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TSE barra Arruda e muda disputa pelo Governo do DF em 2026

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Reportagem:
Marta Borges

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Decisão chega dez dias antes das urnas

A disputa pelo Governo do Distrito Federal mudou de contexto nesta quinta-feira (24), dez dias antes do primeiro turno: o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou o recurso de José Roberto Arruda (PSD) e manteve o indeferimento de seu registro de candidatura. A decisão veio um dia depois da divulgação da pesquisa Quaest mais recente e quatro dias depois do último levantamento do Igape — ambos realizados quando o nome do ex-governador ainda era apresentado aos entrevistados.

O julgamento terminou por 5 votos a 2. A maioria acompanhou o entendimento de que as condenações por improbidade administrativa ainda produzem efeito de inelegibilidade sobre Arruda, enquanto a divergência sustentou uma interpretação diferente sobre a forma de contabilizar os períodos decorrentes das condenações.

O processo chegou ao TSE por meio do Recurso Ordinário Eleitoral 0600957-40.2026.6.07.0000, contra decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal. O TRE-DF havia indeferido o registro por entender que Arruda continuava inelegível em razão de condenações por improbidade administrativa relacionadas à Operação Caixa de Pandora. O processo teve como relator o ministro Dias Toffoli.

Há uma consequência importante para qualquer leitura das pesquisas eleitorais: os números divulgados até agora retratam um momento anterior à decisão do TSE. Eles continuam válidos como fotografia da intenção declarada pelos entrevistados nos respectivos períodos de coleta, mas não medem como esse mesmo eleitorado reagirá à retirada de Arruda da disputa.

Quaest colocou Celina com 33%, Grass com 21% e Arruda com 17%

Na pesquisa Quaest divulgada em 23 de setembro, Celina Leão (PP) aparece com 33% das intenções de voto no cenário estimulado que incluía Arruda. Leandro Grass (PT) registra 21%, Arruda, 17%, e Paula Belmonte (PSDB), 5%. Na sequência aparecem Kiko Caputo (Novo), com 3%, Ricardo Cappelli (PSB), com 2%, e Professora Samara Mineiro (UP), com 1%.

A Quaest ouviu presencialmente 1.104 eleitores do Distrito Federal com 16 anos ou mais entre 19 e 22 de setembro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número DF-02596/2026.

O levantamento trouxe ainda uma informação que ganhou importância depois do julgamento desta quinta-feira. A Quaest testou um segundo cenário sem Arruda e outros candidatos que estavam com registros indeferidos: nele, Celina aparece com 34%, Grass com 23% e Paula com 7%. Kiko Caputo registra 3%, Cappelli, 2%, e Samara Mineiro, 1%.

Esse cenário, entretanto, precisa ser lido pelo que efetivamente é. Os números sem Arruda não constituem uma previsão de como os votos do ex-governador serão redistribuídos depois da decisão do TSE. Trata-se da resposta dada por uma amostra quando recebeu outra lista de candidatos, antes do julgamento desta quinta-feira.

Igape encontrou Celina com 41,5%

A outra pesquisa pública mais recente, divulgada pelo Igape em 20 de setembro, encontrou Celina com 41,5% no cenário estimulado. Arruda registrava 16,3%, Grass, 15,8%, e Paula, 5,4%. Ricardo Cappelli aparecia com 3,9% e Kiko Caputo, com 2,9%.

O Igape entrevistou 2 mil eleitores entre 15 e 19 de setembro. A margem de erro informada é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número DF-09868/2026.

No Igape, apenas meio ponto percentual separava Arruda, com 16,3%, de Grass, com 15,8%. Essa distância nominal é menor que a margem de erro da pesquisa e não permite estabelecer estatisticamente uma vantagem entre os dois a partir desse levantamento.

Por que 33% e 41,5% não formam uma trajetória

A diferença entre os 33% de Celina na Quaest e os 41,5% registrados pelo Igape não significa que a candidata tenha perdido 8,5 pontos. Seria uma comparação incorreta porque os levantamentos foram produzidos por institutos diferentes, com amostras, períodos de campo e procedimentos próprios.

O mesmo cuidado vale para Grass. Ele registra 15,8% no Igape e 21% na Quaest, mas não é metodologicamente seguro afirmar que houve crescimento de 5,2 pontos comparando diretamente essas duas pesquisas. Para observar evolução, é mais adequado acompanhar sucessivas rodadas de um mesmo instituto.

