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Brasil pode ter 127 dias de calor extremo até 2075

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Norte e Centro-Oeste enfrentarão maior exposição, com impactos sobre saúde, energia, trabalho e infraestrutura

O calor extremo pode deixar de ser um episódio concentrado em alguns períodos do ano e ocupar cerca de um terço do calendário brasileiro até 2075. Projeções da plataforma de inteligência climática i4sea indicam que o país poderá passar dos atuais seis para até 127 dias anuais sob temperaturas extremas.

O levantamento estima aumento de 1,7°C na temperatura máxima média do Brasil. Em algumas localidades, a elevação projetada chega a 7°C, revelando que a média nacional encobre diferenças profundas entre regiões e municípios.

O Norte aparece como a área mais exposta, seguido pelo Centro-Oeste. O cenário amplia riscos de doenças relacionadas ao calor, interrupções de atividades ao ar livre, crescimento do consumo de energia e desgaste acelerado de estruturas projetadas para condições climáticas menos severas.

Calor extremo avança de seis para 127 dias

A i4sea aplicou ao território brasileiro resultados de mais de 26 modelos climáticos globais e realizou um processo de refinamento espacial para estimar mudanças em escalas regionais e locais até 2075.

Entre os modelos utilizados está o MPI-ESM1-2-HR, desenvolvido pelo Instituto Max Planck de Meteorologia. A análise considerou um cenário intermediário de emissões de gases de efeito estufa, e não a hipótese mais severa utilizada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

Modelos climáticos não funcionam como uma previsão meteorológica para um dia específico. Eles simulam possíveis trajetórias do sistema climático a partir de hipóteses sobre emissões, concentração de gases, uso do solo e comportamento da atmosfera e dos oceanos.

Por isso, os 127 dias representam uma projeção condicionada ao cenário e ao método adotados. O número não significa que todos os municípios brasileiros enfrentarão exatamente a mesma quantidade de dias extremos.

O material público divulgado pela empresa não apresenta de forma completa o limite de temperatura utilizado para definir “calor extremo”, a série histórica tomada como referência nem o intervalo de incerteza entre os modelos. Esses dados são essenciais para comparar o levantamento com outras pesquisas climáticas.

Região Norte pode enfrentar 193 dias de calor extremo

A Região Norte concentra as projeções mais severas. A temperatura máxima média poderá subir 2,8°C até 2075, enquanto o número de dias de calor extremo poderá chegar a 193 por ano.

Isso significa que a condição extrema poderá permanecer durante mais da metade do calendário em parte da região.

Rondônia apresenta o maior aumento estadual da temperatura máxima média, com elevação projetada de 3,95°C. Acre aparece em seguida, com 3,36°C, e Roraima, com 3,16°C.

Embora Rondônia lidere o aumento de temperatura, Roraima apresenta a maior quantidade projetada de dias extremos. O estado poderá chegar a 250 dias de calor extremo por ano, o equivalente a aproximadamente dois terços do calendário.

A diferença entre os indicadores mostra que aumento médio de temperatura e número de dias extremos não são medidas idênticas. Um estado pode registrar elevação média menor, mas permanecer por mais tempo acima do limite definido como extremo.

Centro-Oeste pode passar de cinco para 107 dias

No Centro-Oeste, o aumento projetado da temperatura máxima média é de 2°C.

A quantidade de dias de calor extremo poderá passar dos atuais cinco para 107 por ano. O avanço afetaria uma região estratégica para a produção agropecuária, a geração de energia, o transporte rodoviário e a conservação de biomas como Cerrado e Pantanal.

Temperaturas elevadas aumentam a perda de água por evaporação, ampliam a demanda por irrigação e podem reduzir o rendimento de culturas e animais.

O impacto não depende apenas da temperatura registrada durante o dia. Noites persistentemente quentes dificultam a recuperação do corpo humano, elevam o uso de aparelhos de refrigeração e mantêm a demanda elétrica em níveis altos durante períodos mais longos.

