Estudo identifica expansão da transmissão para regiões antes protegidas pelo frio, as alterações no clima também favorecem riscos associados a enchentes, secas e fungos resistentes
Mudanças climáticas ampliam avanço da dengue e ameaçam saúde com novas infecções no Brasil
O avanço das mudanças climáticas está modificando o mapa das doenças infecciosas no Brasil. Regiões que antes registravam poucos casos de dengue por causa das temperaturas mais baixas passaram a enfrentar epidemias, enquanto enchentes, secas e alterações ambientais criam novas condições para a circulação de vírus, bactérias e fungos.
O Rio Grande do Sul é um dos exemplos mais expressivos dessa transformação. Em 2024, o estado registrou aproximadamente 208 mil casos de dengue e 281 mortes, números que mostram como a doença passou a representar um desafio de saúde pública também em áreas historicamente menos favoráveis à reprodução do mosquito transmissor.
A preocupação vai além da dengue. A expansão da febre do Oropouche, o risco de leptospirose após enchentes, a exposição a roedores em ambientes alterados e o surgimento de fungos resistentes revelam diferentes maneiras pelas quais as condições ambientais podem influenciar a saúde humana.
Dengue avança para regiões que antes eram protegidas pelo frio
Durante décadas, as temperaturas mais baixas ajudaram a limitar a transmissão da dengue no Sul do Brasil. O mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão da doença, encontra condições mais favoráveis à reprodução e ao desenvolvimento em ambientes com determinadas faixas de temperatura e umidade.
O Rio Grande do Sul registrou seu primeiro caso de transmissão local em 2007. Até então, as infecções identificadas no estado estavam relacionadas principalmente a pessoas que haviam contraído a doença em outras localidades.
A situação mudou profundamente. Em 2024, o estado ultrapassou 200 mil casos confirmados e registrou 281 mortes. Para compreender a dimensão do avanço, basta observar que a dengue deixou de ser uma ameaça associada quase exclusivamente às regiões tropicais mais quentes.
O aquecimento e a ocorrência de temperaturas acima dos padrões históricos podem ampliar os períodos em que o mosquito consegue sobreviver, reproduzir-se e transmitir o vírus. Essa mudança não acontece da mesma maneira em todo o território, mas ajuda a explicar por que áreas anteriormente menos vulneráveis passaram a apresentar transmissão persistente.
Mais da metade das microrregiões brasileiras atingiu níveis epidêmicos
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou uma expansão expressiva das áreas brasileiras com elevada incidência de dengue. O estudo, publicado em 2024 na revista científica Scientific Reports, analisou indicadores epidemiológicos, climáticos e demográficos de 553 microrregiões do país.
A investigação considerou dados de 2000 a 2020, organizados em três períodos: 2000 a 2006, 2007 a 2013 e 2014 a 2020.
No período mais recente da análise, 292 microrregiões apresentaram incidência superior a 300 casos por 100 mil habitantes, patamar utilizado para identificar transmissão elevada. Isso corresponde a aproximadamente 52,8% das áreas avaliadas.
O dado mais preocupante não é apenas o crescimento do número de regiões atingidas, mas a permanência da transmissão em locais onde a dengue já havia se estabelecido. Entre as microrregiões que apresentavam incidência elevada no período intermediário, aproximadamente 77% continuaram nessa condição na etapa seguinte.
A presença anterior do vírus, a urbanização e a ocorrência prolongada de temperaturas anormalmente altas apareceram entre os fatores associados ao aumento da incidência.
Temperaturas fora do padrão favorecem a expansão do mosquito
O mosquito transmissor da dengue depende das condições ambientais para completar seu ciclo de vida. Temperatura, umidade e disponibilidade de água influenciam a reprodução, o desenvolvimento das larvas e a atividade dos insetos adultos.
Na pesquisa, um dos indicadores mais relevantes foi a frequência das chamadas anomalias térmicas positivas.
