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Jornalista morreu em casa, no Rio de Janeiro

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Jornalista morreu em casa, no Rio de Janeiro

O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu na manhã desta terça-feira, 22 de setembro de 2026, aos 95 anos. A informação foi divulgada pela Academia Brasileira de Letras, da qual ele fazia parte desde 2015.

A causa da morte foi pneumonia. Zuenir estava em casa, no Rio de Janeiro, e deixa uma trajetória marcada por mais de seis décadas dedicadas ao jornalismo, à literatura e à interpretação do Brasil contemporâneo.

O velório está previsto para esta quarta-feira, 23 de setembro, na Academia Brasileira de Letras. O sepultamento será no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, também no Rio.

Da universidade às redações

Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, em 1931, Zuenir Ventura construiu uma carreira que atravessou ensino, imprensa e literatura. Ele era bacharel e licenciado em Letras Neolatinas e foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A entrada no jornalismo ocorreu em 1956, como arquivista. A partir daí, passou por funções centrais da vida jornalística: repórter, colunista, editor, chefe de reportagem e diretor de redação.

Zuenir trabalhou em alguns dos veículos mais importantes da imprensa brasileira. Teve passagem por jornais, revistas e redações que marcaram diferentes momentos da história política e cultural do país, como O Globo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão e Veja.

O jornalista que transformava reportagem em memória

A marca de Zuenir era a capacidade de transformar acontecimentos públicos em narrativa compreensível. Ele não escrevia apenas sobre fatos: buscava personagens, ambiente, contradições e o clima moral de cada tempo.

Essa combinação aparece em 1968 — o ano que não terminou, uma de suas obras mais conhecidas. O livro ajudou a fixar, para várias gerações de leitores, a memória de um período decisivo da história brasileira e mundial.

Outro marco foi Cidade partida, livro-reportagem sobre violência e desigualdade no Rio de Janeiro. A obra rendeu a Zuenir o Prêmio Jabuti de Reportagem e consolidou sua presença entre os autores que aproximaram jornalismo literário, investigação social e leitura urbana do país.

ABL reconheceu trajetória de escritor e repórter

Zuenir Ventura foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014. Ele se tornou o sétimo ocupante da Cadeira nº 32, na sucessão de Ariano Suassuna.

A posse ocorreu em 6 de março de 2015, quando foi recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli. A entrada na ABL marcou o reconhecimento institucional de uma trajetória que unia reportagem, ensaio, crônica e literatura de não ficção.

A presença de Zuenir na Academia também simbolizou o lugar do jornalismo na literatura brasileira. Seu trabalho mostrou que a reportagem, quando feita com rigor, escuta e linguagem, também pode permanecer como documento cultural.

Obras ajudaram a ler o Brasil recente

Zuenir escreveu sobre política, cultura, violência urbana, memória e personagens públicos. Sua obra dialogava com grandes acontecimentos, mas também com histórias individuais capazes de revelar o país por dentro.

Em 1968 — o ano que não terminou, ele retomou uma geração marcada pela ditadura, pela contestação política, pela cultura e pelas rupturas sociais. O livro se tornou uma referência para entender como aquele ano continuou a influenciar o Brasil muito depois de encerrado no calendário.

Em Cidade partida, Zuenir olhou para o Rio de Janeiro dividido por desigualdade, medo e violência. A força do livro estava em mostrar que a cidade não era apenas cenário, mas personagem de uma crise social profunda.

Sua produção reafirmou uma ideia simples e difícil: o jornalismo pode ser memória pública. Quando uma reportagem atravessa o tempo, ela deixa de ser apenas registro imediato e passa a compor a forma como uma sociedade lembra de si mesma.

Um nome ligado à formação de leitores e jornalistas

Zuenir também marcou gerações pela convivência com estudantes, repórteres e leitores. Sua experiência como professor e editor fez dele uma referência para quem via no jornalismo não apenas uma profissão, mas uma forma de olhar o mundo.

Ao longo da carreira, ele combinou curiosidade, elegância e atenção ao outro. Essa postura aparece tanto nas reportagens quanto nos perfis e crônicas, sempre com interesse por personagens, bastidores e nuances.

A morte de Zuenir encerra uma presença física, mas não apaga a influência de sua obra. Livros, reportagens, entrevistas e textos seguem como material de formação para quem deseja compreender jornalismo, literatura e história recente do Brasil.

O que permanece depois de Zuenir

A importância de Zuenir Ventura está em ter feito do jornalismo uma forma de permanência. Ele cobriu acontecimentos, mas também ajudou a organizá-los em memória, dando sentido a períodos que poderiam se perder na pressa da notícia.

Seu legado mostra que reportagem não é apenas velocidade. É observação, escuta, apuração, linguagem e responsabilidade diante de vidas concretas e fatos complexos.

Em um tempo de excesso de informação, a obra de Zuenir lembra o valor da narrativa bem apurada. Contar o Brasil exige mais do que registrar o que aconteceu; exige perguntar por que aconteceu, quem foi atingido, que marcas ficaram e o que aquilo revela sobre o país.

Com sua morte, o jornalismo brasileiro perde uma de suas vozes mais reconhecidas. Mas Zuenir permanece onde sempre trabalhou melhor: nas histórias que contou, nos leitores que formou e na memória coletiva que ajudou a construir.

Fontes e Documentos:

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