Medo da dor, falhas no pré-natal e incentivos do sistema afastam gestantes do parto normal
Sete em cada dez brasileiras manifestam preferência pelo parto normal no início da gravidez, mas mais de 60% dos nascimentos no país ocorreram por cesariana em 2025. A distância entre o desejo inicial e a via de nascimento revela que a decisão não depende apenas da vontade individual da gestante.
Medo da dor, relatos traumáticos, falta de informação, acesso desigual à analgesia e um modelo de assistência que pode favorecer procedimentos agendados integram o conjunto de fatores identificados pelo estudo Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes.
A pesquisa qualitativa ouviu 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo e Belém, nos setores público e privado. O levantamento também analisou estudos científicos sobre as escolhas e as condições encontradas pelas mulheres durante a gestação e o parto.
Os resultados não representam estatisticamente todas as gestantes do país. Eles ajudam, porém, a compreender como fatores psicológicos, familiares, econômicos e institucionais podem transformar uma preferência inicial pelo parto vaginal em uma cesariana, inclusive quando não há indicação clínica identificada.
Cesárea salva vidas, mas não é uma cirurgia sem riscos
A cesariana é um procedimento essencial quando há risco para a gestante ou para o bebê. Em emergências obstétricas, a cirurgia pode evitar mortes e complicações graves.
Quando realizada sem necessidade médica, entretanto, não oferece benefícios adicionais comprovados e envolve riscos imediatos e futuros associados a qualquer cirurgia de grande porte. Entre eles estão infecções, hemorragias, reações à anestesia e complicações em gestações posteriores.
A Organização Mundial da Saúde não estabelece atualmente uma taxa única de cesarianas que países ou hospitais devam cumprir. A análise da entidade aponta que o aumento da proporção de cirurgias até cerca de 10% da população está associado à redução da mortalidade materna e neonatal. Acima desse patamar, não há evidência de redução adicional dessas mortes.
Isso não significa que toda taxa superior a 10% seja automaticamente inadequada. Hospitais que recebem gestações de alto risco, por exemplo, podem precisar realizar mais cesarianas. O problema central é assegurar que cada procedimento decorra de uma necessidade clínica e não de pressões, incentivos ou falhas na assistência.
No Brasil, a proporção elevada e a diferença entre os setores público e privado indicam que a organização do cuidado também interfere na via de nascimento. A pesquisa nacional Nascer no Brasil já havia identificado cesarianas em 88% dos partos do setor privado e em 46% dos atendimentos públicos analisados.
Medo da dor começa antes do trabalho de parto
A recuperação mais rápida apareceu entre os principais motivos relatados para a preferência pelo parto normal. No sentido contrário, o medo da dor favorece a escolha da cirurgia.
Esse temor não se forma apenas a partir de informações médicas. Relatos de mães, avós, amigas e outras mulheres da família influenciam a percepção da gestante sobre o que encontrará na maternidade.
Histórias de episiotomias, intervenções sem explicação, induções consideradas desnecessárias e tratamento desrespeitoso ajudam a consolidar a ideia de que o parto vaginal é necessariamente uma experiência de sofrimento.
Parte desses relatos pode envolver práticas inadequadas ou situações reconhecidas como violência obstétrica. Ao circular entre gerações, experiências negativas deixam de ser apenas memórias individuais e passam a orientar decisões futuras.
O desafio, portanto, não consiste em convencer mulheres a suportar a dor ou desconsiderar experiências traumáticas. Exige oferecer assistência respeitosa, informação objetiva e alternativas eficazes para o alívio do sofrimento.
Desigualdade muda os motivos de cada escolha
A pesquisa identificou diferenças importantes entre as experiências relatadas por usuárias do Sistema Único de Saúde e por mulheres atendidas na rede privada.
Entre as usuárias do SUS, a recuperação mais rápida após o parto normal apareceu associada à falta de uma rede de apoio. Muitas mulheres precisam retomar cedo os cuidados com outros filhos, com a casa ou com atividades de trabalho.
Nesse contexto, a preferência pelo parto vaginal nem sempre decorre apenas da avaliação de benefícios clínicos. Pode refletir a impossibilidade econômica e familiar de enfrentar um pós-operatório mais longo.
Na rede privada, mulheres que buscavam o parto normal relataram maior possibilidade de contratar equipes próprias, doulas ou profissionais dispostos a acompanhar todo o trabalho de parto. Algumas disseram ter trocado de médico depois de encontrar resistência ao parto vaginal.
A diferença mostra que autonomia também depende de renda, informação e acesso a profissionais. Duas gestantes podem declarar a mesma preferência, mas dispor de condições muito diferentes para que ela seja respeitada.
Falta de analgesia limita a autonomia no SUS
O acesso ao controle da dor é outro ponto de desigualdade. A analgesia costuma estar mais disponível nos hospitais privados e permanece restrita em parte da rede pública.
Como a duração e a intensidade do trabalho de parto variam, a impossibilidade de recorrer à analgesia pode fazer com que a cesariana pareça a única alternativa diante do sofrimento.
