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quarta-feira, 10 junho 2026, 05:00
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Vacina chega a aldeias por rios e helicópteros

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Equipes levam imunização a povos indígenas em áreas de difícil acesso

Profissionais de saúde enfrentam rios, estradas precárias, longas distâncias, diferenças linguísticas e exigências culturais para levar vacinação a cerca de 11 mil indígenas atendidos pelo DSEI Alto Rio Purus, entre Acre, Amazonas e Rondônia. O trabalho alcança 155 aldeias de povos como Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá, Huni Kuin, Madiha, Kulina e Manchineri.

Vacinação indígena exige mais que transporte

Levar vacina a uma aldeia distante não é apenas vencer quilômetros. É chegar com dose correta, temperatura controlada, equipe preparada e respeito ao modo de organização de cada povo.

No território atendido pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Purus, há aldeias acessíveis por caminhonete ou barco quando o tempo ajuda. Quando não ajuda, o trajeto pode depender de quadriciclo, bote ou helicóptero. A Amazônia, nesse caso, não é cenário. É parte ativa da operação.

A vacina precisa ficar entre 2°C e 8°C para manter a eficácia. Por isso, barcos com freezers, caixas térmicas e bobinas de gelo viram ferramentas tão importantes quanto seringas e fichas de atendimento. Qualquer descuido no percurso pode comprometer o imunizante antes mesmo de ele chegar ao braço de quem precisa.

DSEI organiza cuidado em território vivo

O DSEI é a unidade gestora descentralizada do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, dentro do SUS. Esse modelo considera espaço geográfico, população, organização cultural e dinâmica própria de cada território indígena.

No Alto Rio Purus, o atendimento é feito a partir de polos base. Como não há unidade de saúde em todas as aldeias, as equipes se deslocam de forma itinerante e podem passar até 40 dias em campo.

A enfermeira Kislane de Araújo Dias, responsável técnica por Imunizações e Doenças Imunopreveníveis do DSEI, organiza as ações a partir do censo vacinal. Essa base mostra quem precisa receber cada vacina em cada incursão. Assim, a equipe calcula a quantidade necessária de doses e evita desperdício.

Quando a comunidade não consegue ir ao ponto central de atendimento, os profissionais fazem busca ativa. Em alguns casos, a vacinação precisa ir de casa em casa. Na saúde indígena, a logística não segue a pressa da cidade. Segue o território, a confiança e o tempo da comunidade.

Respeito cultural define o sucesso da ação

O coordenador do DSEI, Evangelista Apurinã, resume um ponto decisivo: não basta chegar à aldeia com vacina. É preciso entender como cada povo se organiza.

Entre Madijá e Kulina, por exemplo, a permanência em um mesmo local pode ser curta, o que exige negociação e adaptação. Já entre os Jamamadi, a organização política por clãs impõe cuidado para que qualquer acordo seja feito com as lideranças corretas.

Sem esse entendimento, a ação pode fracassar mesmo com boa estrutura. O Estado chega com plano, mas o território responde com sua própria lógica. Quem ignora isso coloca, como se diz no interior, a carroça na frente dos bois — e, nesse caso, ainda corre o risco de perder a viagem com a caixa térmica cheia.

Comunicação também é parte da vacina

A capacitação dos profissionais tem sido tratada como etapa essencial. A enfermeira Evelin Plácido, que atuou por anos em territórios indígenas e hoje ministra formações em imunização, destaca que a vacina precisa ser explicada com clareza.

O treinamento inclui armazenamento, aplicação, descarte de frascos, efeitos adversos e bases imunológicas. Mas também inclui comunicação. A técnica protege o imunizante. A escuta protege a relação.

Kislane reforça que as equipes não podem chegar impondo decisão. A orientação é construir roda de conversa, explicar o que é o imunobiológico e por que ele protege contra doenças às quais os povos indígenas estão expostos.

Esse cuidado não é gentileza periférica. É condição de saúde pública. A vacina só cumpre sua função quando encontra confiança suficiente para ser aceita.

Seca e surtos mostram risco da distância

Em 2024, a seca severa na Amazônia dificultou a navegação e impediu o acesso regular de equipes de saúde a algumas áreas. Em uma aldeia da região, houve surto de influenza, com morte de duas crianças.

A resposta exigiu plano de contingência, apoio aéreo, deslocamento de profissionais de outros polos e antecipação da vacinação contra influenza no território. O caso mostra que, em regiões isoladas, atraso logístico pode virar risco sanitário grave.

Populações indígenas seguem esquemas específicos de vacinação. Influenza e covid-19, por exemplo, devem ser aplicadas anualmente, independentemente da idade, por causa da maior vulnerabilidade epidemiológica. O Ministério da Saúde também intensifica campanhas específicas em territórios indígenas por meio do Mês de Vacinação dos Povos Indígenas.

Calendário amplo aumenta desafio técnico

O Programa Nacional de Imunizações oferece mais de 20 vacinas no calendário básico. Além disso, novas vacinas foram incorporadas recentemente, como imunizantes contra dengue e vírus sincicial respiratório.

Para profissionais em áreas remotas, cada atualização exige treinamento, reorganização de estoque, revisão de rotas e adaptação dos registros. O avanço do calendário é positivo, mas também aumenta a responsabilidade operacional.

A capacitação promovida em Rio Branco reuniu profissionais que atuam na saúde indígena e em outras comunidades de difícil acesso. A proposta foi harmonizar práticas e adaptar protocolos ao contexto local.

Esse é um ponto que costuma ficar invisível. Antes da foto do Zé Gotinha na aldeia, há planilha, gelo, motor de barco, tradutor, liderança, caderno, estrada ruim e uma equipe que precisa decidir quantas doses cabem em uma viagem que talvez não tenha volta fácil no mesmo dia.

Vacinar é também pedir licença

A técnica de enfermagem Natália Diniz, que atua no polo de Boca do Acre, no Amazonas, descreve o trabalho em território indígena como uma entrada na casa de alguém. É preciso pedir permissão, respeitar a rotina e entender que a equipe é convidada.

Essa frase talvez explique melhor a política pública do que muito relatório. Em território indígena, saúde não pode chegar como ocupação. Precisa chegar como cuidado.

A vacinação no Alto Rio Purus ensina uma lição maior ao SUS. Universalizar acesso não é tratar todo mundo do mesmo jeito. É garantir o mesmo direito por caminhos diferentes. Às vezes, esse caminho é uma estrada. Às vezes, é um rio. Às vezes, é um helicóptero. Quase sempre, é uma conversa feita com respeito antes da aplicação da dose.

Relacionadas, fontes e documentos:

–  Saúde mental de crianças ganha reforço no SUS (Fonte em Foco)
Diabetes afeta saúde emocional de 70% no Brasil (Fonte em Foco)
Julho Neon reforça saúde bucal no SUS (Fonte em Foco)
Pandemia reduziu expectativa de vida no Brasil (Fonte em Foco)
Profissionais de saúde vencem desafios para vacinação em área indígena (Agência Brasil)
– Distrito Sanitário Especial Indígena (Ministério da Saúde)
– Ministério da Saúde lança Mês de Vacinação dos Povos Indígenas (Ministério da Saúde)

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