Abrolhos, Costa dos Corais, Parrachos, Baía de Todos os Santos e conjunto Atol das Rocas–Fernando de Noronha estão na categoria mais alta de ameaça antes do colapso
Cinco regiões de recifes de coral do Brasil entram em risco crítico
Cinco das oito ecorregiões de recifes de coral avaliadas no Brasil foram classificadas como Criticamente em Perigo, categoria que indica risco extremamente elevado de colapso do ecossistema. O diagnóstico integra a primeira avaliação global dos recifes tropicais rasos realizada pela Lista Vermelha de Ecossistemas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
O resultado foi apresentado durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada de 19 a 30 de outubro em Yerevan, na Armênia. A classificação não significa que esses recifes já desapareceram: eles ainda possuem corais vivos e continuam desempenhando funções ecológicas, mas enfrentam condições capazes de levá-los ao colapso se as pressões avançarem.
Quais recifes brasileiros estão sob risco crítico?
As cinco ecorregiões classificadas como Criticamente em Perigo são:
- Parrachos;
- Atol das Rocas e Fernando de Noronha;
- Costa dos Corais;
- Baía de Todos os Santos e Baixo Sul;
- Abrolhos.
Outras três áreas brasileiras — Parcel de Manuel Luís, Costa Semiárida e Queimada Grande — ficaram sem classificação geral por insuficiência de dados. Isso não significa que estejam em situação segura, mas que as informações existentes ainda não permitem determinar adequadamente seu nível de risco.
No conjunto brasileiro, a situação atual resulta da combinação entre mudanças já observadas nos recifes e o impacto projetado do aquecimento dos oceanos nas próximas décadas.
Três regiões já estavam em situação crítica pelo que ocorreu nos últimos 50 anos
Quando a avaliação considera apenas as transformações observadas nas últimas cinco décadas, Parrachos, Costa dos Corais e Atol das Rocas–Fernando de Noronha já alcançam a categoria Criticamente em Perigo.
Baía de Todos os Santos e Baixo Sul e Abrolhos aparecem, nesse recorte histórico, na categoria Em Perigo.
A situação muda quando entram no cálculo as projeções climáticas para os próximos 50 anos. O aumento esperado do estresse térmico leva também Abrolhos e Baía de Todos os Santos e Baixo Sul ao nível crítico, fazendo com que todas as cinco ecorregiões brasileiras com classificação completa terminem na categoria CR.
A projeção utiliza o cenário climático SSP2-4.5, considerado intermediário pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.
Isso não significa que os cientistas tenham estabelecido uma data em que cada recife desaparecerá. O cenário é utilizado para calcular como um ambiente já pressionado poderá responder caso o aquecimento e as emissões globais evoluam dentro das condições consideradas nesse modelo.
Ondas de calor marinhas são a maior ameaça
O aquecimento dos oceanos aparece como a principal ameaça aos recifes de coral tanto no Brasil quanto no restante do planeta.
Quando a água permanece excessivamente quente, os corais podem perder as algas microscópicas que vivem associadas a seus tecidos e fornecem grande parte da energia necessária à sobrevivência. O fenômeno provoca o chamado branqueamento.
Um coral branqueado ainda pode sobreviver se as condições melhorarem. O problema é a repetição de ondas de calor antes que o ecossistema tenha tempo suficiente para se recuperar.
A avaliação global aponta que o estresse térmico observado nas últimas cinco décadas já ameaça 77% das ecorregiões analisadas. Nas projeções futuras utilizadas no estudo, esse fator sozinho coloca 95% dos ecossistemas avaliados na categoria Criticamente em Perigo.
No Brasil, episódios de calor marinho em 2019, 2020 e 2024 provocaram branqueamento intenso e mortalidade de corais em diferentes áreas.
Problema não começa e termina no clima
O aquecimento global cria a maior ameaça, mas as condições locais podem determinar quanto um recife consegue resistir e se recuperar.
Sobrepesca, ocupação costeira, turismo mal administrado, poluição e chegada de sedimentos e nutrientes provenientes do continente alteram a qualidade da água e pressionam a relação entre corais, algas e peixes.
Somam-se a isso atividades como exploração de petróleo e gás, mineração e navegação, além da presença de espécies invasoras.
Corais-sol e peixe-leão são exemplos de organismos exóticos capazes de modificar comunidades marinhas brasileiras quando se estabelecem fora de sua distribuição natural.
Essa combinação ajuda a explicar por que reduzir pressões locais continua sendo importante mesmo quando a principal ameaça tem origem global.
Por que os recifes importam tanto?
Os recifes ocupam menos de 1% do fundo dos oceanos, mas abrigam aproximadamente um quarto das espécies de peixes marinhos. Também oferecem abrigo e alimento a inúmeros outros organismos.
Sua importância chega diretamente às comunidades humanas.
