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Assassinatos no campo dobram mesmo com queda de conflitos

Publicado em:

Repórter: Marta Borges

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Mortes no campo expõem agravamento da violência rural no Brasil

O Brasil registrou queda no número total de conflitos no campo em 2025, mas viu dobrar o total de assassinatos ligados a disputas envolvendo povos da terra, das águas e das florestas. Foram 1.593 ocorrências no ano passado, contra 2.207 em 2024, redução de 28%. No mesmo período, as mortes passaram de 13 para 26 vítimas.

O contraste é o ponto mais grave do levantamento. Há menos registros gerais, mas a violência letal avançou. Isso indica que a redução numérica das ocorrências não significa, por si só, pacificação dos territórios. No campo brasileiro, a estatística pode diminuir enquanto o risco de morte aumenta.

Amazônia concentra maioria dos assassinatos

A Amazônia Legal concentrou a maior parte dos assassinatos registrados em 2025. Foram 16 mortes, distribuídas entre Pará, com sete casos, Rondônia, também com sete, e Amazonas, com dois.

O relatório também aponta dois episódios classificados como massacres, um no Pará e outro em Rondônia. Pela metodologia adotada, a classificação ocorre quando três ou mais pessoas são mortas em uma mesma ocasião, localidade e intervalo de tempo.

A concentração das mortes na região amazônica reforça uma tensão antiga: terras públicas, áreas protegidas, avanço econômico, grilagem, garimpo, pressão sobre territórios tradicionais e presença desigual do Estado. Quando todos esses elementos se encontram, a fronteira deixa de ser apenas geográfica. Vira linha de conflito.

Disputa por terra segue no centro da violência

A violência por terra respondeu pela maior parte dos conflitos registrados no país. Foram 1.186 ocorrências, o equivalente a 75% do total. Também foram contabilizados 159 conflitos trabalhistas, 148 conflitos pela água e 100 registros de acampamentos, ocupações e retomadas.

Entre os casos ligados à terra, aparecem invasões, pistolagem e contaminação por agrotóxicos. As principais vítimas foram povos indígenas, posseiros, quilombolas e povos sem-terra.

O levantamento atribui a maior quantidade de registros de violência no eixo terra a fazendeiros, empresários e entes públicos. No caso dos assassinatos, fazendeiros aparecem como principais agentes apontados nos registros, seja como supostos mandantes ou executores. Essa formulação exige cuidado: registro de conflito não substitui investigação policial nem decisão judicial, mas revela padrão relevante de denúncia e pressão territorial.

Prisões, humilhação e cárcere privado crescem

Outras formas de violência também aumentaram de 2024 para 2025. As prisões passaram de 71 para 111. Os casos de humilhação subiram de cinco para 142. Já os registros de cárcere privado foram de um para 105.

Parte desse salto está relacionada a operações específicas e a ações de forças de segurança em contextos de conflito agrário. O dado exige leitura técnica, porque aumentos concentrados podem decorrer de episódios pontuais. Ainda assim, o efeito social é amplo: comunidades já vulneráveis passam a lidar também com medo, constrangimento público e restrição de liberdade.

Em conflitos no campo, a violência raramente aparece sozinha. Ela costuma vir acompanhada de despejo, ameaça, perda de acesso à água, destruição ambiental, criminalização de lideranças e insegurança jurídica. É um pacote pesado, entregue quase sempre a quem tem menos defesa.

Trabalho escravo rural também aumenta

O relatório indica crescimento nos casos de trabalho escravo rural ou análogo à escravidão. Foram 159 ocorrências em 2025, alta de 5% em relação ao ano anterior. O número de trabalhadores resgatados chegou a 1.991, aumento de 23%.

Um dos casos de maior impacto ocorreu na construção de uma usina em Porto Alegre do Norte, em Mato Grosso, onde 586 pessoas foram resgatadas. Os trabalhadores teriam sido aliciados nas regiões Norte e Nordeste e submetidos a alojamentos precários, alimentação inadequada e falhas no fornecimento de água e energia.

As atividades econômicas com mais resgates foram construção de usina, lavouras, cana-de-açúcar, mineração e pecuária. O padrão revela que o problema não é resíduo isolado de atraso. Ele aparece em cadeias produtivas relevantes e em setores com peso econômico nacional.

Conflitos por água atingem comunidades tradicionais

Os conflitos pela água somaram 148 ocorrências em 2025. Os principais danos envolveram destruição ou poluição, descumprimento de procedimentos legais, redução de acesso à água e contaminação por agrotóxicos.

As principais vítimas foram povos indígenas, quilombolas, pequenos agricultores e ribeirinhos. Entre os agentes apontados aparecem mineradoras, empresários, garimpeiros, fazendeiros e usinas hidrelétricas.

Esse eixo mostra uma mudança importante na disputa territorial. Não se trata apenas de quem ocupa a terra, mas de quem controla recursos essenciais para permanecer nela. Sem água limpa e acesso seguro, o território deixa de sustentar vida. Vira mapa bonito com gente expulsa por dentro.

Observatório cruza dados sobre território e desmatamento

Junto ao relatório, foi lançado o Observatório Socioambiental, iniciativa que reúne dados entre 1980 e 2023 sobre violações de direitos humanos, desmatamento e expansão da agricultura industrial.

A plataforma foi criada para permitir consultas por estados e municípios, com cruzamento de informações sobre produção de commodities, conflitos socioambientais e degradação ambiental. A proposta é ampliar o acesso público a dados que, isolados, muitas vezes não mostram a dimensão completa do problema.

Esse tipo de ferramenta pode ajudar pesquisadores, jornalistas, gestores públicos e órgãos de controle a identificar padrões. A violência no campo não nasce do nada. Ela costuma seguir trilhas conhecidas: expansão econômica sem controle, disputa por recursos, ausência de regularização fundiária e proteção insuficiente a comunidades tradicionais.

Menos conflitos não significam menos violência

O principal alerta do relatório é a distância entre queda estatística e segurança real. O número total de conflitos diminuiu, mas os assassinatos dobraram. Portanto, a fotografia geral melhora em uma ponta e piora justamente na mais grave.

A resposta pública precisa ir além da contagem anual. Reduzir violência no campo exige regularização fundiária, fiscalização trabalhista, proteção a lideranças ameaçadas, combate à grilagem, controle ambiental e responsabilização de crimes. Sem isso, o país seguirá tratando mortes como rodapé de relatório.

O campo brasileiro não precisa apenas de produção. Precisa de lei, presença institucional e proteção concreta para quem vive nos territórios. Quando a terra vira disputa sem mediação efetiva, a colheita mais previsível é a violência.

Fontes e documentos:

Violência continua em alta no campo brasileiro, denuncia CPT (Comissão Pastoral da Terra)
– Conflitos por Terra e Água continuaram a devastar territórios e vidas no campo brasileiro em 2025 (Comissão Pastoral da Terra)
– Em 2025, 1.991 trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo rural, segundo relatório da CPT (Comissão Pastoral da Terra)
– Assassinatos e casos de trabalho escravo no campo aumentam no país (Agência Brasil)
– Observatório Socioambiental lança ferramenta inédita que cruza dados de desmatamento e violência no campo, ao longo de quatro décadas (Comissão Pastoral da Terra)

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