Brasil registra um caso a cada 44 horas antes da campanha
O Brasil registrou 354 episódios de violência política entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026. O período corresponde ao intervalo entre o fim das eleições municipais de 2024 e o início oficial da campanha eleitoral de 2026, com média de um caso a cada 44 horas.
Esse foi o período pré-eleitoral mais violento em dez anos de monitoramento. O total representa alta de 18,4% em relação aos 299 casos registrados no intervalo pré-eleitoral anterior, entre novembro de 2022 e agosto de 2024.
A violência política não aparece apenas quando há urna na rua. Em 2025, ano sem eleição, foram registrados 225 casos, o que mostra um padrão permanente de agressões, ameaças e ataques contra pessoas que exercem mandato ou função pública.
Mulheres são metade das vítimas
As mulheres foram vítimas de 50,6% dos episódios de violência política registrados no período. O recorte inclui mulheres cisgêneras, transexuais e travestis, apesar de a presença feminina nos espaços legislativos ainda ser muito menor do que a masculina.
A sub-representação torna o dado ainda mais grave. Informações públicas da Justiça Eleitoral mostram que mulheres seguem ocupando uma fração reduzida das cadeiras legislativas no Brasil, mesmo sendo maioria do eleitorado.
A violência também muda de forma conforme o gênero da vítima. A violência física atingiu mais homens, enquanto ameaças, ofensas, ataques sexuais e comentários sobre corpo e aparência se concentraram nas mulheres.
Ataques sexuais miram só mulheres
As 31 ameaças de violência sexual registradas tiveram mulheres como alvo. O mesmo ocorreu nos 67 episódios com conteúdo de conotação sexual ou comentários sobre corpo e aparência.
Esse padrão mostra que a violência política contra mulheres não tenta apenas derrotar uma adversária. Ela busca constranger, humilhar e expulsar mulheres do espaço público por meio de ataques que atingem a dignidade, a imagem e a permanência delas na vida institucional.
A Lei nº 14.192, de 2021, foi criada para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. A norma define esse tipo de violência como ação, conduta ou omissão voltada a impedir, obstaculizar ou restringir direitos políticos femininos.
Raça aprofunda a exposição
Entre as mulheres vítimas, uma em cada três era preta. Foram 64 casos entre 179 mulheres atingidas, enquanto, entre os homens, a proporção foi de um em cada nove.
Mulheres também concentraram a maior parte dos episódios contra pessoas pretas. Elas aparecem em 64 dos 84 casos registrados contra esse grupo, incluindo mulheres trans e travestis.
As ameaças atribuídas a perfis ou grupos declaradamente neonazistas e supremacistas tiveram como alvo mulheres pretas. Os casos citados envolveram agentes políticas em quatro estados de quatro regiões diferentes do país.
Municípios concentram maior risco
A política municipal aparece como o ponto mais vulnerável da série. Pelo menos 63% dos casos atingiram vereadores, prefeitos e outros agentes políticos locais.
A letalidade também se concentra nos municípios. Dos 28 episódios com intenção de matar, 24 ocorreram contra políticos de atuação municipal, incluindo 10 dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados registrados no período.
Vereadores e vereadoras foram as vítimas mais frequentes. Eles aparecem em 176 episódios, o equivalente a 49,6% do total, com média de três casos para cada mil vereadores eleitos em 2024.
Ameaça é o tipo mais comum
A ameaça foi a forma mais frequente de violência política no período. Foram 193 registros, seguidos por ofensas, agressões físicas, atentados, assassinatos, criminalização e invasões.
O ambiente digital ampliou a exposição das vítimas. A internet concentrou 152 episódios, o equivalente a 42,8% do total, e quase metade dessas ocorrências não teve autoria identificada.
A violência online tem efeito concreto fora das telas. Quando ameaças circulam com rapidez, alcançam familiares, equipes, eleitores e redes de apoio, aumentando o custo pessoal de exercer mandato.
Impunidade sustenta repetição
A maioria dos casos teve algum tipo de denúncia formal ou pública. Foram 300 episódios, o equivalente a 84,5% do total.
A responsabilização, porém, foi muito menor. Apenas 46 casos contam com apuração judicial ou policial em andamento, e somente nove episódios resultaram em punição efetiva dos autores.
Esse descompasso ajuda a explicar a repetição dos ataques. Quando a denúncia não se transforma em investigação e punição, a violência deixa de parecer exceção e passa a funcionar como método de pressão política.
Estado também aparece entre agressores
Em 64 episódios, o agressor também tinha mandato eletivo ou cargo público. Quando esses casos são somados aos ataques praticados por policiais e outros agentes estatais, o grupo chega a quase um terço dos registros.
Parte das agressões ocorreu dentro do próprio ambiente parlamentar. Foram 52 episódios em locais de trabalho político, como plenários, sessões e comissões.
Esse dado amplia a dimensão do problema. A violência política não está apenas nas ruas, nas redes ou em disputas eleitorais abertas; ela também aparece dentro das instituições que deveriam organizar o conflito democrático.
Eleições de 2026 aumentam a tensão
O primeiro turno das eleições de 2026 ocorre em um cenário de violência acumulada antes mesmo do período oficial de campanha. Os dados do intervalo pré-eleitoral mostram que ameaças e ataques já estavam em curso antes da fase mais intensa da disputa pelo voto.
A Justiça Eleitoral trata a violência política de gênero como obstáculo à participação das mulheres. Normas e ações recentes voltadas às candidaturas femininas incluem orientação sobre legislação, direitos políticos e enfrentamento a ataques de gênero no processo eleitoral.
O desafio institucional é impedir que a violência selecione quem consegue permanecer na política. Quando determinados grupos enfrentam ataques mais frequentes ou mais agressivos, a representação deixa de depender apenas do voto e passa a ser filtrada pelo medo.
O que a violência política revela sobre a democracia
A violência política atinge pessoas, mas o dano alcança a representação. Quando uma vereadora, prefeita, deputada, candidata ou liderança é ameaçada, o alvo imediato é uma pessoa; o efeito mais amplo é reduzir a pluralidade de vozes no espaço público.
O recorte de gênero, raça e território mostra que o risco não se distribui de forma igual. Mulheres, mulheres negras, pessoas trans, travestis e agentes políticos municipais aparecem em posição de maior exposição, justamente onde a democracia deveria abrir mais portas.
O ponto central é que eleição livre não depende apenas da contagem de votos. Depende também de garantir que quem se candidata, exerce mandato e representa a população possa fazer política sem ameaça, humilhação, agressão ou medo de morrer.
Relacionadas,fontes e documentos:
- Celular fica fora da cabine (Fonte em Foco)
Lula critica ONU e superpotências em discurso (Fonte em Foco) - Eduardo Bolsonaro é demitido da Polícia Federal (Fonte em Foco)
- Lula e Flávio levam crise do STF para a disputa presidencial (Fonte em Foco)
- Sessão sobre Moraes expõe disputa no STF (Fonte em Foco)
- Brasil registrou um caso de violência política a cada 44h mesmo fora do período eleitoral (Justiça Global)
- Brasil registrou um caso de violência política a cada 44h mesmo fora do período eleitoral, aponta pesquisa (Terra de Direitos)
- Eleições 2026: TSE apresenta legislação eleitoral para candidatas (Tribunal Superior Eleitoral)
- Em evento internacional, presidente do TSE destaca avanços e desafios para a igualdade de gênero (Tribunal Superior Eleitoral)
- Lei nº 14.192, de 4 de agosto de 2021 (Presidência da República)

