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ANP amplia fiscalização contra abusos nos combustíveis

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Plano prevê 3 mil ações e tenta conter aumentos sem justificativa

A ANP ampliará as fiscalizações no mercado de combustíveis após identificar indícios de preços abusivos em 21 ações realizadas desde março. O novo plano prevê mais de 3 mil verificações entre julho e setembro.

Fiscalização da ANP encontra indícios de preços abusivos

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis realizou 2.111 ações de fiscalização entre 9 de março e 3 de junho em postos, distribuidoras, transportadores e outros agentes do mercado.

As ações foram presenciais e remotas e ocorreram em todos os estados. O objetivo principal foi verificar se aumentos praticados após a escalada internacional do petróleo tinham correspondência com os custos efetivamente suportados pelas empresas.

Ao todo, a agência lavrou 389 autos de infração por diferentes irregularidades. Desse total, 21 estavam relacionados especificamente a indícios de elevação abusiva de preços.

O número equivale a cerca de 1% das ações realizadas no período. A proporção, contudo, não significa que os outros estabelecimentos tenham recebido aprovação definitiva nem que os 21 autuados já tenham sido condenados.

O auto de infração abre um processo administrativo. As empresas podem apresentar documentos, justificar custos e exercer o direito de defesa antes de eventual aplicação de penalidade.

Distribuidoras concentram maior parte das autuações

Dos 21 autos ligados a possíveis preços abusivos, 16 foram emitidos contra distribuidoras localizadas em São Paulo, Distrito Federal, Paraná e Rio de Janeiro.

Outros cinco atingiram revendedores de gás liquefeito de petróleo no Ceará e no Pará. O GLP é o produto vendido ao consumidor como gás de cozinha.

A concentração dos casos em distribuidoras chama atenção para uma etapa da cadeia que nem sempre é visível ao motorista. O preço encontrado na bomba não é definido apenas pelo posto, mas resulta da soma de produção ou importação, mistura de biocombustíveis, tributos, transporte, distribuição e margem de revenda.

Isso não elimina a responsabilidade de quem vende ao consumidor. Apenas mostra que investigar o preço final exige acompanhar a cadeia inteira, e não escolher o último balcão como culpado automático.

ANP compara notas fiscais, custos e preços de venda

Durante as fiscalizações, os agentes coletam preços praticados e solicitam notas fiscais de aquisição dos combustíveis.

A análise compara quanto o estabelecimento pagou pelo produto com o valor cobrado posteriormente na venda. Também são observados os períodos anteriores e posteriores às oscilações do mercado internacional.

Quando surgem indícios de aumento sem justificativa compatível, o agente econômico é notificado a apresentar documentos complementares. Custos de transporte, tributos, armazenagem, câmbio e alterações no fornecimento podem ser considerados na avaliação.

Caso a documentação demonstre que a elevação decorreu de despesas reais, o auto pode ser julgado improcedente e não gerar penalidade.

A distinção é essencial porque os preços dos combustíveis são livres no Brasil. Desde 2002, não há tabelamento nem valor máximo definido previamente pela ANP.

Preço alto, portanto, não é automaticamente preço abusivo. A irregularidade pode existir quando há elevação injustificada de margem, aproveitamento oportunista de uma crise ou descolamento entre o aumento cobrado e os custos comprovados.

Fiscalização crescerá mais de 40% no próximo trimestre

A diretoria da ANP aprovou um novo plano de fiscalização para o período de julho a setembro. A previsão é realizar mais de 3 mil ações, número superior em mais de 40% ao registrado na primeira etapa.

No primeiro mês, pelo menos 80% das ações deverão se concentrar na avaliação de preços. O percentual previsto cai para 75% em agosto e 70% em setembro.

O plano inclui medidas ostensivas, educativas e coercitivas, além da divulgação periódica dos resultados. A agência também pretende priorizar os processos sancionadores relacionados à abusividade para reduzir o intervalo entre a fiscalização e a decisão administrativa.

A estratégia terá duração inicial de três meses e poderá ser revista conforme o cenário internacional, o comportamento dos preços e as mudanças nas normas em vigor.