O termo parece complicado, mas descreve uma situação relativamente simples: dias em que a temperatura fica acima do padrão esperado para determinado lugar e época do ano.
Quando esses períodos de calor anormal se tornam frequentes, regiões antes consideradas menos favoráveis podem passar a oferecer melhores condições para a transmissão da dengue. O efeito também depende da presença do mosquito, da circulação do vírus e das características das cidades.
O estudo identificou maior incidência em determinadas áreas urbanizadas que já apresentavam transmissão anterior e enfrentaram períodos prolongados de temperaturas elevadas.
Por que o calor não explica tudo sozinho?
O aumento da temperatura é uma parte importante do problema, mas não determina isoladamente a ocorrência de uma epidemia. A transmissão também depende do acúmulo de água, da circulação de pessoas infectadas, da infraestrutura urbana e da capacidade de prevenção e atendimento.
Em bairros com problemas de abastecimento, por exemplo, o armazenamento inadequado de água pode favorecer a formação de criadouros. Em áreas muito urbanizadas, a proximidade entre pessoas e mosquitos facilita a circulação do vírus.
Além disso, temperaturas excessivamente altas podem prejudicar a sobrevivência do próprio mosquito, dependendo da intensidade e da duração do calor.
O risco cresce quando diferentes condições favoráveis se combinam e permitem que o vetor e o vírus permaneçam circulando por períodos mais longos. Por isso, a vigilância precisa considerar tanto o clima quanto as condições sociais e ambientais de cada território.
Febre do Oropouche também se espalha para novas regiões
A febre do Oropouche é outro exemplo de doença cuja distribuição geográfica passou por mudanças importantes. Antes concentrada principalmente na Amazônia, a infecção alcançou outras regiões brasileiras, ampliando a necessidade de vigilância epidemiológica.
A doença é causada pelo vírus Oropouche e transmitida principalmente pela picada de pequenos insetos conhecidos como maruins, especialmente da espécie Culicoides paraensis.
Em 2025, foram registradas mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal.
A expansão territorial levanta questões sobre o papel das mudanças nos padrões de temperatura, chuva, uso do solo e degradação ambiental. A contribuição específica de cada fator ainda exige investigação, porque a circulação do vírus depende também das características ecológicas dos transmissores.
A febre do Oropouche pode provocar febre, dor de cabeça, dores musculares e articulares, sintomas que se confundem com os de outras arboviroses.
Essa semelhança torna importante a avaliação médica e a vigilância laboratorial, especialmente em regiões onde diferentes doenças transmitidas por insetos circulam simultaneamente.
Enchentes ampliam o risco de leptospirose e contaminação da água
As mudanças no clima também podem afetar a saúde quando provocam ou intensificam eventos extremos, como chuvas intensas e inundações. Nesses episódios, o perigo não termina quando a água começa a baixar.
A leptospirose é uma das principais preocupações após enchentes. A doença é causada por bactérias do gênero Leptospira, que podem estar presentes na urina de animais infectados, especialmente roedores.
Quando a água invade ruas, casas e estabelecimentos, ela pode entrar em contato com esgoto, lama e resíduos contaminados.
Pessoas expostas a essa água podem contrair leptospirose, principalmente quando a bactéria entra em contato com mucosas ou lesões na pele. O risco aumenta em situações de limpeza de imóveis inundados e circulação por áreas alagadas.
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul demonstraram como desastres ambientais podem criar condições para surtos e ampliar a necessidade de atendimento de saúde.
Água contaminada também pode transmitir outras doenças
A leptospirose não é a única ameaça associada às inundações. Quando a água utilizada para beber, cozinhar ou higienizar alimentos é contaminada, aumentam os riscos de doenças gastrointestinais e infecções como hepatite A.
O problema é especialmente grave quando enchentes comprometem sistemas de abastecimento, redes de esgoto ou estruturas de armazenamento de água.
Para reduzir a exposição, é importante evitar contato com a água da inundação, utilizar botas e luvas impermeáveis quando a limpeza for indispensável e descartar alimentos atingidos pela enchente.
