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quarta-feira, 21 janeiro 2026, 07:28:48
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Primeira vacina marcou esperança e expôs atrasos no Brasil

Publicado em:

Repórter: Jeferson Nunes

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Há cinco anos, o Brasil começava a enxergar uma saída para o maior trauma sanitário de sua história recente. Em 17 de janeiro de 2021, horas após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19, a enfermeira Mônica Calazans tornou-se a primeira brasileira vacinada. O gesto, simples e simbólico, carregava um peso coletivo: a ciência, finalmente, chegava antes do colapso total.

Mônica foi escolhida por ter participado dos ensaios clínicos da CoronaVac, realizados no fim de 2020. À época, ela atuava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência no atendimento a doenças infectocontagiosas e que recebeu mais de 40 mil pacientes durante a pandemia. Estava de plantão naquele domingo quando foi chamada às pressas para a cerimônia. Só ali soube que seria a primeira. Chorou. Não de protocolo, mas de exaustão e alívio.

A vacinação nacional começou no dia seguinte, 18 de janeiro, com a distribuição de 6 milhões de doses produzidas na China e importadas pelo Instituto Butantan, que depois passou a processar a vacina no Brasil com insumo da Sinovac. Em 23 de janeiro, chegaram 2 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, importadas da Índia pela Fiocruz, que gradualmente internalizou a tecnologia e iniciou a produção nacional.

Prioridade aos mais vulneráveis

A campanha começou pelos trabalhadores da saúde, idosos, pessoas com deficiência institucionalizadas e indígenas. Era o auge da variante Gama, mais agressiva e letal. Com poucas doses, a imunização avançou lentamente. No Rio de Janeiro, por exemplo, pessoas entre 60 e 70 anos só receberam a vacina entre março e abril de 2021.

Mesmo assim, os efeitos apareceram rápido. Dados do Observatório Covid-19 Brasil indicam que, já em abril, hospitalizações e mortes entre idosos despencaram. Nos primeiros sete meses da campanha, estima-se que 165 mil internações e 58 mil mortes nessa faixa etária foram evitadas.

Com o avanço da produção nacional e a chegada de vacinas adquiridas de empresas privadas, a oferta cresceu. Em um ano, o Brasil aplicou 339 milhões de doses, alcançando 84% da população. Especialistas calculam que isso evitou 74% dos casos graves e 82% das mortes esperadas, poupando mais de 300 mil vidas.

O custo do atraso

Mas a mesma ciência que salvou vidas também escancarou o que poderia ter sido evitado. O Observatório Covid-19 Brasil concluiu que 104 mil hospitalizações e 47 mil mortes de idosos poderiam ter sido evitadas se a vacinação tivesse começado antes. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi além: se o Brasil tivesse iniciado a vacinação 40 dias antes, como o Reino Unido, com mais doses e medidas de proteção, até 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas — mais da metade das cerca de 700 mil vítimas da covid-19 no país.

Esses números têm nome, rosto e ausência. Paola Falceta, vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), perdeu a mãe em janeiro de 2021 e não tem dúvidas de que ela está nessa conta. Para Paola, o atraso foi resultado de negligência do governo federal da época, que optou por não negociar e não comprar vacinas em tempo hábil.

História semelhante viveu Ana Lucia Lopes, que perdeu o companheiro em maio de 2021. Um mês depois, ela foi vacinada. Tinham a mesma idade. Ele teria sido imunizado no mesmo período. Não foi.

CPI, responsabilização e inquérito

A CPI da Covid-19, realizada em 2021, concluiu que o governo federal criou uma escassez deliberada de vacinas, fator determinante para o aumento de casos, mortes e para a disseminação de variantes. Entre as provas, estavam as ofertas da Pfizer, feitas em agosto de 2020, de 1,5 milhão de doses ainda naquele ano. O governo brasileiro não respondeu.

O relatório final apontou atraso injustificável e intencional nas negociações e recomendou o indiciamento de 68 pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e os ex-ministros Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga. O pedido foi arquivado em 2022 pelo então procurador-geral Augusto Aras. No entanto, no ano passado, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, determinou a abertura de inquérito na Polícia Federal para apurar os fatos.

Cinco anos depois, o punho cerrado de Mônica Calazans segue como símbolo. Não apenas da vitória da ciência, mas do lembrete incômodo de que tempo, em saúde pública, salva ou tira vidas. E atraso, quando é escolha, também mata.

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