Recifes ajudam a diminuir a força das ondas antes que atinjam a costa, reduzem erosão, sustentam atividades pesqueiras e movimentam economias ligadas ao turismo.
No Brasil, eles possuem ainda características biológicas singulares. Os recifes brasileiros apresentam relativamente poucas espécies de coral quando comparados a outras regiões tropicais, mas têm elevado grau de endemismo — espécies que não existem em nenhum outro lugar.
Abrolhos abriga algumas das formações mais extensas e diversas do país, enquanto Atol das Rocas, Fernando de Noronha e Costa dos Corais integram áreas federais protegidas e acompanhadas por programas permanentes de monitoramento.
Brasil já mantém ações de monitoramento e restauração
A resposta brasileira não começa com a divulgação da nova classificação. O país mantém desde 2002 um programa nacional de monitoramento de recifes, posteriormente incorporado às atividades regulares do ICMBio em unidades de conservação marinhas.
Em 2026, o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes Coralíneos também reúne instituições e pesquisadores para enfrentar ameaças e orientar ações sobre espécies e ambientes recifais considerados prioritários.
Mais recentemente, foram aprovados quase R$ 25 milhões para dois projetos de conservação e restauração de corais em nove estados, alcançando áreas como Parcel Manuel Luís, Atol das Rocas, Fernando de Noronha, Costa dos Corais, Abrolhos e territórios da Bahia e do Espírito Santo.
Monitorar, restaurar, melhorar a qualidade da água e reduzir impactos locais pode aumentar a resistência dos recifes e oferecer tempo para sua recuperação.
Mas existe um limite para aquilo que essas medidas conseguem fazer.
Quase todos os recifes avaliados no mundo enfrentam risco crítico
A dimensão global do problema ajuda a entender esse limite.
Das 127 ecorregiões de recifes analisadas em mais de 80 países e territórios, 122 — ou 96% — foram classificadas como Criticamente em Perigo. Juntas, elas correspondem a 99,8% da área recifal efetivamente avaliada.
Uma ecorregião, nas Ilhas Galápagos Ocidentais, já aparece como Colapsada. Outras quatro ficaram classificadas como Dados Insuficientes.
Quando são retiradas as projeções futuras e consideradas apenas as mudanças observadas nos últimos 50 anos, o quadro continua grave, mas é menos extremo: 116 ecorregiões já são consideradas ameaçadas e 30 delas já estão na categoria Criticamente em Perigo.
O salto para 122 regiões no nível crítico ocorre principalmente quando o aquecimento projetado dos oceanos entra na avaliação.
Proteger localmente compra tempo; reduzir emissões decide o horizonte
A nova classificação mostra uma diferença fundamental entre tratar os sintomas e enfrentar a causa de maior escala.
Fiscalização, áreas protegidas, controle da pesca, recuperação de populações de peixes, redução da poluição e restauração de corais podem melhorar a capacidade de um recife sobreviver a uma onda de calor.
Essas ações são indispensáveis. Mas não conseguem impedir que o oceano continue aquecendo.
Se as ondas de calor se tornarem frequentes a ponto de ocorrer novamente antes que o recife consiga se recuperar, até áreas bem protegidas podem perder progressivamente sua estrutura e suas funções.
É por isso que a avaliação coloca duas responsabilidades lado a lado: reduzir as pressões que podem ser enfrentadas em cada território e diminuir rapidamente as emissões responsáveis pelo aquecimento global.
Para o Brasil, existe ainda uma terceira tarefa urgente: preencher os vazios de conhecimento.
Três das oito regiões avaliadas não possuem informação suficiente nem sequer para que seu risco geral seja determinado. Em um cenário no qual cinco das outras cinco já chegaram ao nível crítico, ausência de dados deixa de ser apenas uma dificuldade científica e passa a ser também uma fragilidade para a própria decisão pública.
Os recifes brasileiros ainda estão vivos.
A classificação da Lista Vermelha não anuncia que sua perda é inevitável. Ela mostra quanto diminuiu o espaço para adiar as decisões capazes de mantê-los assim.
Relacionadas, fontes e documentos:
- Gases de efeito estufa atingem novo recorde mundial (Fonte em Foco)
- Tempestades e granizo deixam Centro-Sul sob alerta (Fonte em Foco)
- Estiagem coloca 14 cidades do Amapá em emergência (Fonte em Foco)
- El Niño amplia riscos para crianças no Brasil (Fonte em Foco)
- Congresso eleito terá maioria distante da pauta ambiental (Fonte em Foco)
- Red List of Coral Reef Ecosystems (International Union for Conservation of Nature)
- Virtually all coral reef ecosystems face high risk of collapse in 50 years – IUCN Red List of Ecosystems (International Union for Conservation of Nature)
- Programa de Monitoramento da Biodiversidade em Recifes de Coral (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade)
- Brasil tem cinco regiões de recifes de corais costeiros sob ameaça (Agência Brasil)

