Preços ainda devem superar o teto da meta, mantendo juros e crédito sob pressão ao longo do ano
A expectativa do mercado financeiro para a inflação brasileira caiu pela segunda semana consecutiva, mas continua acima do limite estabelecido para a meta oficial. A mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo recuou de 5,30% para 5,16% em 2026, conforme o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (13) pelo Banco Central.
A redução indica uma percepção menos desfavorável sobre o comportamento dos preços, mas ainda não representa inflação controlada dentro da meta. O objetivo perseguido pelo Banco Central é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.
Caso a projeção se confirme, o IPCA terminará o ano 0,66 ponto percentual acima do teto da meta. Esse desvio ajuda a explicar por que o mercado ainda espera juros elevados, apesar do início do processo de redução da taxa Selic.
Inflação 2026 segue acima do limite oficial
O Boletim Focus reúne previsões enviadas por bancos, gestoras, consultorias e outras instituições participantes do Sistema de Expectativas de Mercado. Os números representam a mediana das respostas e não correspondem a uma projeção produzida pelo próprio Banco Central.
As estimativas podem mudar semanalmente conforme novos dados de preços, atividade econômica, câmbio, contas públicas e decisões de política monetária são divulgados.
A queda da projeção ocorreu depois de o IPCA de junho registrar alta de 0,16%, abaixo dos 0,58% observados em maio. Foi a quarta desaceleração mensal consecutiva do índice.
Em 12 meses, a inflação acumulada passou de 4,72% para 4,64%. O resultado permanece acima do teto de 4,5%, embora esteja mais próximo do limite do que no mês anterior.
Queda dos alimentos ajudou a conter o IPCA
O grupo Alimentação e bebidas recuou 0,24% em junho, primeira queda desde novembro de 2025. A alimentação no domicílio caiu 0,39%, influenciada principalmente pelos preços menores do café moído, das frutas e das carnes.
A redução dos alimentos contribuiu para aliviar o orçamento das famílias, especialmente das que destinam parcela maior da renda às compras básicas. O efeito, porém, não foi suficiente para eliminar outras pressões sobre o índice.
Habitação apresentou alta de 0,63% e exerceu o maior impacto sobre a inflação mensal. A energia elétrica residencial subiu 1,53%, ainda sob influência da bandeira tarifária amarela e de reajustes aplicados em algumas regiões.
Em Brasília, o IPCA avançou 0,52% em junho, acima da média nacional. Passagens aéreas e gasolina estiveram entre as principais pressões locais.
Os dados completos podem ser consultados na divulgação do IPCA de junho.
Mercado mantém projeção de crescimento em 1,99%
A expectativa para o Produto Interno Bruto permaneceu em 1,99% em 2026 pela segunda semana consecutiva. O indicador representa a soma dos bens e serviços finais produzidos no país.
Para 2027, o mercado projeta crescimento de 1,65%. A estimativa para 2028 está em 2%.
As previsões apontam expansão moderada da economia, compatível com um ambiente em que os juros continuam elevados e limitam o consumo financiado, os investimentos empresariais e a contratação de crédito.
O efeito da Selic não ocorre de maneira imediata. Mudanças na taxa básica levam meses para chegar integralmente aos empréstimos, ao consumo, à atividade econômica e aos preços.
Dólar deve terminar o ano em R$ 5,20
A mediana das projeções para a cotação do dólar no fim de 2026 permaneceu em R$ 5,20. Para os encerramentos de 2027 e 2028, as estimativas estão em R$ 5,28 e R$ 5,34, respectivamente.
O câmbio interfere diretamente nos preços de produtos importados, combustíveis, medicamentos, máquinas e insumos utilizados pela indústria e pelo agronegócio.
A valorização do dólar pode elevar custos internos e pressionar a inflação. Uma cotação menor tende a produzir o movimento contrário, embora o repasse aos consumidores dependa da duração e da intensidade da variação.
As projeções cambiais também respondem a fatores externos, como os juros dos Estados Unidos, a circulação internacional de capitais e a percepção de risco sobre economias emergentes.