Quem apresentar febre, dores musculares ou outros sintomas após contato com água ou lama potencialmente contaminada deve procurar atendimento de saúde e informar essa exposição. O diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para reduzir o risco de complicações.
Secas e queimadas também podem aproximar doenças das pessoas
A falta de chuva e as queimadas criam riscos diferentes daqueles associados às enchentes. Incêndios e alterações na vegetação podem modificar os habitats dos animais silvestres e aumentar as oportunidades de contato com ambientes ocupados por seres humanos.
Entre as doenças que exigem atenção está a hantavirose, infecção viral associada principalmente à exposição a secreções e excretas de roedores silvestres infectados.
No Brasil, o hantavírus pode provocar uma síndrome cardiopulmonar grave, com comprometimento rápido da capacidade respiratória.
A infecção pode ocorrer quando partículas contaminadas presentes em fezes, urina ou saliva de roedores são suspensas no ar e inaladas. O risco merece atenção em depósitos, construções rurais, ambientes fechados e locais com sinais de infestação.
As medidas preventivas incluem manter alimentos bem armazenados, evitar o acúmulo de entulho e impedir a entrada de roedores nas construções.
Em locais com sinais de infestação, a limpeza precisa seguir procedimentos de segurança. Varrer a seco ou levantar poeira contaminada pode aumentar a exposição.
Por que a alteração dos habitats preocupa a saúde pública?
Quando um ambiente natural sofre transformações intensas, as relações entre animais, microrganismos e seres humanos também podem mudar. Desmatamento, ocupação desordenada, incêndios e modificações no uso do solo interferem nessas interações.
Isso não significa que toda queimada provocará transmissão de hantavírus ou que todo deslocamento de animais resultará em doença.
O risco depende da presença do agente infeccioso, dos animais capazes de transmiti-lo e das condições de exposição das pessoas.
A prevenção exige compreender essas conexões antes que novos surtos apareçam, especialmente em regiões rurais e áreas próximas a ambientes naturais modificados.
Fungos resistentes surgem como outro desafio para a saúde
Além dos vírus e das bactérias, as mudanças ambientais também despertam preocupação com a adaptação de fungos capazes de provocar infecções humanas. Alguns desses microrganismos conseguem sobreviver em condições de temperatura e umidade que antes representavam obstáculos ao seu desenvolvimento.
O corpo humano mantém temperatura próxima de 37°C, condição que dificulta o crescimento de muitas espécies de fungos presentes no ambiente.
A elevação das temperaturas ambientais pode exercer pressão seletiva sobre esses organismos, favorecendo espécies e linhagens mais tolerantes ao calor.
Essa possibilidade preocupa porque determinados fungos capazes de tolerar temperaturas mais altas também podem encontrar condições para sobreviver no organismo humano. Entretanto, o aquecimento global não deve ser tratado como causa comprovada e isolada do surgimento de cada espécie patogênica.
A resistência a medicamentos, o uso de antifúngicos, as condições hospitalares e outros fatores ecológicos também participam desse processo.
Candida auris exige atenção especial nos hospitais
A Candida auris é um fungo de importância internacional por sua capacidade de provocar surtos em serviços de saúde e apresentar resistência a medicamentos antifúngicos. O organismo também pode permanecer em superfícies e equipamentos, dificultando seu controle em ambientes hospitalares.
Pacientes internados por longos períodos, pessoas com imunidade comprometida e indivíduos submetidos a procedimentos invasivos estão entre os grupos mais vulneráveis.
É importante distinguir duas situações: a colonização ocorre quando o fungo está presente no organismo sem necessariamente provocar doença; a infecção acontece quando há comprometimento clínico.
A presença de Candida auris em um paciente não significa automaticamente uma infecção grave ou que o fungo tenha causado uma morte. Essa diferença é fundamental para interpretar corretamente os dados hospitalares.
