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Brasil aposta na Asean para ampliar comércio exterior

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Brasil mira Asean para ampliar comércio exterior

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, que o comércio do Brasil com os países da Asean deve superar, em um futuro próximo, o intercâmbio com parceiros tradicionais como Estados Unidos e União Europeia. A declaração foi feita em Brasília, após reunião com o secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático, Kao Kim Hourn, em uma agenda voltada a ampliar comércio, investimentos e cooperação estratégica entre o Brasil e o bloco asiático.

Comércio com a Asean cresceu dez vezes desde 2003

A relação comercial entre Brasil e Asean ganhou escala nas últimas duas décadas.

Segundo Mauro Vieira, o comércio brasileiro com o bloco passou de US$ 3 bilhões, em 2003, para US$ 38 bilhões em 2025. O Itamaraty informou, em julho, que o comércio bilateral com os países da Asean superou US$ 38,4 bilhões em 2025, consolidando o bloco como o quinto maior parceiro comercial do Brasil, atrás de China, União Europeia, Estados Unidos e Mercosul.

Na avaliação do chanceler, a velocidade desse crescimento pode alterar a hierarquia dos parceiros comerciais brasileiros. Vieira afirmou que, mantido o ritmo, o intercâmbio com o Sudeste Asiático deverá ultrapassar o volume de negócios com Estados Unidos ou União Europeia.

O ministro citou exemplos para mostrar a mudança de escala. Segundo ele, o Brasil já exporta mais para Singapura do que para a Alemanha e vende mais para Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia do que para a França.

Visita busca elevar a relação política com o bloco

A reunião ocorreu durante visita de Kao Kim Hourn ao Brasil, a convite do governo brasileiro.

O secretário-geral da Asean tem agenda no país até sexta-feira, 21 de agosto, com previsão de encontros com ministros de Estado, empresários e representantes do meio acadêmico. A visita é tratada pelo Itamaraty como parte de uma aproximação mais ampla com o Sudeste Asiático, que inclui comércio, investimentos, energia, segurança alimentar, biodiversidade e cooperação para o desenvolvimento.

Vieira manifestou o interesse do Brasil em se tornar parceiro de diálogo da Asean, condição hoje restrita a atores como Estados Unidos, União Europeia, Japão, Índia, China, Canadá, Rússia, Austrália e Coreia do Sul. O chanceler afirmou que Brasil e Asean compartilham interesse em promover desenvolvimento sustentável, ampliar fluxos de comércio e investimentos e fortalecer o Sul Global.

Bloco reúne países estratégicos para exportações brasileiras

A Asean reúne países do Sudeste Asiático com grande peso econômico, populacional e comercial.

Entre os Estados membros citados na agenda estão Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã, Timor-Leste e Camboja. O bloco passou a ocupar lugar mais relevante na diplomacia econômica brasileira justamente porque combina mercado consumidor amplo, crescimento econômico e demanda por alimentos, energia, bens industriais e cooperação tecnológica.

Para o Brasil, essa aproximação tem uma dimensão prática: abrir ou ampliar mercados em uma região que pode absorver exportações brasileiras e, ao mesmo tempo, atrair investimentos para áreas estratégicas. Para a Asean, a relação com o Brasil pode reforçar segurança alimentar, agricultura, energia renovável, inovação e ação climática.

Kao Kim Hourn afirmou, na reunião no Itamaraty, que a Asean atribui grande importância à parceria com o Brasil. Segundo ele, os dois lados podem desenvolver parcerias econômicas por meio de comércio e investimentos, além de cooperação em inovação, desenvolvimento sustentável, segurança alimentar, agricultura, energia renovável e ação climática.

Diversificação ganha peso em meio a tensões comerciais

A aproximação com a Asean ocorre em um momento em que o Brasil tenta diversificar destinos para suas exportações.

O encontro foi realizado em meio ao impacto de tarifas dos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros, contexto que aumentou a importância política e econômica de buscar mercados alternativos. A diversificação não significa abandonar parceiros tradicionais, mas reduzir vulnerabilidades quando decisões comerciais de grandes economias afetam setores exportadores brasileiros.

Essa estratégia interessa especialmente a setores que dependem de escala, previsibilidade e acesso a diferentes mercados. Quando o comércio exterior se concentra demais em poucos destinos, uma tarifa, uma crise diplomática, uma desaceleração econômica ou uma mudança regulatória pode atingir empresas, empregos, receitas e cadeias produtivas no Brasil.

A Asean entra nesse cenário como uma alternativa de peso. O bloco já aparece entre os maiores parceiros comerciais do país e cresce em ritmo superior ao observado em relações mais tradicionais. O desafio brasileiro será transformar aproximação diplomática em contratos, investimentos, acordos setoriais e uma pauta comercial menos concentrada em produtos básicos.

Cooperação vai além da venda de produtos

A agenda Brasil-Asean não se limita ao comércio de bens.

O secretário-geral Kao Kim Hourn mencionou áreas como inovação, desenvolvimento sustentável, segurança alimentar, agricultura, energia renovável e ação climática. Esses temas indicam uma relação que pode ir além da compra e venda de commodities, entrando em campos como tecnologia, pesquisa, investimentos, logística, transição energética e adaptação climática.

Esse ponto é importante porque a expansão do comércio, sozinha, não garante maior complexidade econômica. O Brasil pode vender mais para o Sudeste Asiático e, ainda assim, continuar preso a uma pauta pouco diversificada. A diferença virá se a aproximação abrir espaço para produtos de maior valor agregado, cooperação industrial, serviços, inovação e presença empresarial mais estável na região.

Do lado diplomático, o discurso também tem peso geopolítico. Brasil e Asean defendem multilateralismo, cooperação internacional e fortalecimento de países emergentes em um cenário global marcado por disputas comerciais, tensão entre grandes potências e reorganização das cadeias produtivas.

O que a aproximação revela sobre a estratégia brasileira

O avanço da Asean na pauta brasileira mostra que comércio exterior também é política de proteção econômica.

Quando o Brasil busca ampliar relações com o Sudeste Asiático, o objetivo não é apenas vender mais. É diminuir dependências, abrir rotas alternativas para empresas brasileiras e ganhar margem de negociação em um mundo em que tarifas, sanções e disputas comerciais voltaram a pesar sobre decisões de investimento.

A fala de Mauro Vieira revela uma mudança de centro de gravidade. Durante muito tempo, Estados Unidos e União Europeia foram tratados como referências quase naturais do comércio brasileiro. Eles continuam importantes, mas já não explicam sozinhos o futuro da inserção econômica do país.

Para o cidadão, essa discussão parece distante, mas chega à vida real por caminhos concretos: empregos em setores exportadores, preço de commodities, investimentos em infraestrutura, demanda por alimentos, arrecadação pública e estabilidade de empresas brasileiras no exterior. A aproximação com a Asean é, portanto, mais do que uma agenda diplomática. É parte da tentativa do Brasil de encontrar mais espaço em uma economia mundial menos previsível.

Fontes e Documentos:

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