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“Carnavais”: psicóloga explica sentidos da festa no Brasil

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Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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Carnaval tem muitos significados e nenhum é universal, diz especialista

“Não existe só um carnaval. O nome deveria ser carnavais.” A frase é da professora Ana Beatriz Dias, da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), especialista em comportamento humano, em entrevista à Agência Brasil sobre curiosidades do feriado prolongado.

A ideia central da pesquisadora é direta: a festa não cabe em um único molde. Por isso, o que se chama de Carnaval pode ir do Sambódromo a um show de rock, passando por tradições regionais e ritos comunitários que variam de estado para estado.

Do desfile vitorioso à procissão: raízes antigas

Ana Beatriz afirma que o ato de desfilar tem origem antiga e, historicamente, esteve ligado a narrativas públicas de vitória, celebração e conquista. Depois, ela aponta um paralelo com a tradição católica das procissões, em que grupos percorrem as ruas com símbolos, música e uma organização coletiva.

Nesse caminho, a especialista diz que blocos, maracatus e cordões teriam incorporado elementos desse modelo, como a presença de instrumentistas, alegorias e estandartes que representam bairros, confrarias, times ou devoções.

Quando o sagrado recua e o corpo ocupa o centro

Segundo a professora, há um processo gradual em que o componente estritamente religioso perde centralidade e a dança passa a ocupar um lugar simbólico importante. Assim, o corpo vira linguagem social: pode indicar liberdade, cuidado, limites, excesso ou contenção.

Além disso, a leitura do Carnaval muda conforme a pessoa e o grupo. Para alguns, ele funciona como marco de “início do ano”. Para outros, é parte de uma trajetória espiritual. E, para muitos jovens, pode representar extravasamento e experiências ligadas à sexualidade, como ela menciona.

Carnaval e Quaresma: sentidos que se encostam

A pesquisadora também destaca a conexão com a tradição cristã: em determinados contextos, o período antecede a Quaresma, quando práticas como jejum e conversão ganham peso. Nessa interpretação, a festa aparece como uma espécie de transição simbólica para um tempo de disciplina e reflexão.

Ainda assim, a professora ressalta que o Brasil é um Estado laico e reúne múltiplas denominações religiosas. Por isso, as leituras convivem, se cruzam e, às vezes, se contradizem, sem que uma anule a outra.

Vínculo social e “descarga” coletiva de emoções

Para Ana Beatriz, um ponto-chave é o encontro em grupo. A intensificação emocional, diz ela, pode fortalecer vínculos, renovar pertencimentos e reduzir a sensação de isolamento. Nesse sentido, o Carnaval vira um ritual social de reorganização: por um tempo, a sociedade “descarrega” tensões e reordena significados.

No fim, a tese é simples e exigente ao mesmo tempo: a cultura popular expõe a saúde simbólica de uma comunidade, porque ela revela desejos, fantasias, medos e formas de convivência. E, justamente por isso, falar em “carnavais” pode ser mais preciso do que insistir em um Carnaval único.

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