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Pisa 2025 revela custo da baixa aprendizagem aos estudantes

Publicado em

Reportagem:
Janaina Lemos

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A melhora relativa não paga a conta da vida real

O Pisa 2025 não fala apenas da escola. Fala da vida que espera milhões de estudantes brasileiros fora dela. Os resultados divulgados na terça-feira, 8 de setembro de 2026, mostram um país que reduziu a distância para a média da OCDE, mas ainda mantém adolescentes de 15 anos longe do nível de aprendizagem necessário para estudar, trabalhar, decidir e participar da sociedade com autonomia.

A matéria anterior do Fonte em Foco mostrou o dado central: o Brasil segue abaixo da média da OCDE em leitura, matemática e ciências, embora tenha encurtado parte da distância em relação aos países mais ricos nas últimas duas décadas. Em 2025, o país registrou 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências.

Essa aproximação, porém, exige cuidado. A própria OCDE informa que os resultados médios do Brasil em 2025 foram praticamente os mesmos de 2022 nas três áreas avaliadas. A estabilidade se estende por mais de uma década, com notas próximas às observadas desde 2015.

É aqui que o ranking pode enganar. Quando a distância diminui porque outros sistemas educacionais pioraram, o país não pode vender estabilidade como conquista plena. Para o estudante que não interpreta bem um texto, não resolve problemas matemáticos básicos ou não compreende evidências científicas simples, a média internacional é abstração. A dificuldade aparece no boleto, no emprego, no contrato, na notícia falsa, no remédio, no transporte e na urna.

O futuro dos estudantes começa antes do diploma

O Pisa mede estudantes de 15 anos, idade em que muitos jovens brasileiros já estão perto do ensino médio, do primeiro trabalho, do Enem, de cursos técnicos ou da necessidade de ajudar financeiramente em casa. O exame não avalia apenas conteúdo decorado, mas a capacidade de usar leitura, matemática e ciências em situações da vida real.

Isso muda o peso do resultado. Um estudante que não domina leitura com profundidade tem mais dificuldade para entender uma prova, uma regra pública, uma notícia, uma proposta de trabalho ou um contrato. Um jovem frágil em matemática tende a ter mais obstáculos para comparar preços, calcular juros, interpretar gráficos, estimar riscos e planejar escolhas financeiras. Em ciências, a deficiência pesa na capacidade de avaliar informações sobre saúde, tecnologia, ambiente e segurança.

A vida adulta não espera a escola resolver suas pendências. Ela cobra mesmo assim.

Matemática mostra o tamanho do atraso

A matemática continua sendo o sinal mais duro do Pisa 2025. O Brasil ficou 92 pontos atrás da média dos 23 países da OCDE citados no levantamento, diferença equivalente a cerca de 4,6 anos escolares, considerando a referência de 20 pontos por ano de aprendizagem.

A OCDE aponta que quase nenhum estudante brasileiro alcançou os níveis 5 ou 6 em matemática, enquanto a média da OCDE foi de 8%. Esses níveis reúnem alunos capazes de lidar com problemas complexos, modelar situações e avaliar estratégias de resolução.

O problema, portanto, não está apenas na base. Está também no teto. O Brasil ainda luta para garantir o mínimo a uma grande parcela dos estudantes e, ao mesmo tempo, forma poucos jovens nos níveis mais altos de desempenho. É uma dupla limitação: deixa muitos para trás e empurra poucos para a frente.

Educação fraca vira desigualdade acumulada

A matéria anterior do Fonte em Foco destacou uma diferença que deveria incomodar qualquer governo: em ciências, os 25% de estudantes brasileiros mais favorecidos superaram os 25% menos favorecidos em 96 pontos. Essa distância é maior que a média de 85 pontos observada entre países da OCDE.

Esse dado mostra que a escola brasileira ainda não consegue compensar, com força suficiente, a desigualdade que o aluno traz de casa. O estudante que nasce em uma família com mais renda, repertório, estabilidade e acesso a oportunidades chega à sala de aula em vantagem. A escola pública deveria reduzir essa distância. Quando não reduz, a desigualdade deixa de ser herança social e vira política pública mal resolvida.

A consequência aparece anos depois. Jovens com aprendizagem frágil disputam vagas piores, entram mais cedo em trabalhos precários, têm mais dificuldade de acessar o ensino superior e enfrentam barreiras para compreender direitos. A educação ruim não termina na escola. Ela acompanha o cidadão pela vida.