Selic deve cair para 14% até dezembro
O mercado manteve em 14% ao ano a expectativa para a Selic no fim de 2026. A projeção está estável pela terceira semana consecutiva.
A taxa atual é de 14,25%, definida pelo Comitê de Política Monetária nos dias 16 e 17 de junho. O corte de 0,25 ponto percentual foi o segundo consecutivo depois de a Selic permanecer em 15% entre junho de 2025 e março de 2026.
A projeção de 14% indica que os participantes da pesquisa esperam ao menos mais uma redução de 0,25 ponto até dezembro. Isso não significa, entretanto, que o corte esteja assegurado.
A próxima reunião do Comitê de Política Monetária está marcada para os dias 4 e 5 de agosto. O colegiado avaliará a evolução da inflação, as expectativas, a atividade econômica, o mercado de trabalho, o câmbio e o cenário fiscal antes de decidir.
Para 2027, a projeção da Selic permanece em 12%. A estimativa para 2028 é de 10,5%.
Crédito não acompanha automaticamente a taxa básica
Quando o Banco Central reduz a Selic, o custo do dinheiro tende a diminuir ao longo do tempo. Esse movimento pode favorecer o consumo, o investimento e a produção, mas também pode aumentar a demanda e dificultar a redução da inflação.
Quando a taxa sobe ou permanece elevada, financiamentos e empréstimos tendem a ficar mais caros. O objetivo é reduzir a circulação de dinheiro e conter pressões sobre os preços.
A Selic, contudo, não é o único componente das taxas cobradas de consumidores e empresas. Os bancos também consideram risco de inadimplência, despesas administrativas, impostos, margem de lucro e condições específicas de cada operação.
Por isso, uma redução de 0,25 ponto na taxa básica não significa queda automática ou proporcional nos juros do cartão de crédito, do cheque especial ou dos empréstimos pessoais.
INPC acumula alta de 4,33% em 12 meses
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor fechou junho com alta de 0,14% e acumulou 4,33% em 12 meses. Em maio, a taxa mensal havia sido de 0,65%.
O INPC acompanha a variação dos preços para famílias com renda de um a cinco salários mínimos cujo responsável seja assalariado. O indicador é usado como referência em negociações trabalhistas, reajustes salariais e correções de benefícios.
O IPCA abrange famílias com renda de um a 40 salários mínimos, independentemente da origem dos rendimentos, e é utilizado como índice oficial de inflação do país.
Queda da projeção reduz pressão, mas não encerra o problema
A revisão do Focus melhora a leitura sobre a trajetória dos preços, sobretudo após a desaceleração do IPCA e a queda dos alimentos. Ainda assim, uma inflação projetada em 5,16% mantém o país fora do intervalo da meta.
O desafio do Banco Central é permitir que a inflação retorne ao limite estabelecido sem produzir uma desaceleração excessiva da economia. Cortar juros rapidamente pode reacender pressões sobre os preços. Manter a taxa elevada por muito tempo encarece o crédito e limita o crescimento.
A estabilidade das projeções para PIB, dólar e Selic mostra que a melhora observada na inflação ainda não alterou de forma significativa o cenário econômico mais amplo. O mercado retirou alguns décimos da previsão, mas a conta continua acima do teto.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Bolsa sobe quase 3% após IPCA abaixo do esperado (Fonte em Foco)
– Imposto sobre petróleo seguirá em 12% por 60 dias (Fonte em Foco)
– Poupança perdeu R$ 39,3 bilhões no semestre (Fonte em Foco)
– Dólar caiu a R$ 5,13 e Bolsa recuou (Fonte em Foco)
– Mercado reduz previsão de inflação para 2026 (Fonte em Foco)
– Brasil contesta novas barreiras da UE ao aço brasileiro (Fonte em Foco)
– Focus Relatório de Mercado (Banco Central do Brasil)
– Ata da 279ª reunião do Copom (Banco Central do Brasil)
– Calendário de reuniões do Copom em 2026 (Banco Central do Brasil)
– Boletim Focus: mercado reduz expectativa de inflação para 5,16% (Agência Brasil)

