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Campanha cobra compromisso de candidatos com o Cerrado

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Cerrado entra na disputa eleitoral

Organizações da sociedade civil lançaram a campanha #VotePeloCerrado para cobrar de candidatos às eleições de 2026 compromisso público com a proteção do bioma e dos povos que vivem nele. A mobilização quer transformar o Cerrado em pauta eleitoral, não em lembrança bonita de data comemorativa.

A campanha disponibiliza uma carta-compromisso para assinatura de candidatos ao Executivo e ao Legislativo no site oficial votepelocerrado.org.br. O documento reúne oito propostas voltadas à proteção ambiental, às águas, aos territórios, à agricultura familiar, à agroecologia, à sociobiodiversidade e aos direitos das comunidades tradicionais.

O lançamento ocorre no Dia Nacional do Cerrado, celebrado nesta sexta-feira (11). A escolha da data não é casual: o bioma aparece como tema ambiental, social, hídrico, econômico e político ao mesmo tempo.

As organizações envolvidas destacam que o Cerrado abriga nascentes que alimentam oito das 12 principais bacias hidrográficas do país. Também alertam que mais de 50% da vegetação nativa já foi destruída e que os rios enfrentam redução média de 27% na vazão, segundo os dados apresentados na divulgação da campanha.

No site oficial, a iniciativa define o Cerrado como “coração das águas do Brasil” e afirma que o bioma abastece milhões de brasileiros. A campanha também registra que ele contribui com 94% da vazão do Rio São Francisco, 100% das águas do Pantanal e 62% da bacia Tocantins-Araguaia.

Carta-compromisso tem oito propostas

A carta-compromisso apresenta oito pontos para candidatos incorporarem às plataformas eleitorais. A lógica é simples: quem pede voto em área de Cerrado, ou depende das águas do Cerrado, precisa dizer o que pretende fazer por ele.

As propostas são:

1. Proteger o Cerrado e garantir seu reconhecimento como patrimônio nacional.

2. Proteger as águas como direito fundamental.

3. Garantir terra, território e autodeterminação dos povos.

4. Combater a grilagem e a violência no campo.

5. Enfrentar os impactos dos grandes empreendimentos e garantir consulta livre, prévia e informada.

6. Promover a agroecologia e fortalecer a agricultura familiar.

7. Valorizar a sociobiodiversidade e a soberania alimentar.

8. Garantir saúde, educação, participação popular e condições dignas de vida.

Esses compromissos aparecem no site oficial da campanha como eixo de mobilização para as eleições de 2026. A plataforma também permite que candidatos assinem a carta e autorizem o tratamento dos dados para validação da candidatura e processamento da adesão.

Proteção do bioma depende de decisão política

Para Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado no Instituto Sociedade, População e Natureza, a proteção do bioma precisa envolver projetos de longo prazo. Segundo ela, é necessário eleger parlamentares que compreendam a importância do Cerrado e não tenham visão imediatista capaz de comprometer o futuro.

Esse é o ponto central da campanha: desmatamento, água, terra e produção de alimentos não se resolvem com promessa vaga em época de eleição. São temas que dependem de orçamento, lei, fiscalização, regularização fundiária, crédito, assistência técnica e prioridade real de governo.

A secretária executiva da Rede Cerrado, Ingrid Silveira, defende que as eleições coloquem no centro políticas de fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia e da sociobiodiversidade, com garantia de território, crédito e acesso a mercados para quem cuida do bioma.

Mobilização reúne centenas de entidades

A Rede Cerrado, que reúne mais de 500 organizações por meio de associadas, e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, que articula mais de 60 entidades, lideram a mobilização.

A campanha não fala apenas em árvores, rios e vegetação. Ela também fala de gente. A articulação reúne povos indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares, movimentos socioambientais e organizações de conservação da natureza.

Essa composição amplia o sentido da pauta. Proteger o Cerrado não é apenas conservar uma paisagem. É proteger territórios, modos de vida, produção de alimentos, culturas, nascentes e formas de conhecimento que existem antes de muitos discursos oficiais sobre sustentabilidade.

Povos tradicionais cobram escolha atenta

Durante o lançamento online da campanha, o presidente do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, Samuel Leite Caetano, alertou para a importância de escolher representantes comprometidos com pautas ambientais e direitos territoriais.

