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Crédito rural pode mais que triplicar colheita de alho

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Casal do Distrito Federal projeta colher 1,2 tonelada após investir em sementes, adubação e maquinário

A expectativa dos produtores rurais Esther Macedo, 44 anos, e Luciano Custódio, 49, é elevar de 360 quilos para cerca de 1,2 tonelada a próxima colheita de alho. O aumento projetado tornou-se possível depois que o casal obteve crédito rural pelo Prospera e ampliou os investimentos na lavoura.

Os dois cultivam alho há três anos. Na safra anterior, plantaram 60 quilos e colheram 360 quilos. Desta vez, utilizaram 200 quilos no plantio, além de reforçarem a adubação e adquirirem equipamentos para melhorar o manejo da produção.

“Agora, avançamos bem mais. Plantamos 200 quilos de alho e esperamos colher uns 1.200 quilos com a ajuda do Prospera. O dinheiro chegou na hora certa e estamos conseguindo manter a plantação em ordem”, relata Luciano.

A estimativa representa um crescimento superior a três vezes o volume obtido na safra anterior. O resultado efetivo, porém, dependerá do desenvolvimento da lavoura até a colheita.

Crédito rural permite ampliar a produção sem esperar pela formação de capital próprio

Para pequenos produtores, a falta de recursos disponíveis no início do ciclo produtivo pode limitar a compra de sementes, fertilizantes, equipamentos e outros insumos. O Prospera oferece microcrédito orientado para empreendedores urbanos e rurais do Distrito Federal.

Esther afirma que o financiamento reduziu uma das principais barreiras enfrentadas pela família para ampliar o cultivo.

“Acessar o crédito é muito importante para o pequeno agricultor. A gente agarrou a chance e hoje está com uma quantidade bem maior de alho. Não é fácil juntar dinheiro para aumentar a produção, e com o crédito foi rápido, sem burocracia”, diz.

Entre 2019 e maio de 2026, mais de R$ 67 milhões em crédito rural foram aprovados para 1.262 projetos elaborados pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal.

Os financiamentos atenderam produtores individuais, associações e cooperativas. Parte dos beneficiários também participa de programas de compras públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Programa de Aquisição da Produção da Agricultura.

Esses programas criam canais de comercialização para alimentos produzidos pela agricultura familiar e ajudam a reduzir uma dificuldade recorrente no campo. Produzir mais não basta quando o agricultor não dispõe de mercado para escoar a colheita.

Assistência técnica acompanha o projeto e a aplicação dos recursos

A atuação da Emater-DF começa antes da contratação do financiamento. Os extensionistas avaliam a viabilidade técnica e financeira da atividade, elaboram o projeto e acompanham a aplicação do dinheiro durante o ciclo produtivo.

Esse acompanhamento busca adequar o valor financiado à capacidade de pagamento do produtor e às necessidades reais da propriedade.

“Elaboramos um projeto com viabilidade técnica e financeira e, seguindo as orientações, os produtores conseguem cumprir o crédito com tranquilidade”, explica a extensionista Roseli Oliveira.

Ela ressalta que o financiamento pode ser empregado tanto na manutenção das atividades quanto na adoção de tecnologias e equipamentos.

“O crédito facilita o giro do dinheiro dentro da propriedade e permite investir em tecnologias, inovação e melhorias que trazem mais facilidade para o cultivo. É a permanência do pequeno e do médio produtor na área, de importância fundamental”, afirma.

O suporte técnico também reduz o risco de que o financiamento seja tratado apenas como liberação de dinheiro. Na produção rural, o prazo do empréstimo, o calendário da cultura, a estimativa de produtividade e as condições de comercialização precisam estar articulados para evitar que a dívida cresça sem o retorno esperado.

Produtores podem recorrer a linhas distritais e nacionais

O Distrito Federal mantém duas estruturas próprias de financiamento. O Prospera é administrado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda. O Fundo Distrital de Desenvolvimento Rural é vinculado à Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.

Também estão disponíveis linhas nacionais, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste.

O secretário de Agricultura, Rafael Bueno, explica que o crédito rural atende duas necessidades principais. A primeira é o custeio, destinado à compra de sementes, fertilizantes e outros insumos empregados na safra. A segunda é o investimento em máquinas, veículos, estruturas e animais.

“O custeio agropecuário é destinado à aquisição de fertilizantes e insumos de maneira geral para a próxima safra. O investimento permite adquirir maquinários, animais, estruturas e veículos que melhoram a logística de escoamento da produção”, afirma.

No FDR, os financiamentos têm juros de 3% ao ano. O produtor que paga as parcelas até o vencimento recebe bônus de adimplência de 25% sobre a taxa de juros, o que reduz o encargo efetivo.

O fundo também permite reunir despesas de custeio e de investimento em uma mesma operação, conforme o projeto aprovado. Na prática, o agricultor pode financiar simultaneamente os insumos necessários à lavoura e equipamentos destinados à expansão ou à modernização da propriedade.

Proposta amplia modalidades do Fundo de Desenvolvimento Rural

O Executivo encaminhou à Câmara Legislativa o Projeto de Lei nº 2.345/2026, que altera a legislação do FDR. A proposta tramita em regime de urgência e ainda depende de análise e votação dos deputados distritais.

O texto cria o FDR-Mulher, destinado a financiar projetos de custeio e investimento conduzidos por mulheres rurais chefes de família. A modalidade prevista concentra-se no empreendedorismo rural e nas atividades agropecuárias sob liderança feminina.

A proposta também institui o FDR-Associação/Cooperativa. A linha poderá financiar máquinas, implementos agrícolas e equipamentos utilizados na agroindustrialização por organizações de produtores familiares e assentados da reforma agrária.

Outra modalidade prevista é o FDR-Estrutura Rural, voltado a obras de infraestrutura básica, viária e hídrica, recuperação de áreas degradadas e nascentes, além da construção ou reforma de moradias rurais.

O projeto inclui ainda o FDR-Mudanças Climáticas, destinado ao financiamento de práticas agropecuárias de baixa emissão de carbono.

Como o projeto permanece em tramitação, essas novas modalidades não devem ser apresentadas como benefícios já regulamentados e disponíveis para contratação.

Crédito acessível precisa estar ligado à produção e ao mercado

O caso de Esther e Luciano mostra como o financiamento pode alterar rapidamente a capacidade de produção de uma pequena propriedade. O dinheiro permitiu comprar mais sementes, melhorar a adubação e incorporar equipamentos sem que o casal precisasse aguardar anos para formar capital próprio.

A expansão da lavoura, entretanto, é apenas uma parte do processo. O aumento sustentável da renda depende do acompanhamento técnico, da produtividade alcançada, dos custos da safra e da existência de canais para vender a produção.

Quando crédito, assistência técnica e comercialização funcionam de maneira articulada, o financiamento deixa de ser apenas uma dívida assumida pelo agricultor. Passa a operar como instrumento de planejamento, modernização e permanência das famílias no campo.

Fontes e documentos:

Programa Prospera (Sedet-DF)
– Projeto de Lei nº 2.345/2026 (CLDF)
– Fundo Distrital de Desenvolvimento Rural (Agência Brasília)
– Programa de Aquisição da Produção da Agricultura (Seagri-DF)

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