Protesto cobra retirada de área ambiental de projeto sancionado pelo GDF
Manifestantes voltaram às ruas neste domingo, 15 de março de 2026, em Brasília, para defender a Serrinha do Paranoá e cobrar a retirada da área de um projeto sancionado pelo Governo do Distrito Federal para reforçar o caixa do BRB. O ato ocorreu no Eixo Rodoviário Sul, durante o Eixão do Lazer, reunindo ambientalistas, pesquisadores, integrantes de entidades civis e moradores contrários à possibilidade de uso da chamada Gleba A, de 716 hectares, como garantia em uma operação de até R$ 6,6 bilhões.
Área é tratada como estratégica para água e clima no DF
A Serrinha do Paranoá, localizada entre Varjão e Paranoá, é apontada por ativistas e por órgãos do próprio governo como uma área ambientalmente sensível, com função relevante para recarga hídrica, proteção do Cerrado e equilíbrio climático no DF. Em janeiro, a Seagri-DF anunciou o início de um plano de recomposição vegetal com 22 mil mudas de espécies nativas, destacando a proteção de 119 nascentes mapeadas na região e a importância da área para a segurança hídrica do Distrito Federal.
Esse ponto pesa politicamente porque o debate deixou de ser apenas fundiário ou financeiro. Quando o próprio governo reconhece a necessidade de reflorestar, proteger o solo e recuperar nascentes, a decisão de incluir parte da Serrinha numa engenharia de socorro ao banco estatal inevitavelmente acende o alerta de quem enxerga ali um ativo ambiental antes de enxergar um ativo patrimonial.
GDF diz que não há nascentes dentro da área incluída no projeto
Na sexta-feira, 13 de março, o governador Ibaneis Rocha rebateu parte das críticas e afirmou que não existem nascentes dentro do terreno da Terracap incluído no projeto ligado ao socorro financeiro do BRB. Segundo ele, a reação seria movida por uma “guerra de ambientalistas” e por pessoas contrárias à solução adotada para o banco. O governador também disse que o tema já vinha sendo analisado desde o início de sua gestão e sustentou que o GDF está prestando as informações necessárias aos órgãos de fiscalização.
A divergência central, portanto, não está apenas no mapa físico da área, mas na leitura técnica sobre seu papel ecológico. Os opositores ao projeto sustentam que a relevância da Serrinha não se limita à presença de nascentes pontuais dentro da gleba, mas também à sua função como área de recarga aquífera, o que pode afetar a dinâmica hídrica de toda a região caso haja impermeabilização ou avanço de ocupação urbana.
Conama e entidades ambientais ampliam pressão sobre o caso
A mobilização ganhou reforço institucional após o Conama aprovar, nesta semana, uma moção de apoio à conservação da Serrinha do Paranoá, localizada na APA Federal do Planalto Central. O gesto é politicamente relevante porque sinaliza que a controvérsia ultrapassou o campo local e passou a interessar também a uma instância federal que reúne representantes do poder público, do setor empresarial e da sociedade civil.
No protesto deste domingo, representantes de entidades ambientais afirmaram que a gleba tem mais valor como ativo ecológico e social do que como bem apto a alimentar o mercado imobiliário ou servir de garantia financeira. O discurso dos manifestantes associa a defesa da Serrinha à proteção da água, da biodiversidade e da capacidade futura de resiliência do DF num cenário de redução de chuvas e estresse climático.
Projeto do BRB nasce sob pressão política e crise de confiança
O pano de fundo do conflito é a crise envolvendo o BRB após os desdobramentos do caso Banco Master. Reportagens recentes mostram que o banco estatal controlado pelo GDF busca levantar R$ 6,6 bilhões para cobrir perdas ligadas à aquisição de carteiras problemáticas do Master, inclusive com possibilidade de recorrer a empréstimo do FGC e a outras estratégias de capitalização. A Polícia Federal apura a compra de cerca de R$ 12,2 bilhões em operações de crédito potencialmente fraudulentas, e o banqueiro Daniel Vorcaro segue preso preventivamente sob acusações que incluem corrupção e outros crimes financeiros.
Esse contexto ajuda a explicar por que o caso saiu da planilha e foi parar no asfalto. Para os críticos, a sociedade não pode absorver custo ambiental para corrigir um rombo financeiro que não gerou. Para o governo, a operação é parte de uma solução necessária para preservar o banco e estabilizar sua situação. No meio desse choque, a Serrinha do Paranoá virou símbolo de uma disputa mais ampla entre caixa, território e limite ambiental.
Quando o socorro financeiro encontra a fronteira do interesse público ambiental
Há casos em que a discussão deixa de ser só contábil e passa a testar a coerência do poder público. Este é um deles. O GDF diz que está no caminho correto, mas enfrenta uma objeção que não é marginal nem folclórica: ela vem de moradores, especialistas, conselheiros ambientais e de um histórico oficial que reconhece a fragilidade ecológica da região.
No fim, a pergunta que ficou plantada no Eixão não é apenas se há ou não nascente dentro de um polígono. A pergunta real é mais incômoda: até onde um governo pode ir para salvar um banco sem colocar em risco um território que o próprio Estado já tratou como estratégico para a água e para o clima do DF? É aí que o caso deixa de ser só bancário e vira teste institucional.
Fontes e documentos:
– Protesto pede retirada de área ambiental do projeto de socorro ao BRB (Agência Brasil)
– DF inicia plantio de 22 mil mudas na região da Serrinha do Paranoá (Seagri-DF)
– Suplemento do DCL nº 49 com texto sobre os imóveis dados em garantia ao BRB (CLDF)
– Conama aprova moção de apoio à conservação da Serrinha do Paranoá (MMA)
– BRB busca empréstimo e tenta levantar R$ 6,6 bilhões após crise ligada ao Banco Master (Reuters)

