Publicidade
InícioVida & DesenvolvimentoSaúdeFim das bets expõe vício e dívidas

Fim das bets expõe vício e dívidas

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

Cobertura relacionada

Recusa familiar ainda impede 45% das doações de órgãos

Capacitação de profissionais busca melhorar acolhimento, comunicação e segurança no processo de doação de órgãos.

Obesidade triplica no Brasil

Pesquisa aponta alta expressiva da obesidade adulta no Brasil e liga o avanço a alimentação ultraprocessada, sedentarismo e políticas públicas.

Setembro Amarelo no DF é efetivo

Saúde mental no DF ganha foco no Setembro Amarelo, com orientações sobre UBS, Caps, urgência psiquiátrica, Samu e CVV 188.

Canetas emagrecedoras no SUS

Canetas emagrecedoras poderão chegar ao SUS para obesidade, mas oferta depende de estudos, protocolo e critérios clínicos.

Apostas online movimentam R$ 2,2 bilhões

Levantamento mostra que apostas online movimentam R$ 2,2 bilhões por ano no Grande Rio e acendem alerta sobre dívidas e saúde mental.

Polilaminina ainda precisa provar eficácia em humanos

Pesquisa da UFRJ com polilaminina avança para fase 1, mas substância ainda precisa provar segurança e eficácia em humanos. Arte Fonte em Foco/IA
Publicidade

Medida provisória encerra exploração, oferta e publicidade de apostas de quota fixa

A proibição das bets no Brasil abriu uma nova fase no debate sobre apostas online, saúde mental e endividamento das famílias. A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu no território nacional a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de aposta de quota fixa, em meio físico ou virtual, inclusive quando feitas por agente sediado no exterior para pessoas localizadas no Brasil.

A mudança atinge tanto apostas esportivas quanto jogos online enquadrados no modelo de quota fixa. O texto também prevê a extinção das autorizações concedidas com base na legislação anterior ao fim de 30 dias contados da publicação da medida provisória, sem afastar obrigações, fiscalização e sanções referentes ao período em que as empresas estavam autorizadas a operar.

Para quem perdeu dinheiro, vínculos familiares, casa, carro ou emprego por causa do jogo, a decisão chega como interrupção de um ciclo difícil de controlar. O caso de Kaio*, de 42 anos, resume essa dimensão humana: depois de seis anos de dependência, dívidas com agiotas e afastamento da família por medo, ele passou a buscar atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial e descreveu a proibição como “um grande alívio”.

Setor funcionou por anos em ambiente de baixa regulação

As apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018, mas só ganharam regulamentação mais estruturada em 2023. A Lei nº 13.756 abriu caminho para a exploração desse tipo de aposta, enquanto a Lei nº 14.790, sancionada em dezembro de 2023, regulamentou a modalidade e incluiu os jogos online nesse universo.

Esse intervalo criou um período em que as plataformas cresceram antes de o Estado consolidar regras de fiscalização, publicidade e proteção ao apostador. Só com a regulamentação vieram obrigações mais específicas, como diretrizes de jogo responsável, comunicação publicitária e deveres das empresas em relação aos usuários.

A promessa de dinheiro fácil ajudou a tornar o problema maior. Especialistas ouvidos no briefing apontam que pessoas em vulnerabilidade foram expostas a publicidade agressiva e à ideia de que a aposta poderia funcionar como complementação de renda, justamente em um ambiente em que a chance de perda era estruturalmente alta.

Perdas financeiras chegaram a bilhões de reais

As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para plataformas de apostas em 2025, segundo levantamento divulgado a partir do Boletim Fiscal dos Estados. O valor corresponde à diferença entre o dinheiro apostado e o montante devolvido aos usuários em forma de prêmio; no mesmo período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix.

A média mensal estimada de perda líquida chegou a R$ 4,7 bilhões entre outubro de 2024 e março de 2026. Esse número ajuda a traduzir o impacto das apostas online sobre o orçamento doméstico: não se trata apenas de entretenimento individual, mas de uma transferência contínua de renda das famílias para as plataformas.

O prejuízo financeiro costuma aparecer junto com outros danos. No relato de Kaio*, a dívida veio acompanhada de perda de patrimônio, ruptura familiar, medo de cobrança violenta e necessidade de tratamento. Em muitos casos, a conta não fecha no banco: ela chega à saúde mental, ao trabalho e às relações pessoais.

Publicidade e bônus mantinham o apostador conectado

Uma das críticas centrais ao funcionamento das plataformas era a manutenção do apostador dentro do ciclo de jogo. O briefing relata que usuários recebiam bônus, notificações e anúncios frequentes, inclusive quando já demonstravam sinais de perda de controle.

A regra anterior previa mecanismos de proteção, mas a efetividade desse bloqueio era questionada por especialistas e advogados. A regulamentação estabelecia obrigações ligadas a jogo responsável, mas os relatos indicam que a experiência cotidiana de muitos apostadores era marcada por estímulo permanente ao retorno à plataforma.

