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Congresso eleito terá maioria distante da pauta ambiental

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Levantamento aponta baixa convergência socioambiental em 68,9% dos deputados e senadores da próxima legislatura

A próxima formação do Congresso Nacional chega a 2027 com maioria distante das pautas ambientais e climáticas. Uma análise sobre a 58ª Legislatura, que assumirá em 1º de fevereiro de 2027, aponta que 68,9% dos parlamentares eleitos para Câmara e Senado estão nas faixas baixa ou muito baixa de convergência ambiental.

Na prática, isso significa que sete em cada dez congressistas chegam ao mandato com histórico ou perfil pouco alinhado a temas como proteção de biomas, enfrentamento das mudanças climáticas, transição energética e fiscalização ambiental. O índice usado na análise mede a aproximação entre votos, atuação pública e agenda socioambiental, em uma escala de 0 a 100. ISA

A leitura política do resultado é direta: a agenda ambiental começa a próxima legislatura em minoria. Dos 594 parlamentares que formarão Câmara e Senado, 409 aparecem nas faixas baixa ou muito baixa de convergência ambiental. Outros 185 estão nas faixas boa ou muito boa.

Como funciona o índice de convergência ambiental

O índice divide os parlamentares em quatro faixas de alinhamento. A classificação é muito baixa quando vai de 0 a 25%, baixa entre 26% e 50%, boa entre 51% e 69% e muito boa entre 70% e 100%.

A metodologia combina votações, atuação pública e histórico político. Foram considerados temas como licenciamento ambiental, comércio de emissões, terras indígenas, transição energética, proteção dos biomas e vetos presidenciais ligados à área ambiental.

A plataforma Farol Verde é uma das bases usadas para medir esse comportamento parlamentar. A ferramenta informa o percentual de participação em votações monitoradas, a convergência ambiental em escala de 0 a 100 e um resultado geral que combina participação e alinhamento à pauta socioambiental.

Na edição mais recente, o Farol Verde analisou a 57ª Legislatura até julho de 2026. O levantamento foi calculado a partir de 66 votações nominais monitoradas, sendo 44 na Câmara dos Deputados e 22 no Senado Federal.

Senado concentra o cenário mais desfavorável

O Senado aparece como a Casa mais distante da agenda ambiental na próxima legislatura. Dos 81 senadores, 64 estão nas faixas baixa ou muito baixa de convergência ambiental, o equivalente a 79% da composição.

A comparação com a legislatura anterior mostra piora. O grupo de senadores com baixa ou muito baixa convergência passou de 58, ou 71,6%, para 64, ou 79%.

Apenas 17 senadores aparecem nas faixas boa ou muito boa. O número representa 21% da Casa e indica que a defesa de pautas ambientais dependerá de uma minoria parlamentar em votações sensíveis.

O que muda na Câmara dos Deputados

Na Câmara, a maioria também aparece distante da agenda ambiental, embora o quadro seja menos concentrado do que no Senado. Dos 513 deputados federais, 345 estão nas faixas baixa ou muito baixa de convergência, o equivalente a 67,3% da Casa.

O grupo mais alinhado à pauta socioambiental soma 168 deputados. São 40 parlamentares na faixa boa e 128 na faixa muito boa, o que mantém uma base de resistência e proposição, mas sem maioria própria para aprovar medidas sozinha.

A Câmara terá 513 vagas na próxima legislatura. A posse dos deputados eleitos para a 58ª Legislatura está prevista para 1º de fevereiro de 2027.

Por que a composição preocupa a área ambiental

O principal risco está na combinação entre maioria legislativa e temas de alto impacto ambiental. Licenciamento, proteção de florestas, terras indígenas, fiscalização, comércio de emissões e transição energética dependem de votações no Congresso e podem avançar ou recuar conforme a correlação de forças.

A pauta ambiental não se limita a uma disputa entre partidos ou governos. Ela alcança a vida concreta do cidadão quando envolve enchentes, secas, queimadas, qualidade do ar, abastecimento de água, segurança alimentar e capacidade das cidades de se adaptar a eventos climáticos mais extremos.

A nova composição também pode influenciar a atuação dos órgãos ambientais. Entre os riscos apontados estão o enfraquecimento da fiscalização, a redução de áreas protegidas, a diminuição da proteção de florestas e biomas e a anistia a ocupações ilegais de terras públicas.

Onde a disputa ambiental deve se concentrar

A disputa deve aparecer em projetos de lei, votações de vetos, orçamento e fiscalização do Executivo. Mesmo quando o assunto parece técnico, como regra de licenciamento ou mercado de carbono, a decisão final costuma passar por escolhas políticas sobre quem será fiscalizado, quem pagará custos e quem assumirá riscos.

O Congresso eleito terá força para definir o ritmo da política climática brasileira. Isso inclui tanto a aprovação de novas medidas quanto a possibilidade de travar, esvaziar ou alterar regras já existentes.

Para o cidadão, o ponto central é simples: o voto parlamentar também vira política ambiental. A forma como deputados e senadores votam pode aparecer depois em menos proteção contra desastres, mais pressão sobre biomas ou menor capacidade do Estado de prevenir danos climáticos.

O peso político do meio ambiente na próxima legislatura

A composição do Congresso indica que a agenda ambiental entrará em 2027 precisando negociar em terreno mais difícil. O desafio não será apenas aprovar novas propostas, mas impedir retrocessos em áreas que já têm proteção legal construída ao longo de décadas.

A maioria parlamentar distante da pauta climática cria um teste para a política brasileira. O país terá de decidir se tratará clima e meio ambiente como tema lateral ou como parte da infraestrutura básica da vida nacional.

A crise climática não espera a formação de consensos confortáveis. Quando o Parlamento reduz a prioridade da proteção ambiental, o custo tende a aparecer fora do plenário: nas cidades mais vulneráveis, nas florestas pressionadas, na conta pública dos desastres e na vida de quem depende diretamente do território para sobreviver.

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