Tecnologia entrou na escola, mas não resolveu o pensamento

O Pisa 2025 também trouxe a aprendizagem no mundo digital para o centro do debate. O Brasil registrou 406 pontos em resolução de problemas por meio de ferramentas computacionais, abaixo da média de 500 da OCDE.

A matéria anterior mostrou ainda que 81% dos estudantes brasileiros frequentavam escolas que proibiam celulares nas dependências escolares, acima da média da OCDE, de 49%. A OCDE também registrou que, no Brasil, estudantes que relataram distração digital nas aulas de ciências tiveram desempenho 19 pontos menor que os demais, após controle socioeconômico.

A tecnologia, sozinha, não salva a aprendizagem. Ela pode ampliar acesso, acelerar pesquisa e apoiar estudo. Mas também pode fragmentar atenção, substituir esforço cognitivo e transformar estudo em cópia bem formatada. O problema não é o celular existir. O problema é a escola não conseguir disputar a atenção do estudante com método, sentido e exigência intelectual.

Responsabilidade governamental não cabe em discurso otimista

O governo pode citar avanços de longo prazo, como fez o Inep ao destacar que o Brasil está entre os países que mais avançaram em proficiência desde 2006. O dado existe e deve ser reconhecido. Mas ele não encerra a conversa, porque o desempenho de 2025 segue baixo e praticamente estável em relação a 2022.

A responsabilidade governamental começa justamente onde a comemoração termina. Não basta divulgar nota técnica, mencionar recuperação pós-pandemia e apontar melhora relativa. É preciso responder por que milhões de estudantes ainda não chegam ao nível mínimo, por que matemática segue tão distante, por que a desigualdade pesa tanto e por que os melhores desempenhos continuam raros.

Educação é política pública de longo prazo, mas isso não pode virar desculpa eterna. Cada ciclo perdido do Pisa representa uma geração que avança de série sem avançar o suficiente em aprendizagem.

O que o Pisa diz ao cidadão comum

O cidadão que não tem filho na escola também paga a conta do Pisa. Uma sociedade com baixa aprendizagem tende a ter trabalhadores menos preparados, menor produtividade, mais dificuldade de inovação, pior debate público e mais vulnerabilidade à desinformação.

O estudante que hoje não interpreta bem um texto será o adulto que precisará entender regras de crédito, orientações de saúde, políticas públicas, contratos, plataformas digitais e decisões eleitorais. O jovem que não desenvolve raciocínio matemático terá menos ferramentas para proteger sua renda. O aluno que não aprende ciências terá mais dificuldade para navegar em um mundo atravessado por tecnologia, clima, saúde e inteligência artificial.

O Pisa, no fundo, mede uma parte da cidadania possível. E o resultado brasileiro mostra que essa cidadania ainda está sendo entregue de forma desigual.

Estar menos distante não basta

O Brasil gosta de transformar resultado educacional em manchete confortável. Quando melhora um pouco, celebra. Quando cai menos que os outros, celebra também. A educação brasileira, aparentemente, descobriu uma modalidade curiosa de vitória: ficar parada enquanto parte do mundo recua.

Mas estudante não vive de comparação estatística. Vive de repertório, leitura, raciocínio, professor, escola, tempo, incentivo, família, território e oportunidade. Quando esses elementos falham, o preço não aparece apenas no boletim. Aparece na vida.

A responsabilidade governamental sobre o Pisa 2025 não é abstrata. União, estados e municípios dividem deveres na educação básica, mas nenhum deles pode tratar a aprendizagem como assunto lateral. O resultado cobra currículo bem implementado, alfabetização sólida, recomposição de perdas, formação docente, escola com sentido, gestão com dados e política pública menos apaixonada por anúncio e mais comprometida com execução.

A matéria anterior do Fonte em Foco mostrou que o Brasil segue atrás, apesar de ter reduzido a distância. Esta análise acrescenta o ponto que precisa ficar no centro: estar menos distante não basta quando o estudante continua chegando à vida adulta sem as competências que a própria vida vai exigir dele. O país não deve ao Pisa uma boa posição no ranking. Deve aos seus estudantes uma escola que não os entregue pela metade.

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