Cerâmicas do Amapá chegam ao Rio em exposição sobre saberes amazônicos
As louceiras de Maruanum, no Amapá, terão pela primeira vez uma exposição exclusiva fora do estado. A mostra Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum será aberta nesta quinta-feira, 30 de abril, às 17h, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro.
A exposição reúne 208 peças de 18 louceiros, entre adultos e crianças, e apresenta uma tradição que combina conhecimentos indígenas, práticas de matriz africana, técnicas de manejo da biodiversidade amazônica e vínculos espirituais com o território. A entrada é gratuita, e a visitação segue até 1º de julho.
Louceiras de Maruanum preservam saber ligado ao barro
A produção das peças depende de matérias-primas retiradas da própria região. O processo usa o barro, cinzas da casca da árvore conhecida como caripé ou caraipé e a resina vegetal jutaicica, extraída do jatobá.
Esse conjunto de materiais revela que a louça de Maruanum não é apenas artesanato decorativo. Ela nasce de um conhecimento detalhado sobre solo, árvores, tempo de coleta, queima e uso comunitário. É técnica, mas também é memória.
Segundo o CNFCP/Iphan, a tradição é mantida atualmente por 26 pessoas, a maioria mulheres, que vivem em 16 vilas do distrito rural de Maruanum, a cerca de 80 quilômetros de Macapá.
Ritual da Mãe do Barro marca retirada da matéria-prima
A produção das louças envolve cuidados e restrições, especialmente na retirada do barro e na queima das peças. Um dos momentos mais simbólicos ocorre após a coleta da matéria-prima, quando as artesãs modelam pequenas peças e as devolvem ao buraco de onde o barro foi retirado.
O gesto é uma oferta à Mãe do Barro, também chamada de vovó do barro. Nesse momento, as louceiras agradecem, pedem proteção para a queima e entoam versos de marabaixo, tradição de canto e dança do Amapá.
Essa dimensão ritual ajuda a entender por que o ofício não pode ser reduzido a produto. A peça final carrega uma relação com o território, com as mulheres que a produzem e com a continuidade de um saber transmitido entre gerações.
Reconhecimento pode levar ofício ao patrimônio imaterial
A tradição das louceiras de Maruanum também pode avançar no caminho do reconhecimento oficial como Patrimônio Imaterial. A comunidade apresentou solicitação de registro ao Iphan, etapa inicial para proteger e valorizar o ofício.
Esse processo pode fortalecer instrumentos de salvaguarda, como defesa dos territórios de coleta, transmissão intergeracional, valorização econômica e proteção dos sentidos culturais e espirituais da prática.
A presença de crianças entre os produtores mostra que a tradição ainda tem possibilidade de renovação. Além disso, projetos de educação patrimonial do Instituto Federal do Amapá ajudam a aproximar novas gerações do ofício.
Exposição terá roda de conversa com mestra Marciana Dias
Antes da abertura da mostra, haverá uma roda de conversa às 15h, com a presença da mestra Marciana Dias, de 85 anos, reconhecida como guardiã desse saber e a louceira mais velha de Maruanum em atividade.
Também participarão a louceira Castorina Silva e Silva, a pesquisadora Céllia Costa e o reitor Romaro Silva, ambos do Instituto Federal do Amapá. Marciana Dias também é mestra do marabaixo e fundou a Associação de Louceiras em 1992.
A exposição integra a 216ª edição do programa Sala do Artista Popular, criado em 1983 pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. As peças poderão ser adquiridas no ponto de comercialização permanente do CNFCP.
Serviço
Exposição: Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum
Abertura: 30 de abril, às 17h
Roda de conversa: 30 de abril, às 15h
Visitação: até 1º de julho
Horários: terça a sexta, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h
Entrada: gratuita
Local: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e Museu de Folclore Edison Carneiro
Endereço: Rua do Catete, 179, Catete, Rio de Janeiro
Barro, memória e território na mesma peça
A mostra das louceiras de Maruanum leva ao Rio de Janeiro uma tradição que costuma permanecer distante dos grandes circuitos culturais. Esse deslocamento importa porque amplia a visibilidade de um saber amazônico construído por mulheres, famílias e comunidades quilombolas.
No entanto, reconhecimento não pode ser apenas vitrine. Para que a tradição continue viva, é preciso proteger os territórios de coleta, garantir transmissão entre gerações e valorizar economicamente as peças sem esvaziar seus sentidos culturais.
A louça de Maruanum nasce do barro, mas não termina nele. Cada peça carrega floresta, trabalho, canto, ancestralidade e uma tecnologia social que o Brasil ainda conhece pouco. Quando esse saber chega ao museu, o país ganha a chance de olhar para si sem o filtro apressado do exotismo.
Fontes e documentos:
– Exposição de louças de barro chega à Sala do Artista Popular no dia 30 de abril (Iphan)
– Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum (Iphan/CNFCP)
– Catálogo online SAP 216: Filhas e netas da Mãe do Barro (Iphan/CNFCP)

