Césio-137 retorna às telas pela memória de Lourdes e Leide
Quase quatro décadas depois do acidente radiológico de Goiânia, o documentário Lourdes e Leide recupera a história de uma família atravessada por mortes, discriminação e uma busca prolongada por reconhecimento e reparação.
Dirigido por Angelo Lima, o curta-metragem de 19 minutos acompanha Lourdes das Neves Ferreira e as lembranças da filha Leide, morta aos 6 anos após ingerir partículas de césio-137. A produção integrou a mostra competitiva de curta-metragem ambiental do Festival Bonito CineSur, realizado em Mato Grosso do Sul.
Mais do que reconstruir a sequência técnica do acidente, o filme volta a atenção para as consequências que permaneceram dentro das casas. “Foi uma tragédia silenciosa”, resume o diretor.
Equipamento abandonado deu início ao acidente
Em 13 de setembro de 1987, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira entraram nas antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia, no centro de Goiânia.
O prédio estava abandonado e o equipamento de radioterapia permanecia no local sem a proteção necessária contra acesso indevido. Os dois retiraram parte do aparelho e tentaram desmontá-lo, interessados no valor comercial do chumbo e de outros componentes.
Dentro do equipamento havia uma fonte de césio-137, utilizada anteriormente em tratamentos contra o câncer. Quando a cápsula foi rompida, o cloreto de césio começou a se espalhar.
O material tinha aparência semelhante à de um sal e emitia brilho azulado no escuro. Sem qualquer informação sobre o risco, partes do aparelho foram vendidas a um ferro-velho pertencente a Devair Alves Ferreira.
O brilho despertou curiosidade. Fragmentos foram levados para dentro de residências, mostrados a familiares e distribuídos entre conhecidos. A substância contaminou pessoas, objetos, terrenos e imóveis antes que a origem dos sintomas fosse identificada.
Leide morreu em 23 de outubro de 1987
Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou parte do material para casa. Sua filha, Leide das Neves Ferreira, manipulou o pó e ingeriu partículas enquanto se alimentava.
A menina morreu em 23 de outubro de 1987, e não em 23 de setembro, como aparece em parte dos relatos reproduzidos sobre o caso. Ela foi enterrada em um caixão revestido de chumbo, diante do temor de que a radiação ainda representasse risco.
O enterro também expôs o estigma produzido pelo acidente. Moradores tentaram impedir o sepultamento e houve lançamento de pedras contra o cortejo e o caixão. A reação transformou uma família já atingida pela contaminação em alvo de hostilidade pública.
Maria Gabriela Ferreira morreu no mesmo dia que Leide. Israel Batista dos Santos faleceu em 27 de outubro, e Admilson Alves de Souza, em 28 de outubro. Os quatro óbitos ocorreram nas semanas seguintes à exposição.
Cerca de 112.800 pessoas foram examinadas. Desse total, 249 apresentaram contaminação, 129 tiveram também contaminação interna e 20 precisaram ser hospitalizadas.
Filme acompanha o luto de dona Lourdes
O documentário foi filmado em 2025 e concentra sua narrativa no cotidiano de Lourdes. A ausência da filha se manifesta nas fotografias, nos objetos preservados e em uma rotina moldada pelo que aconteceu em 1987.
Ao escolher o espaço doméstico, a produção desloca a história das estatísticas para a experiência de quem continuou vivendo depois da emergência radiológica. As quatro mortes iniciais são o resultado mais visível, mas não resumem os danos físicos, psicológicos, sociais e econômicos provocados pelo acidente.
Famílias tiveram de deixar suas casas. Objetos pessoais foram destruídos durante a descontaminação. Pessoas associadas ao episódio enfrentaram rejeição em escolas, estabelecimentos comerciais, transportes e espaços públicos.
Estudos posteriores sobre as consequências psicossociais identificaram medo, isolamento, ansiedade, alterações familiares e discriminação prolongada entre moradores e pessoas reconhecidas como vítimas.
“Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias”, afirma Angelo Lima.