A comparação entre as duas pesquisas serve para outra finalidade. Quaest e Igape encontraram Celina numericamente acima dos demais nomes testados e colocaram Grass e Arruda no grupo seguinte, embora em posições diferentes. Paula aparece depois dos três primeiros nos dois levantamentos, com 5% na Quaest e 5,4% no Igape.

A série da Quaest mostra como a disputa vinha se movimentando

As três últimas rodadas da Quaest permitem uma comparação temporal mais consistente porque mantêm o mesmo instituto e uma metodologia comparável. Em 25 de agosto, Celina tinha 34%, Arruda, 20%, Grass, 13%, e Paula, 3%.

Na rodada divulgada em 8 de setembro, Celina registrou 35%, Arruda, 18%, Grass, 17%, e Paula, 4%. Na pesquisa de 23 de setembro, a sequência passou para Celina com 33%, Grass com 21%, Arruda com 17% e Paula com 5%.

Celina permaneceu numericamente em uma faixa estreita nas três pesquisas: 34%, 35% e 33%. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais de cada rodada, essas oscilações não bastam, isoladamente, para caracterizar crescimento ou queda estatisticamente comprovados.

Grass percorreu uma sequência de 13%, 17% e 21%. Entre a primeira e a terceira rodada, são oito pontos percentuais de diferença nominal, enquanto Arruda percorreu o sentido oposto, de 20% para 18% e depois 17%.

A mudança na relação entre os dois é especialmente visível. Arruda aparecia sete pontos acima de Grass em agosto; a diferença caiu para um ponto em 8 de setembro e, na rodada de 23 de setembro, Grass aparece quatro pontos acima. A sequência descreve o que as três amostras encontraram; não autoriza transformar a trajetória em previsão do comportamento futuro dos eleitores.

Paula aparece com 3%, 4% e 5% nas três rodadas. Também nesse caso há uma sequência nominal ascendente, mas as variações entre pesquisas são menores que a margem de erro de três pontos percentuais.

O julgamento do TSE rompe a continuidade dessa série

A decisão desta quinta-feira cria uma quebra entre aquilo que as pesquisas mediram e a configuração jurídica da disputa depois da coleta. Até então, Arruda estava sub judice: a legislação permite que uma candidatura com registro indeferido e recurso pendente continue praticando atos de campanha e mantenha o nome na urna enquanto o recurso está sendo analisado.

Foi nessa condição que seu nome apareceu nas pesquisas. A Justiça Eleitoral esclarece que “concorrendo” e “registro deferido” não significam a mesma coisa quando há recurso pendente. Uma candidatura pode permanecer na disputa enquanto a controvérsia judicial ainda não chegou ao desfecho aplicável ao registro.

Com o julgamento do TSE, a situação muda. O resultado de 5 a 2 manteve o indeferimento do registro de Arruda e retirou dele a possibilidade de prosseguir normalmente na campanha, segundo os relatos publicados após a sessão.

Isso não autoriza apagar Arruda dos levantamentos já realizados. Pelo contrário. Manter seus percentuais nas pesquisas anteriores é necessário para preservar o significado histórico dos dados: 17% na Quaest e 16,3% no Igape correspondem às respostas efetivamente obtidas quando o nome dele fazia parte da lista apresentada aos entrevistados.

A pergunta agora é o que acontece com esse eleitorado

As pesquisas disponíveis não respondem para onde irão os eleitores que declararam voto em Arruda depois da decisão do TSE. Parte pode escolher outro candidato, parte pode migrar para branco ou nulo, parte pode permanecer indecisa, e o comportamento real pode assumir outras combinações. Afirmar antecipadamente uma transferência específica iria além das evidências disponíveis.

A Quaest oferece uma referência, mas não uma resposta definitiva. No cenário pesquisado sem Arruda, Celina tinha 34%, Grass, 23%, e Paula, 7%, enquanto indecisos chegavam a 15% e branco, nulo ou nenhum também somavam 15%. Comparado ao cenário com Arruda, o desenho sem seu nome não mostra uma simples transferência automática dos 17 pontos para outro candidato.

Essa diferença é importante. Eleitorado não funciona como um pacote que um candidato entrega integralmente a outro. Quando uma opção desaparece da cédula, cada pessoa pode reavaliar a escolha a partir de afinidade política, rejeição, campanha, voto estratégico ou decisão de não escolher nenhum dos nomes restantes.