Representante do povo geraizeiro, comunidade tradicional do Cerrado no norte de Minas Gerais, ele afirmou que os biomas correm sérios riscos a depender de quem seja eleito. A preocupação é direta: sem compromisso político, regularização fundiária, demarcação e gestão territorial podem ficar submetidas a interesses contrários à proteção ambiental.

Samuel também destacou que a proteção do Cerrado deve interessar a todo o país, e não apenas a quem vive dentro do bioma. A razão é concreta: a água que abastece capitais e grandes rios depende da conservação desse território.

Emergência climática aumenta o peso da campanha

A coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, afirmou que o momento político, marcado por retrocessos em legislações ambientais, reforça a necessidade de escolha atenta nas eleições.

Ela defende que o eleitor considere candidatos preocupados com biomas e clima. Em plena crise climática, escolher quem trata meio ambiente como detalhe pode sair caro para todo mundo — inclusive para quem nunca pisou em uma vereda.

O Ministério do Meio Ambiente também marcou o Dia do Cerrado de 2026 com cerimônia institucional, assinatura de portarias voltadas ao bioma e apresentação de dados do Deter pelo Inpe. A agenda oficial incluiu representantes do MCTI, do Inpe e da sociedade civil, reforçando a centralidade do tema no debate ambiental nacional.

O Cerrado não está longe do eleitor

A campanha oficial afirma que votar pelo Cerrado significa avaliar histórico e propostas de candidatos e partidos. Também afirma que o voto deve considerar quem terá poder para definir leis, políticas públicas, orçamentos e prioridades que afetam o bioma, seus povos e a vida da população.

Esse é o esforço político da campanha: tirar o Cerrado da gaveta ambiental e colocá-lo dentro da urna. A pauta atravessa abastecimento de água, produção de alimentos, clima, energia, povos tradicionais, agricultura familiar, biodiversidade e modelo de desenvolvimento.

O eleitor pode não morar em área rural. Pode nunca ter ido a uma comunidade geraizeira, quilombola ou indígena. Pode nem associar a água da torneira ao Cerrado. Mas a conexão existe.

O que a campanha quer dos candidatos

A campanha quer compromisso público. Isso significa que candidatos assumam posição registrada, verificável e cobrável depois das eleições.

Promessa ambiental genérica não basta. O que as organizações cobram é adesão a propostas específicas, com proteção do bioma, defesa das águas, garantia de território, combate à grilagem, enfrentamento de grandes empreendimentos sem consulta, fortalecimento da agricultura familiar e proteção da sociobiodiversidade.

O site oficial também informa que a campanha não apoia candidaturas específicas, mas dá visibilidade a pessoas candidatas que assumem o compromisso. A estratégia é usar as assinaturas para buscar coerência das ações políticas depois da eleição.

O Cerrado está pedindo voto, mas não para um partido

A campanha #VotePeloCerrado coloca uma pergunta incômoda no meio da eleição: quem quer governar ou legislar está disposto a defender o bioma que sustenta águas, alimentos, comunidades e clima?

Essa pergunta não cabe só na propaganda eleitoral. Ela precisa aparecer no debate, na entrevista, no plano de governo, no voto para deputado, senador, governador e presidente. Porque o Cerrado não perde vegetação por acidente. Perde por escolha, omissão, pressão econômica, lei frouxa, fiscalização fraca e prioridade invertida.

O eleitor também entra nessa conta. Votar pelo Cerrado não significa trocar cidadania por militância ambiental. Significa entender que água, comida, calor extremo, território e violência no campo são temas políticos, não paisagem distante.

O Cerrado não está pedindo favor. Está cobrando consequência. Quem pede voto precisa dizer se vai proteger nascentes ou abrir caminho para mais destruição. Se vai defender povos tradicionais ou fingir que conflito fundiário é problema dos outros. Se vai tratar a agricultura familiar como parte da solução ou como rodapé de discurso.

No fim, a campanha lembra algo que a política costuma esconder atrás de slogans: o futuro também é votado. E, quando o assunto é Cerrado, o voto de hoje pode decidir quanta água, biodiversidade e vida ainda existirão amanhã.

Fontes e Documentos:

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