Essa insistência tem efeito particular sobre quem já desenvolveu dependência. Quando o celular “não para de trazer mensagens”, como descreveu Kaio*, o ambiente digital deixa de ser apenas canal de aposta e passa a funcionar como gatilho constante para recaídas.

Crianças e adolescentes também foram alcançados

O avanço das apostas online atingiu inclusive estudantes. Levantamento citado no briefing apontou que um em cada cinco alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disse já ter feito apostas online no último ano; entre crianças de 11 anos, 9,5% relataram já ter apostado.

A vulnerabilidade dos adolescentes exige leitura própria. Especialistas explicam que a busca por recompensa e prazer amadurece antes das regiões cerebrais ligadas ao controle de impulsos e à avaliação de riscos, o que torna esse público mais sensível à promessa de ganho rápido.

O risco não está apenas em perder dinheiro cedo, mas em aprender cedo a associar tensão, recompensa e frustração ao jogo. Quando a aposta entra na rotina de uma criança ou adolescente, ela pode ocupar o lugar de brincadeira, consumo, status e tentativa de resolver falta de dinheiro, tudo ao mesmo tempo.

Saúde mental entrou no centro da resposta pública

O transtorno do jogo é reconhecido como problema de saúde quando a pessoa perde a capacidade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos. A orientação oficial descreve sinais como dificuldade de parar, apostas para aliviar sofrimento, vergonha, culpa, conflitos familiares, perdas financeiras e afastamento social.

O SUS passou a ampliar a oferta de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. Em agosto, o serviço de teleatendimento pelo Meu SUS Digital foi anunciado com capacidade de até 100 mil atendimentos mensais; a iniciativa começou em março com 600 atendimentos mensais e foi ampliada diante da demanda.

Depois da proibição, o governo anunciou novas ações de proteção e monitoramento. A comunicação oficial informou a manutenção de ferramentas como autoteste no Meu SUS Digital, observatório sobre impactos das apostas na saúde e medidas integradas entre áreas de saúde, fazenda e justiça para enfrentar o problema.

Ideação suicida exige atenção imediata

Relatos de desesperança, isolamento, aumento do uso de álcool, mudanças bruscas de comportamento e falas sobre morte precisam ser tratados como sinais de alerta. Profissionais citados no briefing apontam que parte dos apostadores chega ao atendimento com ansiedade intensa, sensação de estar sem saída e pensamentos relacionados a não querer mais viver.

A família e os amigos podem ser decisivos para interromper o isolamento. Pessoas em sofrimento por dependência de jogo nem sempre reconhecem sozinhas a gravidade do problema; por isso, a rede próxima deve observar mudanças de rotina, dívidas incomuns, mentiras sobre dinheiro, afastamento social e tentativas de esconder o uso de aplicativos.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. Centros de Atenção Psicossocial, unidades do SUS e teleatendimento em saúde mental podem funcionar como portas de entrada para cuidado, avaliação de risco e acompanhamento. Em situação de risco imediato, a pessoa deve procurar emergência, acionar o Samu pelo 192 ou buscar apoio emocional pelo CVV, no telefone 188.

Fiscalização passa a mirar plataformas e publicidade ilegal

A proibição também desloca o problema para a fiscalização digital. Após a edição da medida provisória, uma força-tarefa dos ministérios da Justiça e da Fazenda informou ter derrubado 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas no Brasil.

O monitoramento também alcançou redes de divulgação. Em 27 de setembro, o Ministério da Justiça informou bloqueio de uma rede de divulgação de apostas com 212 mil membros no Telegram e encaminhamento das informações para verificação técnica e administrativa.

A nova fase não termina com a assinatura da medida provisória. A operação ilegal pode migrar de endereço, usar influenciadores, grupos fechados, links mascarados e novas formas de publicidade, o que torna a fiscalização contínua tão importante quanto a regra escrita.

O que a proibição revela sobre o país

A proibição das bets revela um problema que cresceu mais rápido do que a capacidade pública de contê-lo. O Brasil permitiu a expansão de um mercado digital altamente persuasivo, com dinheiro instantâneo, publicidade intensa e acesso permanente pelo celular, antes de construir barreiras suficientemente fortes para proteger pessoas vulneráveis.

O caso também mostra que dependência não é apenas uma questão individual. Quando milhões de pessoas são expostas a estímulos constantes, bônus, promessas de renda e mecanismos desenhados para manter o usuário apostando, a responsabilidade deixa de caber apenas ao apostador e passa a envolver empresas, regulação, publicidade, tecnologia e saúde pública.

A resposta agora precisa ir além da proibição. O país terá de fiscalizar plataformas ilegais, acolher quem já adoeceu, proteger crianças e adolescentes, reorganizar dívidas, enfrentar publicidade disfarçada e tratar a aposta compulsiva como aquilo que ela é: um sofrimento real, com impacto financeiro, familiar e psicológico.

Relacionadas, fontes e documentos:

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.