Alta no trimestre não apaga melhor fevereiro da série
A taxa de desocupação no Brasil subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro de 2026. Ainda assim, o resultado foi o menor já registrado para um trimestre encerrado em fevereiro desde o início da série da Pnad Contínua, em 2012. Ao mesmo tempo, o rendimento médio real habitual do trabalho chegou a R$ 3.679, novo recorde da pesquisa.
No retrato mais concreto do mercado, o país terminou o período com 102,1 milhões de pessoas ocupadas e 6,2 milhões em busca de trabalho. No trimestre móvel anterior, encerrado em novembro de 2025, eram 5,6 milhões de desocupados. Já na comparação com o mesmo trimestre de 2025, quando a taxa estava em 6,8%, houve melhora. Ou seja: o desemprego cresceu na virada recente, mas continua abaixo do patamar de um ano atrás.
O que puxou a alta no começo do ano
Segundo o IBGE, a elevação da taxa veio acompanhada de uma perda de 874 mil ocupações no trimestre. O recuo foi puxado sobretudo por administração pública, educação, saúde e serviços sociais, com menos 696 mil postos, além da construção, com menos 245 mil. A leitura técnica do instituto é de que há um componente sazonal forte nessa virada de ano, especialmente pelo encerramento de contratos temporários em educação e saúde e pela menor demanda por obras e reparos na construção.
Essa deterioração parcial não se espalhou de forma uniforme. O número de empregados no setor privado com carteira ficou em 39,2 milhões e permaneceu estável no trimestre. Os trabalhadores por conta própria também ficaram estáveis, em 26,1 milhões. Já os empregados sem carteira no setor privado recuaram para 13,3 milhões, enquanto a informalidadecaiu levemente para 37,5% da população ocupada, o equivalente a 38,3 milhões de trabalhadores.
Renda recorde segura a leitura mais ampla do mercado
Se a taxa de desocupação subiu, a renda seguiu no sentido oposto. O rendimento médio real habitual avançou 2,0% em relação ao trimestre anterior e 5,2% frente ao mesmo período de 2025, alcançando R$ 3.679. De acordo com a coordenação da pesquisa, esse movimento vem sendo sustentado por demanda ainda elevada por trabalhadores e por maior formalização em atividades ligadas ao comércio e aos serviços.
O dado ajuda a evitar um erro de interpretação comum: olhar apenas a taxa cheia e concluir que o mercado virou para pior de forma estrutural. A subutilização da força de trabalho também subiu, de 13,5% para 14,1%, mas segue abaixo dos 15,7% de um ano antes. Em outras palavras, houve perda de fôlego no curto prazo, porém em um nível historicamente ainda baixo para fevereiro.
Como o IBGE mede o desemprego
A Pnad Contínua acompanha o mercado de trabalho de pessoas com 14 anos ou mais e considera diferentes formas de ocupação, com ou sem carteira, temporária ou por conta própria. Para ser classificada como desocupada, a pessoa precisa ter procurado trabalho de forma efetiva no período de referência. A pesquisa alcança cerca de 211 mil domicílios em aproximadamente 3.500 municípios do país.
Esse desenho é importante porque impede leituras apressadas. Nem toda pessoa fora de um emprego entra automaticamente na conta do desemprego, e isso ajuda a explicar por que o dado oficial precisa ser lido junto com subutilização, desalento, ocupação e renda. Isolada, a taxa de 5,8% conta só uma parte da história; combinada com os demais indicadores, ela mostra um mercado ainda robusto, mas com perda pontual de tração no início do ano.
Quando o melhor fevereiro não basta para vender euforia
O Brasil saiu, há pouco, do piso histórico recente de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025. Agora, em fevereiro, houve uma subida para 5,8%. Isso recomenda sobriedade. O dado não autoriza discurso de crise no atacado, porque continua melhor do que o de um ano atrás e vem junto de renda recorde. Mas também não permite triunfalismo automático, porque a perda de vagas em setores relevantes mostra que a melhora do mercado não anda em linha reta.
No fundo, o número desta sexta-feira entrega um recado mais adulto do que a propaganda e mais útil do que o alarme: o mercado de trabalho brasileiro segue forte em comparação histórica recente, mas continua muito dependente da sazonalidade, da composição dos vínculos e da qualidade da ocupação gerada. Quando a renda sobe e o desemprego também, ainda que por motivos sazonais, o país não está exatamente diante de um paradoxo. Está diante de um mercado desigual, heterogêneo e incapaz de caber em slogan.
Fontes e documentos:
– PNAD Contínua taxa de desocupação é de 5,8% e taxa de subutilização é de 14,1% no trimestre encerrado em fevereiro (IBGE)
– Desemprego cresce no trimestre encerrado em fevereiro com perda de vagas na saúde, educação e construção (IBGE)
– PNAD Contínua taxa de desocupação é de 5,1% e taxa de subutilização é de 13,4% no trimestre encerrado em dezembro (IBGE)