O Brasil identificou ocorrências do fungo a partir de 2020, o que levou ao reforço das medidas de vigilância, identificação laboratorial e prevenção de infecções nos serviços de saúde.
Outros fungos também desafiam os tratamentos
O Trichophyton indotineae chama atenção pela associação com infecções de pele que podem apresentar resistência aos antifúngicos utilizados habitualmente. O problema dificulta o tratamento e exige identificação adequada do agente infeccioso.
Outra preocupação envolve espécies do gênero Aspergillus, presentes no ambiente e capazes de provocar infecções graves principalmente em pessoas vulneráveis.
Mudanças de temperatura, umidade, circulação de partículas e uso de substâncias antifúngicas podem influenciar o comportamento e a distribuição desses organismos.
A resistência aos medicamentos é especialmente importante porque reduz as opções de tratamento e pode tornar as infecções mais difíceis de controlar. Por isso, a vigilância precisa observar tanto o ambiente quanto o uso adequado de antifúngicos na medicina e em outras atividades.
O que o Brasil precisa fazer diante das doenças sensíveis ao clima?
A expansão dos riscos infecciosos exige que a saúde pública considere as condições climáticas como parte do planejamento de prevenção. Não basta acompanhar os casos depois que uma epidemia começa.
Informações sobre temperaturas, chuvas, umidade, enchentes e alterações ambientais podem ajudar a identificar territórios que precisam de vigilância reforçada.
No caso da dengue, essa integração pode orientar ações de combate ao mosquito antes dos períodos de maior transmissão. Para as doenças associadas às enchentes, permite organizar medidas de saneamento, abastecimento de água e atendimento à população afetada.
Também é necessário preparar os serviços de saúde para reconhecer infecções que antes eram pouco frequentes em determinadas regiões.
A prevenção passa pela combinação entre vigilância epidemiológica, monitoramento ambiental, infraestrutura urbana, diagnóstico oportuno e informação acessível à população. Nenhuma dessas medidas resolve o problema sozinha.
Por que as mudanças climáticas também são uma questão de saúde
A expansão da dengue para regiões antes menos vulneráveis revela uma mudança que vai além do comportamento de um mosquito. O clima influencia as condições em que pessoas, animais e microrganismos convivem, mas seus efeitos sobre a saúde dependem também de como as cidades e os serviços públicos estão organizados.
Uma enchente pode contaminar a água de uma comunidade. Uma seca prolongada pode alterar o contato entre animais e pessoas. O aumento de temperaturas pode favorecer a transmissão de determinadas doenças, ao mesmo tempo que outros fatores ambientais modificam sua intensidade.
Esses riscos não atingem todos igualmente. Pessoas que vivem em moradias precárias, áreas sujeitas a inundações ou regiões com saneamento insuficiente podem enfrentar dificuldades maiores para se proteger.
O avanço das doenças sensíveis ao clima mostra que adaptação ambiental e proteção da saúde precisam caminhar juntas. Controlar vetores, melhorar o saneamento, monitorar novos agentes infecciosos e preparar o atendimento são formas de reduzir danos diante de um cenário em transformação.
A principal mudança está em reconhecer que algumas doenças já não podem ser compreendidas apenas pelos lugares onde historicamente ocorreram. A proteção da população depende cada vez mais da capacidade de antecipar riscos em territórios que também estão mudando.
Relacionadas, fontes e documentos:
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- Saúde pode evitar 739 mil mortes e elevar PIB (Fonte em Foco)
- Climate change, thermal anomalies, and the recent progression of dengue in Brazil (Scientific Reports)
- RS registra terceira morte por dengue e primeira por chikungunya em 2025 (Governo do Estado do Rio Grande do Sul)
- Mudanças climáticas já causam aumento de doenças infecciosas no país (Agência Brasil)
- Cuidados com a Leptospirose (Ministério da Saúde)
- Cuidados com a água (Ministério da Saúde)
- Hantavirose (Ministério da Saúde)

