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quarta-feira, 25 março 2026, 13:53:16
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Saúde mental de adolescentes acende alerta

Publicado em:

Repórter: Jeferson Nunes

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PeNSE expõe avanço do sofrimento psíquico entre estudantes

A saúde mental dos adolescentes brasileiros entrou em zona de alerta. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgados nesta quarta-feira (25) pelo IBGE, mostram que 30,8% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes. Na mesma linha de gravidade, 32,1% afirmaram já ter tido vontade de se machucar de propósito ao menos uma vez. O levantamento ouviu 118.099 adolescentes em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país em 2024.

O quadro fica ainda mais pesado quando se observam outros indicadores: 42,9% relataram se sentir “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa”, e 18,5% disseram pensar sempre, ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”. Os dados colocam em evidência um sofrimento difuso, persistente e mais amplo do que simples episódios de mal-estar juvenil.

Meninas concentram os piores indicadores

O recorte por sexo mostra uma desigualdade contundente. Entre as meninas, 41% disseram se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes, contra 16,7% entre os meninos. A vontade de se machucar apareceu em 43,4% das alunas e em 20,5% dos alunos. O mesmo padrão se repete em irritação constante (58,1% entre meninas e 27,6% entre meninos) e na percepção de que a vida não vale a pena (25% entre meninas e 12% entre meninos).

Esses números não são ruído estatístico. Eles apontam que o sofrimento emocional pesa mais fortemente sobre as adolescentes, o que exige leitura séria do ambiente escolar, familiar, digital e social. Quando praticamente metade das meninas relata desejo de se ferir, não estamos diante de um detalhe comportamental. Estamos diante de um problema de saúde pública.

Escolas ainda oferecem pouco suporte psicológico

Apesar da gravidade do cenário, menos da metade dos estudantes estava em escolas que ofereciam algum tipo de apoio psicológico. A cobertura chegava a 58,2% na rede privada e caía para 45,8% na pública. A presença de profissional de saúde mental no quadro da escola era ainda mais restrita: atingia apenas 34,1% dos alunos.

O contraste entre demanda e estrutura é o tipo de dado que desmonta qualquer discurso burocrático de conforto. O país mede o sofrimento, mas ainda oferece apoio em escala insuficiente justamente no espaço em que o adolescente passa boa parte do dia. A escola é cobrada a acolher, orientar e proteger, mas muitas vezes continua sem equipe adequada para isso.

Bullying, solidão e violência familiar ampliam o quadro

A PeNSE mostra que a crise emocional não aparece isolada. 26,1% dos estudantes afirmaram sentir com frequência que ninguém se preocupa com eles. Além disso, 39,8% disseram já ter sofrido bullying na escola, e a proporção sobe para 43,3% entre as meninas. Também 20% relataram ter sido agredidos fisicamente por pai, mãe ou responsável ao menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Entre os adolescentes que tiveram lesão autoprovocada no período, os indicadores se tornam ainda mais graves: 73% se sentem tristes de forma constante, 67,6% ficam irritados ou nervosos por qualquer razão, 62% não veem sentido na vida e 69,2% já sofreram bullying. O IBGE estimou em cerca de 100 mil estudantes o número daqueles que tiveram alguma lesão autoprovocada nos 12 meses anteriores ao levantamento.

Imagem corporal também piorou desde 2019

A pesquisa mostra ainda queda na satisfação com a própria aparência. Em 2019, 66,5% dos estudantes diziam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a imagem corporal. Em 2024, esse percentual caiu para 58%. Entre as meninas, a insatisfação é mais intensa: mais de um terço se declarou insatisfeita com a aparência, e a tentativa de perder peso apareceu em proporção superior à percepção objetiva de sobrepeso.

Esse detalhe importa mais do que parece. A deterioração da autoimagem conversa com bullying, redes sociais, padrões estéticos agressivos e sofrimento emocional crônico. Não é um tema lateral. É parte da engrenagem que ajuda a explicar por que tantos adolescentes, sobretudo meninas, relatam tristeza persistente, irritação constante e sensação de não pertencimento.

O país já não pode tratar isso como drama passageiro

Durante muito tempo, parte do debate público insistiu em tratar a dor psíquica de adolescentes como exagero, fase ou instabilidade própria da idade. A PeNSE de 2024 desmonta esse conforto preguiçoso. Quando três em cada dez estudantes se dizem tristes na maior parte do tempo, quando quase um em cada cinco diz que a vida não vale a pena e quando a escola ainda oferece pouco apoio, o problema deixa de ser privado. Vira fracasso coletivo de proteção.

O mais grave é que os números apontam não apenas sofrimento, mas também desigualdade na distribuição desse sofrimento. Meninas sofrem mais. Quem sofreu bullying ou violência familiar sofre mais. Quem já se lesionou carrega indicadores muito mais severos. Em outras palavras: o sofrimento não cai do céu. Ele se organiza em camadas sociais, afetivas e institucionais. E só política pública séria consegue enfrentá-lo sem conversa fiada de autoajuda escolar.

Acolhimento e rede de apoio precisam entrar no centro da resposta

O Ministério da Saúde orienta que adolescentes, familiares e responsáveis busquem ajuda em redes de apoio e serviços de saúde diante de pensamentos de autolesão ou de que a vida não vale a pena. Entre os serviços citados estão CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPAs, SAMU 192, hospitais e o CVV, pelo telefone 188, com atendimento gratuito e 24 horas.

Aqui, o dado precisa virar responsabilidade concreta. A pesquisa do IBGE não foi divulgada para produzir espanto de um dia. Foi divulgada para cobrar resposta de escola, família, gestores e sistema de saúde. Adolescente não precisa de sermão motivacional embrulhado em cartaz bonito. Precisa de escuta, presença, cuidado contínuo e acesso real a atendimento.

Fontes e documentos:
Perda da vontade de viver atinge duas vezes mais meninas que meninos (Agência de Notícias IBGE)
– IBGE alerta para quadro preocupante na saúde mental de adolescentes (Agência Brasil)
– Meninas são as maiores vítimas de bullying nas escolas (Agência Brasil)
– 5ª edição da PeNSE: meninas são as maiores vítimas de violência sexual (IBGE)

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