O portal de Projeções Climáticas no Brasil, mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, permite consultar diferentes cenários de temperatura, precipitação e eventos extremos no território nacional.

Sul terá aumento menor, mas multiplicará dias extremos

A Região Sul apresenta a menor elevação média entre os recortes divulgados, com aumento projetado de 1,1°C.

Apesar disso, o número de dias de calor extremo poderá passar de quatro para 38 por ano.

O crescimento demonstra que uma mudança aparentemente menor na média pode alterar de forma expressiva a frequência dos extremos. Temperaturas próximas ao limite crítico podem ultrapassá-lo repetidamente mesmo diante de uma elevação média moderada.

A região também enfrenta riscos associados à combinação entre calor, estiagens e eventos de chuva intensa. Mudanças no regime térmico podem afetar agricultura, saúde pública, disponibilidade de água e estabilidade da infraestrutura.

País pode enfrentar até 13 ondas de calor por ano

O estudo indica que o Brasil poderá registrar até 13 ondas de calor anuais até 2075.

Uma onda de calor não corresponde apenas a um dia muito quente. O fenômeno envolve temperaturas persistentemente elevadas durante vários dias, acima do padrão esperado para determinada região e época do ano.

A definição técnica pode variar conforme o órgão meteorológico, a área analisada e a série histórica utilizada. Essa variação explica por que diferentes estudos podem apresentar números distintos sem necessariamente serem contraditórios.

Pesquisas científicas sobre a América Central e a América do Sul já indicam aumento da frequência, da duração e da exposição populacional às ondas de calor ao longo do século.

No Brasil, estudos baseados em registros observados também apontam crescimento expressivo dos dias associados a ondas de calor nas últimas décadas. O cenário projetado pela i4sea amplia uma tendência que já aparece nas medições históricas.

Exposição prolongada amplia riscos à saúde

O aumento do calor extremo afeta diretamente a capacidade do organismo de controlar a própria temperatura.

Idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças cardiovasculares, respiratórias ou renais e trabalhadores expostos ao sol apresentam maior risco de desidratação, exaustão térmica e agravamento de problemas de saúde.

A combinação entre temperatura elevada e umidade também interfere na capacidade de resfriamento pela transpiração. Nessas condições, o corpo pode enfrentar sobrecarga mesmo quando a temperatura do ar isoladamente não parece excepcional.

Hospitais e unidades de saúde precisarão considerar o aumento das internações, a necessidade de ambientes refrigerados e a continuidade do fornecimento de energia durante episódios prolongados.

Os efeitos também são desiguais dentro das cidades. Regiões com pouca arborização, excesso de concreto, moradias precárias e baixa circulação de ar costumam registrar temperaturas mais altas e menor capacidade de proteção.

Trabalho ao ar livre exigirá novos protocolos

Construção civil, agricultura, transporte, manutenção urbana, logística e operações portuárias estão entre as atividades mais expostas.

O calor reduz a capacidade física, aumenta o risco de acidentes e exige pausas, hidratação e reorganização dos horários de trabalho.

Quando a exposição deixa de ser excepcional e passa a ocupar dezenas ou centenas de dias, medidas improvisadas perdem eficácia. Empresas e governos precisam estabelecer critérios objetivos para interrupção das atividades, rodízio de equipes e proteção dos trabalhadores.

A adaptação pode incluir áreas de descanso climatizadas, água acessível, uniformes adequados, acompanhamento de sinais de estresse térmico e transferência de atividades pesadas para horários menos quentes.

A proteção também depende de fiscalização trabalhista e de critérios que não transfiram ao empregado o custo da redução da produtividade provocada pelo clima.

Energia terá demanda elevada por mais tempo

O uso de ventiladores, aparelhos de ar-condicionado, sistemas de refrigeração e bombas de água tende a crescer com o aumento da temperatura.

