucessivos apagamentos, Edileuza Penha de Souza e Camila de Moraes fizeram o que tantas mulheres negras precisaram fazer ao longo da história: abrir caminhos onde não havia trilha, erguer redes onde antes existia silêncio e transformar o audiovisual em território de reparação.

Hoje, suas trajetórias já não cabem nos rodapés da história. Elas são parte do centro da mudança.

Edileuza Penha de Souza e a reconstrução da memória do cinema negro
Cineasta, professora e pesquisadora, Edileuza formou uma geração inteira com sua obra, especialmente a série “Negritude, Cinema e Educação”, que articula estética, política e formação crítica. Sua virada de chave veio em 2010, ainda no doutorado, quando percebeu a ausência de protagonistas e diretoras negras no cinema brasileiro.
Essa angústia a levou à redescoberta de Adelia Sampaio, primeira cineasta negra do país — uma pioneira que produziu 72 filmes, escreveu roteiro em 1974 e dirigiu seu longa em 1984, mas cujo nome permanecia ignorado.

A invisibilidade a incomodou a ponto de transformar pesquisa em ação. Em 2014, Edileuza idealizou a Mostra Adelia Sampaio, com apoio da UnB, e lançou o 1º Encontro Nacional de Cineastas Negras, criando a primeira mostra competitiva dedicada exclusivamente a realizadoras negras no Brasil.
“Era reparação”, afirma.

Para ela, as conquistas recentes não anulam as desigualdades históricas. Até 2016, nenhuma mulher negra havia recebido financiamento da Ancine para um longa. A primeira — Viviane Ferreira — veio só em 2018.
“É urgente falar de reparação”, reforça.

Edileuza recorda que não se pode falar de cinema negro sem falar de direitos básicos: saúde, educação, saneamento. O apagamento no audiovisual é apenas reflexo de estruturas que negam cidadania à população negra.
Em 2024, ao celebrar a 7ª Mostra Competitiva de Cinema Negro Adelia Sampaio, ela resumiu seu método: “Quando a gente se reúne, a gente se aquilomba. Cinema é coletivo.”

Camila de Moraes e a construção de um circuito próprio
Jornalista, cineasta e produtora, Camila construiu uma carreira que desafia estatísticas. É diretora de “A Escrita do Seu Corpo” (2016), “O Caso do Homem Errado” (2017) e “Mãe Solo” (2021). Este último virou referência no debate sobre violência do Estado, maternidades negras e memória.

Mas foi “O Caso do Homem Errado” que escancarou o abismo do setor. O filme levou oito anos para ser produzido. Sem editais, recorreu ao financiamento coletivo. Quando estreou um ato público que lotou o Cine Capitólio em 2016, perdeu a chance de entrar em vários festivais — a obra deixou de ser inédita.

Em vez de recuar, Camila fundou a Borboletas Filmes, distribuidora independente e negra, peça fundamental para que obras de realizadores negros circulassem pelo país.
Sem recursos, criou uma estratégia itinerante: sessões em Porto Alegre, Salvador, Acre — com debates, deslocamentos, envios de HD, divulgação e custos arcados pela própria equipe.
“É muito difícil sem investimento para distribuição”, diz.

Mesmo com reconhecimento crítico e cinco longas distribuídos, a Borboletas Filmes ainda não atinge pontuação técnica para acessar recursos públicos.
“Tem público, tem impacto, mas não é reconhecida como mercado. Por quê?”, questiona.

Em resposta ao apagamento, Camila lançou, pela Lei Paulo Gustavo, o Circuito Filmes que Voam, equipando espaços culturais de Salvador com telas, projetores e som. As sessões semanais chegaram a reunir 70 pessoas por noite.
“Isso é público. Isso movimenta a indústria. Como isso não é contabilizado?”, provoca.

Para ela, a principal urgência é revisar os critérios de distribuição no Brasil.
“Sem distribuição, o filme não existe.”

Reparação, política pública e futuro
As duas cineastas veem o cinema como direito — não como luxo. Para Edileuza, o caminho de mulheres negras é solitário; para Camila, a saída é construir rotas alternativas até que a estrutura mude.
“Se o caminho convencional não nos acolhe, criamos outro. Mas precisamos de políticas públicas para manter esse caminho aberto”, diz Camila.

Os números evidenciam o tamanho do desafio. A Ancine mostrou, em 2016, que apenas 2% dos diretores de filmes lançados comercialmente eram negros. Entre roteiristas, eram 4%.
Em 2019, levantamento do GEMAA/Uerj identificou que, entre 142 longas, apenas um foi dirigido por uma mulher negra. De 1908 a 2015, em mais de 2,5 mil filmes brasileiros, menos de 1% teve protagonistas negros.

Ainda assim, o futuro começou — coletivo, combativo e teimoso. O cinema negro brasileiro existe, resiste e agora se expande não por concessão do mercado, mas pela insistência de quem nunca foi convidada a entrar.

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