Por isso, o cenário sem Arruda pesquisado pela Quaest ganha valor analítico depois da decisão do TSE, mas não poder preditivo. Ele mostra como aquela amostra respondeu a uma lista sem o ex-governador entre 19 e 22 de setembro; não mostra necessariamente como o eleitorado responderá depois de conhecer o julgamento.

O que decidiu o TSE

O centro jurídico da controvérsia estava na duração da inelegibilidade decorrente das condenações por improbidade administrativa e na aplicação das mudanças legislativas à situação de Arruda. A maioria rejeitou o recurso e manteve a conclusão de que havia causa de inelegibilidade suficiente para impedir o registro.

A defesa sustentava uma interpretação que permitiria considerar conjuntamente determinados períodos de inelegibilidade. A posição majoritária não acolheu essa leitura para afastar o impedimento eleitoral no caso concreto. A divergência, por sua vez, adotou entendimento diferente sobre a relação entre as condenações e a duração da restrição.

O próprio TSE havia registrado, antes do julgamento, que o TRE-DF considerara Arruda inelegível por condenações relacionadas à Operação Caixa de Pandora. A decisão desta quinta-feira encerrou no Tribunal Superior Eleitoral o recurso que buscava reverter o indeferimento do registro para a eleição ao Governo do DF.

Pesquisa registrada não é pesquisa produzida pelo TSE

Há outra distinção importante para o eleitor: Quaest e Igape são pesquisas de institutos privados registradas na Justiça Eleitoral, e não pesquisas realizadas pelo TSE. A legislação obriga empresas e entidades que realizam pesquisas eleitorais destinadas à divulgação a registrar previamente informações no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle.

Esse registro permite conhecer elementos como responsável pelo levantamento e características metodológicas. Ele oferece transparência e permite controle jurídico, mas não transforma o percentual pesquisado em dado produzido, certificado ou previsto pela Justiça Eleitoral.

O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Faltam dez dias para que a intenção declarada nas pesquisas dê lugar ao voto efetivamente depositado nas urnas. Eventual segundo turno para governador está marcado para 25 de outubro.

Uma pesquisa que envelheceu em menos de 24 horas

A particularidade política da Quaest de 23 de setembro é que sua fotografia permaneceu atual por menos de um dia em um ponto fundamental: a presença de Arruda na disputa. O levantamento terminou a coleta em 22 de setembro, foi divulgado no dia 23 e, nesta quinta-feira, 24, o TSE manteve o indeferimento do registro.

Isso não diminui a pesquisa. Muda a pergunta que fazemos a ela. Antes do julgamento, seus números ajudavam a descrever a distribuição das intenções de voto entre os nomes apresentados; depois da decisão, também passam a mostrar o tamanho do contingente que havia escolhido uma candidatura posteriormente barrada.

Na Quaest, esse contingente era de 17%. No Igape, 16,3%. Politicamente, a retirada de uma opção que concentrava aproximadamente essa parcela das respostas abre uma zona de incerteza relevante na reta final, mas não permite concluir quem será beneficiado por ela.

A própria Quaest oferece uma pista dos limites dessa interpretação. Quando Arruda é retirado do cenário, Celina passa de 33% para 34%, Grass, de 21% para 23%, e Paula, de 5% para 7%. Ao mesmo tempo, aumentam as respostas de indecisão e de branco, nulo ou nenhum. O experimento sugere que retirar um candidato da lista não produz uma redistribuição linear dos votos, ao menos entre os entrevistados daquela pesquisa.

A decisão judicial ocorre ainda em uma fase na qual campanhas disputam atenção, eleitores podem rever escolhas e novos acontecimentos podem interferir na opinião pública. Quanto mais perto da eleição, mais recente é a fotografia de uma pesquisa — mas ela continua sendo fotografia, não resultado antecipado.

No domingo, 4 de outubro, essa diferença ficará concreta. A pergunta feita pelo entrevistador será substituída pela decisão individual de cada eleitor diante da urna. Até lá, os levantamentos ajudam a entender de onde a disputa veio; uma nova pesquisa feita depois do julgamento será necessária para medir como o eleitorado reage ao cenário criado pelo TSE.

Fontes e Documentos:

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