Critérios definitivos ainda estão em regulamentação

A ANP abriu consulta e audiência públicas para definir os critérios específicos de caracterização da elevação abusiva de preços.

Até a conclusão desse processo, as análises utilizam os dados disponíveis sobre custos, margens e variações de mercado. A própria agência informou que notificações e autos já emitidos serão reavaliados após a publicação da regulamentação.

Essa revisão protege dois interesses que precisam caminhar juntos. O consumidor não pode ficar exposto a aumentos oportunistas, mas uma empresa também não deve ser punida apenas porque seus custos subiram de forma excepcional e comprovável.

Regulação séria não trabalha com adivinhação. Trabalha com nota fiscal, margem, série histórica e direito de defesa.

Governo adotou subvenções para gasolina e diesel

A ampliação das fiscalizações faz parte de um conjunto de medidas adotadas após a alta internacional do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio.

Entre as iniciativas está a concessão de subvenções econômicas a produtores e importadores. O mecanismo funciona como uma compensação financeira condicionada à redução correspondente no preço de venda.

Para a gasolina, o governo estimou benefício de aproximadamente R$ 0,44 por litro, inicialmente por dois meses. O valor pode variar conforme as regras, os preços de referência e a comprovação apresentada pelos beneficiários.

No diesel rodoviário, o benefício atualmente regulamentado é de R$ 1,12 por litro. Produtores e importadores precisam aderir ao programa e demonstrar que o desconto foi efetivamente aplicado.

A redução deve aparecer na nota fiscal eletrônica. Os registros de preços e volumes comercializados são enviados à ANP, responsável por verificar as operações e realizar os pagamentos.

A existência da subvenção não garante, por si só, queda idêntica na bomba. O combustível passa por várias etapas até chegar ao consumidor, e mudanças em tributos, frete, margens ou custos regionais podem alterar o resultado final.

Por isso, transparência e fiscalização são partes inseparáveis do programa. Dinheiro público destinado a reduzir preço precisa deixar rastro até o consumidor. Caso contrário, o subsídio corre o risco de parar no meio do caminho com o tanque ainda vazio.

Consumidor pode comunicar suspeitas à agência

Motoristas e consumidores podem denunciar suspeitas de irregularidades à ANP pelo telefone 0800 970 0267 ou pela plataforma FalaBR.

Ao fazer a comunicação, é recomendável informar endereço do estabelecimento, produto, preço observado, data e horário. Fotografias do painel de preços e comprovantes de compra também podem ajudar na análise.

Diferença de preço entre postos não comprova irregularidade isoladamente. A denúncia permite que a agência confronte os valores com notas fiscais, custos, margens e informações de outros agentes da cadeia.

Resultado dependerá de processos concluídos e transparência

O aumento do número de ações amplia a capacidade de detectar irregularidades, mas o efeito prático dependerá da conclusão dos processos e da divulgação dos resultados.

Será necessário informar quantos autos foram confirmados, quantos acabaram arquivados, quais penalidades foram aplicadas e se os preços apresentaram mudança após a intervenção regulatória.

Os 21 autos indicam que há casos a esclarecer. Ainda não permitem afirmar que todas as empresas autuadas praticaram abuso definitivamente comprovado.

Para o consumidor, o teste decisivo será mais simples. As medidas terão funcionado se os descontos públicos forem repassados, os aumentos injustificados forem contidos e a formação do preço deixar de ser uma caixa-preta abastecida com explicações genéricas.

Relacionadas, fontes e documentos:

Alimentos respondem por metade da inflação de maio (Fonte em Foco)
Poupança tem 1ª entrada líquida do ano em maio (Fonte em Foco)
Inflação prevista sobe e aperta debate sobre juros (Fonte em Foco)
Indústria cresce pelo 4º mês, mas segue longe do pico (Fonte em Foco)
– ANP inicia nova etapa no combate à abusividade de preços de combustíveis (ANP)
– Preços e defesa da concorrência (ANP)
Em três meses, ANP fez 21 autuações por preço abusivo de combustível (Agência Brasil)

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