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EUA propõem tarifa extra de 12,5% sobre Brasil

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Medida ainda está em consulta pública e pode afetar importações brasileiras

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos propôs aplicar tarifa adicional de 12,5% sobre importações brasileiras em uma investigação relacionada ao combate ao comércio de produtos fabricados com trabalho forçado. A medida ainda não está em vigor e passará por etapa de comentários públicos antes de eventual decisão final.

A proposta faz parte de um conjunto de 60 investigações abertas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974, instrumento que permite ao governo americano apurar práticas consideradas injustas ou prejudiciais aos interesses comerciais do país. No caso brasileiro, o USTR enquadrou o Brasil no grupo sujeito à tarifa proposta de 12,5%, ao lado de dezenas de outras economias.

O ponto central é que a tarifa ainda é uma proposta, não uma sanção definitiva. O USTR abriu prazo para manifestações até 6 de julho de 2026 e marcou audiência pública para 7 de julho. Interessados em participar da audiência devem solicitar inscrição e enviar resumo do depoimento até 22 de junho.

Brasil entra no grupo com tarifa mais alta

A proposta americana prevê dois níveis de tarifa adicional. Um grupo de países e blocos ficaria sujeito a 10%, enquanto outro grupo, que inclui Brasil, China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Suíça, ficaria sujeito a 12,5%.

A justificativa apresentada pelo USTR é que os países investigados não teriam imposto ou aplicado, de forma considerada suficiente pelos Estados Unidos, proibições à importação de bens produzidos com trabalho forçado. A autoridade americana sustenta que essa falha criaria concorrência desleal contra trabalhadores e empresas dos Estados Unidos.

Essa leitura, porém, tende a gerar disputa diplomática e comercial. O tema do trabalho forçado é grave e exige controle nas cadeias globais de produção. Mas o uso de tarifas amplas contra dezenas de países também levanta questionamentos sobre proporcionalidade, método de apuração e efeito real sobre consumidores e empresas.

Seção 301 permite retaliação comercial

A Seção 301 é um mecanismo unilateral de política comercial americana. Ela autoriza o governo dos Estados Unidos a investigar atos, políticas ou práticas de outros países e, se entender que são injustificáveis, irrazoáveis ou discriminatórias, adotar medidas de resposta, inclusive tarifas.

No documento publicado no Registro Federal americano, o USTR afirma que a estrutura legal da Seção 301 permite considerar uma conduta estrangeira como irrazoável mesmo quando ela não viola, necessariamente, uma obrigação internacional específica dos Estados Unidos.

É justamente aí que mora a tensão. O governo americano usa uma ferramenta doméstica para produzir efeitos comerciais internacionais. Para os países atingidos, a medida pode ser vista como pressão econômica. Para Washington, é instrumento de defesa comercial. No meio, ficam empresas, exportadores e consumidores tentando descobrir quanto custará a próxima rodada da briga.

Medida surge após disputa judicial sobre tarifas

A nova proposta aparece em um contexto de disputa jurídica sobre a política tarifária americana. A administração Trump vem tentando preservar ou reconstruir instrumentos de tarifa após decisões judiciais contrárias a medidas anteriores. Reportagens internacionais apontam que a estratégia atual busca substituir tarifas derrubadas ou questionadas por uma base jurídica diferente, agora apoiada na Seção 301.

Esse contexto é relevante porque mostra que o debate não se limita ao trabalho forçado. Há também uma disputa maior sobre até onde o Executivo americano pode ir na imposição unilateral de tarifas e como o Congresso, os tribunais e os parceiros comerciais reagirão.

Para o Brasil, o risco imediato é a elevação do custo de entrada de produtos brasileiros no mercado americano, caso a proposta seja confirmada. O impacto setorial dependerá da lista final de produtos, eventuais exceções, volume exportado e capacidade das empresas de absorver ou repassar o custo.

Consulta pública será etapa decisiva

O prazo de comentários públicos até 6 de julho abre espaço para governos, empresas, associações setoriais e demais interessados contestarem os fundamentos da medida, apresentarem dados e pedirem ajustes ou exclusões. A audiência marcada para 7 de julho deve servir para sustentar, criticar ou tentar alterar a proposta antes de eventual decisão final.

A reação internacional já começou. Representantes europeus classificaram novas tarifas como inaceitáveis e defenderam que a União Europeia já adotou legislação rigorosa contra produtos ligados a trabalho forçado. Esse tipo de contestação indica que a proposta poderá abrir mais uma frente de tensão comercial entre os Estados Unidos e parceiros relevantes.

No caso brasileiro, será importante observar se o governo federal apresentará manifestação formal, quais setores exportadores podem ser mais expostos e se haverá negociação diplomática antes da conclusão do processo.

Tarifa proposta exige resposta técnica do Brasil

A proposta de tarifa de 12,5% contra importações brasileiras precisa ser tratada com seriedade, mas sem precipitação. Ela ainda está em fase de consulta e pode mudar. Ainda assim, o simples enquadramento do Brasil em uma investigação de trabalho forçado já tem peso reputacional e comercial.

O Brasil tem instrumentos legais e estruturas de fiscalização contra trabalho análogo à escravidão, mas a discussão americana se concentra na capacidade de impedir que produtos fabricados com trabalho forçado entrem nas cadeias comerciais. Essa diferença técnica será central na resposta brasileira.

O melhor caminho para o país não é apenas protestar contra a tarifa. É apresentar dados, fiscalização, legislação, operações, cadeias monitoradas e argumentos comerciais consistentes. Comércio internacional não perdoa silêncio mal documentado.

Se confirmada, a tarifa pode encarecer exportações brasileiras e aumentar incerteza para empresas que vendem aos Estados Unidos. Se contestada com base robusta, a proposta ainda pode ser revista. Por enquanto, o Brasil está diante de um aviso tarifário. A resposta terá de ser técnica, diplomática e rápida.

Relacionadas, fontes e documentos:

Amorim reage a designação dos EUA e defende soberania (Fonte em Foco)
Brasil entra na faixa mais alta do IDHM (Fonte em Foco)
Inflação prevista supera teto da meta em 2026 (Fonte em Foco)
FGTS poderá quitar dívidas no Novo Desenrola (Fonte em Foco)
– EUA propõem tarifas a 60 países, incluindo o Brasil (Agência Brasil)

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