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Café, carne, petróleo e aviões escapam de tarifa dos EUA

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Isenções preservam um terço das vendas brasileiras, mas indústria e etanol continuam expostos à sobretaxa de 25%

Produtos de aviação civil, petróleo, carne bovina e café ficaram fora da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos às mercadorias brasileiras. Juntos, esses segmentos responderam por aproximadamente um terço das exportações do Brasil ao mercado norte-americano no primeiro semestre de 2026, o que reduz o impacto imediato da medida sobre parte relevante da pauta comercial.

A proteção, porém, não alcançou toda a economia. Ferro e aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos, máquinas agrícolas, equipamentos elétricos não destinados à aviação e outros produtos manufaturados permanecem sujeitos à cobrança adicional, prevista para entrar em vigor em 22 de julho.

Tarifa dos EUA preserva produtos considerados essenciais

A lista de exceções também inclui celulose, minério de ferro, ferro-gusa, laranja e suco de laranja. O documento norte-americano reúne centenas de classificações tarifárias e exige que cada exportador confira o código específico da mercadoria, porque a isenção pode abranger apenas determinadas apresentações, composições ou usos do produto.

A carne bovina fresca, refrigerada ou congelada aparece entre as mercadorias dispensadas da sobretaxa. A relação contempla diferentes cortes, formas de processamento e enquadramentos no sistema tarifário dos Estados Unidos.

No setor aeronáutico, a isenção abrange aeronaves, helicópteros, motores, turbinas, componentes e uma extensa relação de equipamentos destinados à aviação. Máquinas elétricas e outros bens de capital sem uso aeronáutico, entretanto, não recebem automaticamente o mesmo tratamento.

Produtos derivados de petróleo também foram incluídos na relação, que menciona combustíveis, querosene, óleos lubrificantes, coque de petróleo e outros itens classificados em códigos específicos. A extensão prática da proteção dependerá do enquadramento aduaneiro de cada embarque.

Falta de produção interna pesou na escolha das exceções

A decisão norte-americana afirma que foram preservadas matérias-primas e mercadorias cuja taxação poderia causar falta de abastecimento, elevação relevante de custos ou perturbações mais amplas na economia dos Estados Unidos.

Também foram retirados da cobrança produtos que não podem ser cultivados ou fabricados internamente em quantidade suficiente ou a preços considerados razoáveis. Outro critério foi a possibilidade de a tarifa não contribuir de forma significativa para pressionar o Brasil a alterar as políticas contestadas pela investigação.

O desenho das exceções revela um limite econômico da própria medida. A tarifa foi apresentada como instrumento de pressão sobre o governo brasileiro, mas parte expressiva das importações foi preservada para evitar que o custo recaísse sobre empresas, indústrias e consumidores norte-americanos.

Café brasileiro ganha proteção mais ampla

A lista final excluiu da sobretaxa o café verde, o torrado, o descafeinado, cascas, substitutos à base de café e diferentes produtos industrializados. O café solúvel não aromatizado, inicialmente ameaçado pela cobrança, também foi incorporado à relação de exceções após as audiências públicas realizadas em Washington.

Durante a consulta, representantes do setor argumentaram que a produção norte-americana não seria capaz de substituir o volume fornecido pelo Brasil e que outros países não atenderiam integralmente às especificações e à escala exigidas pela indústria dos Estados Unidos.

A Associação Brasileira da Indústria de Café, a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil consideraram a decisão uma vitória da articulação realizada com importadores e com a National Coffee Association. As entidades estimam que as vendas brasileiras do produto aos Estados Unidos variem entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano.

Nova investigação ainda mantém risco para o setor

A isenção não encerra a incerteza para o café brasileiro. As entidades alertam que outra investigação comercial norte-americana permanece em andamento e poderia gerar uma tarifa adicional de 12,5%.

O risco precisa ser tratado com cautela. A cobrança ainda não foi formalmente adotada no processo citado pelas associações e dependerá da conclusão da investigação e de eventual decisão do governo dos Estados Unidos.

Setores industriais continuam sob maior pressão

As exceções protegem produtos de grande peso na balança comercial, mas deixam expostos segmentos com cadeias produtivas mais extensas e maior presença de bens manufaturados.

A sobretaxa pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, obrigar exportadores a renegociar contratos ou diminuir margens para preservar clientes. Empresas sem mercado alternativo de curto prazo tendem a enfrentar maior dificuldade, especialmente quando concorrem com fornecedores de países não alcançados pela mesma cobrança.

O efeito não será uniforme. Ele dependerá do peso dos Estados Unidos nas vendas de cada empresa, da possibilidade de repassar custos ao comprador, da existência de contratos de longo prazo e da capacidade de redirecionar a produção para outros mercados.

Isenções reduzem o impacto, mas não eliminam o conflito

O governo brasileiro rejeitou a legitimidade da investigação e anunciou que iniciará os procedimentos da Lei de Reciprocidade Econômica. Também informou que pretende levar novamente a controvérsia ao mecanismo de solução de disputas da Organização Mundial do Comércio.

A resposta brasileira poderá envolver suspensão de concessões comerciais ou outras contramedidas, mas a aplicação depende de análise técnica e de tramitação administrativa. Não se trata, portanto, de retaliação automática.

A lista de exceções evita uma ruptura mais ampla nas exportações brasileiras aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, concentra a pressão em setores industriais que empregam trabalhadores, compram insumos de fornecedores nacionais e possuem menor capacidade de substituir rapidamente o mercado norte-americano.

O resultado é uma barreira comercial menos abrangente do que a formulação inicial sugeria, mas ainda suficientemente ampla para gerar perdas, incerteza contratual e pressão sobre investimentos. O tarifaço escapou dos produtos que os Estados Unidos mais precisam importar. Para os demais, a conta continua na mesa.

Relacionadas, fontes e documentos:

Brasil aciona reciprocidade após tarifa de 25% dos EUA (Fonte em Foco)
Serviços recuam 0,4% em maio puxados por transportes (Fonte em Foco)
Receita paga restituição automática a 3,5 milhões (Fonte em Foco)
Mistura de etanol na gasolina sobe para 32% por 180 dias (Fonte em Foco)
Segundo lote do IR alcança 9,5 milhões de contribuintes (Fonte em Foco)
– Notice of Action Brazil Section 301 (USTR)
– Estatísticas de Comércio Exterior (MDIC)
Aeronaves, óleo, café e carne estão fora do tarifaço imposto pelos EUA (Agência Brasil)

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