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Moraes envia a Fachin acusação contra Mendonça no caso Master

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Moraes leva a Fachin acusação contra outro ministro do STF

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de uma decisão que aponta supostas irregularidades na atuação do ministro André Mendonça na relatoria de processos ligados às operações Sem Desconto e Compliance Zero. O material foi enviado ao presidente da Corte, Edson Fachin, para que ele avalie as providências cabíveis.

A decisão foi tomada nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, no âmbito do Inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news. O procedimento foi instaurado em 2019 para apurar notícias fraudulentas, denunciações caluniosas, ameaças e outras infrações contra integrantes do Supremo, além de possíveis esquemas de financiamento e divulgação em massa de desinformação nas redes sociais.

Moraes encaminhou a Fachin a decisão e relatórios de inteligência da Polícia Federal que, segundo ele, fundamentam a suspeita de irregularidades na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero. O ministro também determinou que a Procuradoria-Geral da República fosse comunicada.

O ponto central é institucionalmente delicado. Um ministro do Supremo acusa outro ministro do próprio Supremo de irregularidades na condução de investigações sensíveis. Por isso, a forma de apuração passa a ser tão importante quanto o conteúdo das acusações.

Relatórios da PF sustentam pedido, mas exigem cautela

Os documentos enviados por Moraes tratam de supostas irregularidades atribuídas a André Mendonça. Moraes apontou possíveis indícios relacionados à atuação do colega na relatoria de processos das operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Essa formulação exige cuidado. A existência de uma decisão, de relatórios de inteligência e de suspeitas formalmente encaminhadas não significa comprovação de crime, abuso ou irregularidade administrativa. Significa que há um pedido para que os fatos sejam avaliados pela Presidência do STF e pela Procuradoria-Geral da República.

Em casos assim, a linguagem importa. O que está documentado até aqui é uma acusação apresentada por Moraes e encaminhada a Fachin. O mérito das imputações, a regularidade dos documentos e a eventual responsabilidade de autoridades ainda dependem de análise institucional.

Caso se conecta à crise aberta pelas mensagens de Vorcaro

A movimentação ocorre em meio à crise aberta após André Mendonça retirar o sigilo de relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. As mensagens citam Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Vorcaro é alvo da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master. A partir da quebra de sigilo do celular do ex-banqueiro, a Polícia Federal encontrou diálogos e referências a autoridades públicas, material que passou a alimentar uma disputa interna no Supremo.

A Procuradoria-Geral da República já havia pedido a anulação da investigação sobre conversas envolvendo Moraes e Vorcaro. Para Gonet eventual investigação contra Moraes deveria ser direcionada ao presidente da Corte, Edson Fachin, e não conduzida diretamente pelo relator do caso.

Fachin passou a concentrar a condução institucional

Na sexta-feira, 4 de setembro, Fachin deu cinco dias para que Mendonça e Gonet se manifestem sobre as acusações feitas por Moraes. A decisão também menciona que as providências determinadas servem exclusivamente para instruir o caso, sem antecipar juízo sobre admissibilidade, regularidade do procedimento ou mérito das imputações.

Esse trecho é decisivo para compreender o momento. Fachin não validou automaticamente a versão de Moraes nem descartou a atuação de Mendonça. Ele abriu espaço formal para manifestações e sinalizou que a crise precisa ser tratada dentro de um rito, com devido processo legal, contraditório e análise colegiada quando cabível.

Também nesta sexta-feira, Fachin retirou do inquérito das fake news o pedido de Moraes para investigar Mendonça e determinou que o caso fosse incluído no mesmo procedimento que analisa o relatório da Polícia Federal com mensagens e contatos entre Vorcaro e Moraes.

Sem Desconto e Compliance Zero ampliam o alcance da crise

A menção às operações Sem Desconto e Compliance Zero amplia o alcance do conflito. Não se trata apenas de uma divergência sobre uma decisão isolada, mas de questionamento sobre a condução de apurações com grande peso político, financeiro e institucional.

A Operação Compliance Zero apura suspeitas de fraudes financeiras no Banco Master. A operação já teve desdobramentos em diferentes fases e passou a envolver autoridades citadas em mensagens recuperadas do celular de Vorcaro.

Já a Operação Sem Desconto aparece no conjunto de acusações mencionado por Moraes contra Mendonça. O conteúdo público disponível até agora não permite afirmar, de forma conclusiva, quais atos serão considerados regulares ou irregulares no fim da análise.

O que ainda precisa ser esclarecido

A crise deixa ao menos quatro pontos em aberto. O primeiro é se os relatórios usados por Moraes têm validade e força suficientes para justificar uma investigação formal contra Mendonça. O segundo é se houve excesso de atuação na condução de diligências envolvendo autoridades com foro no Supremo.

O terceiro ponto é a validade do material ligado às mensagens de Daniel Vorcaro. A existência de mensagens, contatos ou citações não comprova, por si só, prática de crime ou desvio funcional. O quarto é o papel do Plenário do STF, caso Fachin decida levar a controvérsia para deliberação coletiva.

Para o cidadão, a pergunta mais importante não é qual ministro vencerá a disputa interna. A pergunta é se o Supremo conseguirá apurar acusações graves contra seus próprios integrantes com transparência, limites institucionais e respeito às garantias constitucionais.

O impacto ultrapassa os gabinetes

Quando uma crise atinge o tribunal responsável por guardar a Constituição, o impacto ultrapassa os gabinetes. O Supremo julga investigações, decide conflitos entre Poderes, define limites de atuação do Estado e interfere diretamente na vida democrática do país.

A decisão de Moraes abre uma frente grave contra Mendonça. A reação de Fachin, ao centralizar a tramitação e exigir manifestações, tenta impedir que a crise avance apenas por acusações cruzadas. O desafio agora é transformar um conflito entre autoridades em procedimento institucional compreensível, verificável e sujeito a controle.

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