Métodos não farmacológicos, como banho morno, liberdade de movimento, massagens, exercícios respiratórios e acompanhamento contínuo, também dependem da estrutura da maternidade e da preparação da equipe.
Sem essas condições, o discurso da livre escolha perde consistência. A gestante pode formalmente decidir, mas sua decisão ocorre dentro de um conjunto limitado de opções.
Laqueadura também pode influenciar a via de nascimento
Entre as usuárias do SUS, o desejo de realizar a laqueadura apareceu como um fator capaz de favorecer a escolha pela cesariana.
A associação pode ocorrer quando a mulher desconhece que o procedimento também pode ser realizado após um parto vaginal ou em outro momento, conforme os critérios legais e clínicos.
A falta de orientação sobre métodos contraceptivos reversíveis de longa duração, como o dispositivo intrauterino e o implante subdérmico, também reduz as alternativas apresentadas durante o planejamento reprodutivo.
Quando a cesariana passa a ser vista como caminho necessário para obter a esterilização, a decisão sobre a via de nascimento deixa de considerar apenas as condições obstétricas.
Pré-natal informa pouco sobre o trabalho de parto
A equipe de saúde continua sendo reconhecida como uma das principais referências das gestantes, mesmo diante da grande quantidade de conteúdo disponível nas redes sociais.
Essa autoridade, porém, nem sempre se traduz em preparação adequada. Participantes relataram orientações superficiais sobre as fases do trabalho de parto, o manejo da dor, os direitos da gestante e a elaboração do Plano de Parto.
O documento permite registrar preferências sobre acompanhante, movimentação, alimentação, intervenções, contato com o bebê e outras etapas da assistência. Ele não substitui decisões clínicas necessárias diante de emergências, mas ajuda a organizar o diálogo entre a gestante e a equipe.
O estudo também identificou baixa adesão a atividades educativas, início tardio do pré-natal e acolhimento considerado inadequado por adolescentes.
Entre parte das usuárias do SUS, apareceu ainda a percepção de que a preparação teria pouca utilidade porque a equipe médica acabaria decidindo sozinha a forma de nascimento.
Essa sensação de impotência evidencia uma falha sistêmica. Não basta reconhecer juridicamente a autonomia da gestante quando ela não recebe informação, não conhece a equipe que realizará o parto e não sabe se suas preferências serão consideradas.
Organização do trabalho pode favorecer cirurgias agendadas
No setor privado, profissionais ouvidos na pesquisa mencionaram fatores econômicos e institucionais que podem desencorajar o parto normal.
O trabalho de parto pode durar muitas horas, exige disponibilidade imprevisível e demanda acompanhamento contínuo. A cesariana agendada, por outro lado, permite organizar horários, equipes e uso das instalações com maior previsibilidade.
Esses fatores não comprovam que uma cirurgia específica tenha sido realizada por conveniência. Eles revelam, contudo, que o modelo de remuneração e organização do trabalho pode criar incentivos contrários à espera do parto vaginal.
Reverter esse padrão exige avaliar contratos, formas de pagamento, disponibilidade das equipes e segurança jurídica para decisões baseadas em evidências.
Unicef propõe mudanças antes, durante e depois do parto
Entre as recomendações apresentadas estão a qualificação do pré-natal, a ampliação do acesso à analgesia e a adoção de métodos não farmacológicos para o controle da dor.
O estudo também propõe envolver acompanhantes nas orientações, ampliar a atuação de doulas, obstetrizes e enfermeiras obstetras e garantir que as maternidades recebam e registrem o Plano de Parto.
Outras medidas incluem fortalecer a vinculação antecipada da gestante à unidade onde ocorrerá o nascimento, expandir Centros de Parto Normal e melhorar o acesso à laqueadura após o parto vaginal.
Na área de gestão, a recomendação é revisar modelos de remuneração que possam estimular cesarianas sem indicação clínica e divulgar indicadores maternos e neonatais com transparência.
Escolha só existe quando as alternativas são reais
A alta proporção de cesarianas não pode ser explicada pela ideia simplista de que as brasileiras rejeitam o parto normal. A própria preferência declarada no início da gestação contraria essa conclusão.
O caminho entre o desejo e o nascimento é atravessado por medo, desigualdade, experiências familiares, acesso à informação e decisões institucionais.
Garantir autonomia não significa pressionar todas as gestantes a escolher a mesma via. Significa assegurar condições para que a decisão seja informada, respeitada e revista quando houver necessidade clínica.
Sem analgesia, orientação suficiente, equipe preparada e alternativas acessíveis, a escolha pode existir no formulário, mas desaparecer na sala de parto.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Anvisa atualiza regras para vacinas contra covid (Fonte em Foco)
– Falta de ar pode indicar insuficiência cardíaca (Fonte em Foco)
– Crianças correm mais risco após picada de escorpião (Fonte em Foco)
– Vacina contra VSR reduz internações em idosos (Fonte em Foco)
– Fiocruz melhora vacina ampla contra malária (Fonte em Foco)
– Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes (Unicef)
– Por que tantas mulheres querem parto normal, mas acabam tendo cesáreas (Unicef)
– Fatores sociais e estruturais empurram mulheres para cesarianas (Agência Brasil)