Morte recente amplia o luto da família
Lourdes perdeu outro filho em julho de 2026. Lucimar das Neves Ferreira tinha 14 anos quando ocorreu o acidente e chegou a ser internado após a exposição.
A morte foi comunicada durante a semana de exibição do documentário. O diretor relatou que Lucimar enfrentava problemas relacionados ao consumo de álcool e um quadro grave de enfisema pulmonar.
As informações disponíveis, contudo, não estabelecem vínculo médico entre a morte de Lucimar e a exposição ao césio-137. Fazer essa associação exigiria laudo clínico, histórico individual de dose, avaliação especializada e demonstração de nexo causal.
A proximidade entre os acontecimentos tem significado emocional para a família e para outros sobreviventes, mas memória compartilhada não substitui comprovação médica. A distinção protege tanto a verdade factual quanto a história das vítimas.
Justiça reconheceu omissões e determinou reparações
Angelo Lima atribui responsabilidade ao Estado e rejeita a culpabilização das pessoas que encontraram ou manipularam a cápsula sem conhecer o risco.
A discussão não permaneceu apenas no campo da memória. Processos judiciais reconheceram falhas relacionadas à guarda do equipamento e à fiscalização de materiais radioativos. União, Comissão Nacional de Energia Nuclear e Estado de Goiás receberam condenações ou obrigações de reparação em diferentes ações.
Entre as medidas determinadas estão:
- manutenção de atendimento médico especializado;
- acompanhamento psicológico e odontológico;
- monitoramento epidemiológico das vítimas;
- vigilância ambiental das áreas atingidas;
- assistência a vítimas diretas e indiretas reconhecidas;
- funcionamento permanente de um centro de atendimento em Goiânia.
Goiás instituiu pensões para vítimas em 1989. Em 1996, uma lei federal também concedeu pensão vitalícia a pessoas enquadradas nos critérios de exposição.
Essas respostas representam reconhecimento jurídico do dano, mas não encerraram os conflitos. Ao longo dos anos, sobreviventes enfrentaram processos demorados para comprovar exposição, doença e direito aos benefícios.
Acidente mudou regras de segurança radiológica
A afirmação de que nada mudou desde 1987 expressa a percepção do diretor sobre o abandono das vítimas, mas não descreve integralmente a evolução regulatória.
O acidente de Goiânia tornou-se referência internacional para normas sobre controle de fontes radioativas. O Brasil adotou sistemas de licenciamento, inventário, fiscalização e recolhimento de materiais sem uso.
Há também uma estratégia nacional para localizar e recuperar fontes órfãs — materiais radioativos que perderam controle institucional, exatamente o tipo de risco que esteve no centro da tragédia de Goiânia. O plano inclui atenção especial a ferros-velhos, reciclagem de sucata, importação e transporte.
As lições do acidente contribuíram ainda para o Código de Conduta sobre Segurança de Fontes Radioativas, utilizado internacionalmente como referência para impedir perda, abandono, roubo ou descarte inadequado desses materiais.
A existência de normas, entretanto, não garante execução automática. Fiscalização, rastreamento, estrutura técnica e comunicação com trabalhadores da reciclagem continuam sendo as barreiras entre uma fonte abandonada e outro desastre.
Memória também funciona como prevenção
Lourdes e Leide não substitui o relatório técnico, o processo judicial nem a avaliação médica. Seu papel é outro: impedir que a história seja reduzida a uma cápsula rompida, quatro mortes imediatas e uma operação de descontaminação.
O acidente revelou uma cadeia de falhas institucionais. Um equipamento perigoso permaneceu acessível em um prédio abandonado. Pessoas sem informação manipularam o material. A resposta inicial enfrentou desorganização, medo coletivo e comunicação insuficiente. Depois vieram o estigma e as disputas pela reparação.
As normas de segurança avançaram, mas o documentário mostra que o tempo regulatório e o tempo do luto não caminham na mesma velocidade. Para a administração pública, o episódio pode virar protocolo. Para uma mãe, continua sendo a ausência da filha.
Relacionadas, fontes e documentos:
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