Picos de consumo já são observados durante ondas de calor. Com episódios mais frequentes e noites quentes, a demanda poderá permanecer elevada por períodos maiores, pressionando geração, transmissão e distribuição.

A rede elétrica também sofre com o calor. Transformadores, cabos e outros equipamentos perdem eficiência ou enfrentam desgaste adicional quando operam sob temperaturas elevadas e carga intensa.

O planejamento precisará considerar não apenas o crescimento anual do consumo, mas a concentração simultânea da demanda em cidades inteiras.

A ampliação de fontes renováveis, armazenamento, eficiência energética e isolamento térmico dos edifícios poderá reduzir parte da pressão sobre o sistema.

Infraestrutura precisará ser adaptada

Rodovias, ferrovias, aeroportos, portos, hospitais, escolas e redes de abastecimento foram projetados com base em condições climáticas históricas.

O aumento das temperaturas pode provocar deformação de pavimentos, dilatação de trilhos, falhas em equipamentos, perda de eficiência de sistemas refrigerados e maior degradação de materiais.

Na logística, o calor também interfere em cargas sensíveis, alimentos, medicamentos e produtos químicos.

Adaptar a infraestrutura não significa reconstruir todo o país de uma vez. Exige identificar os ativos mais vulneráveis, revisar padrões técnicos e incorporar projeções climáticas em obras novas, reformas e contratos de manutenção.

Sem essa mudança, estruturas entregues atualmente poderão operar durante décadas em condições diferentes das consideradas no projeto original.

Projeções precisam informar cenário e incertezas

O uso de dezenas de modelos reduz a dependência de uma única simulação e permite observar tendências comuns. Ainda assim, cada modelo responde de maneira diferente às concentrações de gases, à vegetação, aos oceanos e a outros componentes do sistema climático.

O refinamento espacial também não elimina todas as incertezas. Quanto menor a área analisada, maior a influência de fatores locais, como relevo, urbanização, cobertura vegetal e proximidade de rios ou do litoral.

Por isso, projeções climáticas devem apresentar o cenário de emissões, o período de referência, a definição dos indicadores e a variação entre os modelos.

Essas informações não enfraquecem o alerta. Ao contrário, permitem que governos, empresas e cidadãos compreendam o grau de confiança de cada resultado e adotem decisões proporcionais ao risco.

Calor precisa entrar no planejamento permanente

A projeção de 127 dias extremos não deve ser lida como uma contagem inevitável já inscrita no calendário de 2075. Ela representa o tamanho do risco caso o país siga uma trajetória intermediária de emissões e não amplie suficientemente as medidas de mitigação e adaptação.

Reduzir emissões pode limitar o aquecimento futuro. Adaptar cidades, empresas e serviços públicos pode diminuir mortes, interrupções e prejuízos mesmo quando parte da mudança climática já não pode ser evitada.

O problema central é que infraestrutura, relações de trabalho e sistemas de saúde ainda tratam o calor como uma exceção passageira.

Quando uma condição ocupa um terço ou mais do ano, ela deixa de ser emergência ocasional. Passa a determinar horários, custos, investimentos e a própria possibilidade de manter determinadas atividades.

O termômetro muda devagar quando observado de um dia para o outro. O planejamento não pode esperar cinco décadas para perceber a diferença.

Relacionadas, fontes e documentos:

Amazônia tem menor alerta de desmatamento em 20 anos (Fonte em Foco)
El Niño pode ser um dos mais fortes desde 1950 (Fonte em Foco)
Brasil tem 213 barragens sob atenção prioritária (Fonte em Foco)
Incêndios têm menor emissão global em 24 anos (Fonte em Foco)
39% dos brasileiros desconhecem economia circular (Fonte em Foco)
Inmet alerta para chuva no Norte e Nordeste (Fonte em Foco)
Projeções indicam até 127 dias de calor extremo por ano até 2075 (Agência Brasil)
– Projeções Climáticas no Brasil (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)
Ficha regional da América Central e do Sul (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas)
– Mudança do clima no Brasil (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação)

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