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Busca por desaparecidos expõe ferida aberta da ditadura

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Marta Borges

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Sem política permanente, país ainda tropeça na memória da repressão

Sessenta e dois anos após o golpe de 31 de março de 1964, o Brasil ainda carrega uma das contas mais incômodas da ditadura: a dificuldade de localizar, identificar e dar destino digno aos corpos de vítimas do regime militar. Pesquisadores afirmam que o principal entrave continua sendo a ausência de uma política de Estado permanente para busca de desaparecidos forçados e para o trabalho forense de identificação humana.

No centro dessa luta está a vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, na capital paulista. O Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp trabalha atualmente na análise de 1.049 caixas com ossadas humanas encontradas no local em 1990. Segundo a universidade, esse acervo integra o esforço de identificação de vítimas da repressão enterradas como indigentes durante a ditadura.

Os trabalhos já produziram identificações importantes. Antes da atuação atual do CAAF, haviam sido reconhecidos Frederico Eduardo Mayr, em 1992, e Flávio Carvalho Molina, em 2005. Depois, vieram as identificações de Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, em 2018. Em 2025, o Estado brasileiro anunciou também as identificações de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, dois desaparecidos políticos ligados ao acervo de Perus.

A continuidade desse trabalho, porém, esteve longe de ser linear. O próprio CAAF e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registram que o acordo institucional foi interrompido no governo anterior e retomado em 2024, por meio de um novo Acordo de Cooperação Técnica entre o governo federal, a Unifesp e a prefeitura de São Paulo, com mediação adicional para financiamento da equipe pericial. Esse rearranjo permitiu reativar a estrutura necessária para a investigação e as identificações mais recentes.

Outro foco de apuração está no antigo prédio do DOI-Codi, em São Paulo. Integrante do Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi, o arqueólogo Andres Zarankin, da UFMG, relatou que as escavações já encontraram objetos ligados ao funcionamento do órgão repressivo e material orgânico identificado como sangue, ampliando o conjunto de evidências sobre a violência praticada no local. O pesquisador também apontou dificuldades financeiras e burocráticas para manter a investigação.

A discussão não fica restrita ao passado autoritário. Ao relacionar a herança da ditadura com formas atuais de desaparecimento forçado, Edson Teles argumenta que o país ainda convive com estruturas de violência de Estado que não foram plenamente desmontadas. O tema encontra eco em dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, segundo os quais o Brasil registrou 81.873 casos de desaparecimento em 2024, maior patamar desde 2018.

O problema, portanto, não é apenas de arquivo, memorial ou cerimônia. É de Estado. Sem política pública contínua, orçamento estável, protocolos permanentes e decisão institucional para enfrentar a verdade, a memória vira refém da troca de governo. E memória sob tutela de ocasião costuma servir mais ao esquecimento elegante do que à justiça de fato.

Há também uma conveniência nacional nesse atraso. O Brasil gosta de tratar a ditadura como capítulo encerrado, desde que ninguém mexa demais nas gavetas, nos porões e nos nomes que atravessaram o regime e seguiram circulando com prestígio na democracia. O resultado é um país que pede moderação à memória e paciência aos mortos, como se desaparecimento forçado fosse tema que o tempo resolvesse sozinho. Não resolve. Só apodrece melhor quando o poder finge que não sente o cheiro.

Fontes e documentos:

– Falta de política de estado dificulta busca por desaparecidos forçados (Agência Brasil)
– Grupo de Trabalho Perus (Unifesp)
– Pedido de desculpa Vala Clandestina de Perus (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania)
– CAAF Unifesp identifica mais dois desaparecidos políticos (Unifesp)
– Estado brasileiro identifica dois desaparecidos políticos no caso da vala clandestina de Perus (TRF3)
– Crescimento dos desaparecimentos pode invisibilizar execuções e desaparecimentos forçados (Fonte Segura FBSP)

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