Primeira mulher eleita governadora pelo voto direto no Distrito Federal, Celina conquista 57,18% dos votos e recebe um mandato de continuidade, mas terá de enfrentar a crise do BRB, melhorar os serviços essenciais e reconstruir a confiança na gestão
Celina Leão vence eleição no DF e terá no BRB o maior teste de seu novo mandato
Celina Leão (PP) saiu das urnas neste domingo (25 de outubro) com uma vitória expressiva e um desafio que não poderá esperar o início do próximo mandato. Reeleita governadora do Distrito Federal com 57,18% dos votos válidos, ela terá de conciliar a continuidade de seu projeto de governo com a recuperação do Banco de Brasília (BRB), cuja crise financeira se tornou uma das questões mais delicadas da administração distrital.
Com todas as urnas apuradas, Celina recebeu 987.142 votos, contra 739.130 de Leandro Grass (PT), uma diferença de 248.012 votos. O resultado confirma a preferência da maioria dos eleitores que deram votos válidos à candidata, mas também evidencia a dimensão das expectativas depositadas sobre sua capacidade de governar.
A vitória tem um significado histórico: Celina se tornou a primeira mulher eleita diretamente para comandar o Governo do Distrito Federal. E chega a essa condição depois de ter assumido o Executivo em março de 2026, quando Ibaneis Rocha (MDB) deixou o cargo.
A eleição lhe oferece agora um mandato próprio para executar um projeto de governo, mas também amplia sua responsabilidade pelas decisões tomadas daqui para a frente. O maior teste será demonstrar que a continuidade administrativa pode conviver com mudanças profundas onde a gestão enfrenta problemas.
Vitória consolida Celina Leão como liderança política do DF
Celina chegou ao segundo turno depois de ficar muito perto da vitória na primeira votação, realizada em 4 de outubro. Naquela ocasião, recebeu 825.530 votos, equivalentes a 49,93% dos votos válidos, enquanto Leandro Grass alcançou 34,47%.
No segundo turno, a vantagem aumentou. Celina terminou a disputa com 57,18%, e Grass, com 42,82%. A chapa vencedora tem Gustavo Rocha (Republicanos) como vice-governador eleito.
O crescimento da votação mostra que Celina conseguiu ampliar seu apoio entre os dois turnos e transformar a vantagem inicial em maioria definitiva. A diferença também indica que o eleitorado não estava dividido em duas partes equivalentes: a governadora recebeu uma vantagem de 14,36 pontos percentuais.
A participação eleitoral merece atenção. Mais de 1,85 milhão de pessoas compareceram às urnas, enquanto 389.853 eleitores não votaram, o equivalente a 17,37% dos aptos.
Esses números dão dimensão ao resultado e ajudam a compreender a responsabilidade política que acompanha a vitória.
Primeira mulher eleita governadora pelo voto direto
A conquista de Celina representa um marco na história institucional de Brasília. Outras mulheres já haviam exercido o governo distrital, mas ela é a primeira a obter diretamente nas urnas um mandato para comandar o Executivo do DF.
Sua trajetória combina experiências no Legislativo e no Executivo. Foi deputada distrital, presidiu a Câmara Legislativa, exerceu mandato na Câmara dos Deputados e chegou à vice-governadoria em 2022.
Em março de 2026, passou a exercer definitivamente o governo após a saída de Ibaneis Rocha. Poucos meses depois, conquistou a eleição para permanecer no cargo.
A experiência política acumulada poderá favorecer a articulação com a Câmara Legislativa e com diferentes setores da administração, mas não substitui a necessidade de apresentar resultados mensuráveis. O significado histórico da vitória será acompanhado pela avaliação cotidiana dos serviços prestados à população.
Continuidade do governo: o que Celina herda e o que precisará mudar
A reeleição representa a escolha pela continuidade de um grupo político que já administra o Distrito Federal. Celina foi vice de Ibaneis Rocha e assumiu o governo dentro dessa estrutura administrativa, ainda que tenha buscado construir uma identidade própria durante a campanha.
Essa continuidade pode preservar obras em andamento, contratos, programas sociais e políticas públicas que dependem de execução por vários anos.
Entre as prioridades apresentadas pela governadora estão a ampliação dos serviços de saúde, a continuidade de investimentos em infraestrutura, o fortalecimento da segurança pública, a proteção às mulheres e melhorias na mobilidade urbana.
O desafio não será apenas manter programas existentes, mas demonstrar quais deles funcionam, quais precisam de correções e quais entregas podem ser efetivamente concluídas.
Uma obra iniciada não equivale a uma obra entregue. Um hospital anunciado não significa mais consultas disponíveis. Um investimento autorizado também não representa, necessariamente, dinheiro aplicado ou benefício recebido pela população.
Para o cidadão, a continuidade administrativa só se transforma em resultado quando produz melhorias que possam ser percebidas e verificadas.
O peso de governar com uma estrutura já conhecida
Celina começará o novo período com uma vantagem administrativa: conhece a máquina pública que continuará comandando. Isso pode reduzir o tempo de adaptação e facilitar a cobrança por resultados desde o início.
Ao mesmo tempo, essa experiência torna mais difícil atribuir problemas persistentes exclusivamente à falta de conhecimento sobre a administração.
O novo mandato exigirá escolhas. Algumas obras poderão avançar, outras precisarão ser reavaliadas, e decisões sobre pessoal, contratos e investimentos terão de considerar as condições reais das contas públicas.
É nesse ponto que a crise do BRB deixa de ser um problema restrito ao sistema financeiro e passa a influenciar a capacidade de governo.
BRB: a crise que pode definir o futuro do mandato
O Banco de Brasília será uma das primeiras e mais difíceis provas de gestão para Celina Leão. Controlado pelo Governo do Distrito Federal, o BRB enfrenta uma crise relacionada a operações realizadas com o Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025.
As investigações sobre negócios entre os dois bancos identificaram suspeitas de irregularidades na aquisição de carteiras de crédito e levantaram dúvidas sobre o valor efetivo dos ativos adquiridos.
O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, informou em junho que a instituição precisava de aproximadamente R$ 8,8 bilhões para fazer frente a possíveis perdas relacionadas às operações.
Esse valor representa uma necessidade estimada de cobertura de riscos, não uma despesa já paga pelo governo nem uma medida definitiva de todas as perdas do banco. A dimensão final dos prejuízos depende de apurações, avaliações dos ativos e informações financeiras completas.
O problema não se limita a um número. Quando uma instituição financeira enfrenta perdas significativas e dificuldade para apresentar seus resultados, aumenta a pressão sobre sua capacidade de obter recursos, cumprir exigências regulatórias e preservar a confiança de clientes e investidores.
O que aconteceu entre o BRB e o Banco Master?
A crise teve origem em operações de compra de ativos financeiros que passaram a ser investigadas por suspeitas de fraude e irregularidades. Parte das carteiras adquiridas pelo BRB apresentou problemas de lastro e de comprovação dos direitos de crédito.
Em termos simples, uma carteira de crédito representa valores que um banco tem direito a receber de pessoas ou empresas. Se parte desses direitos não existe, já foi negociada com outra instituição ou não apresenta documentação válida, o comprador pode sofrer perdas financeiras.
O Banco Central decretou a liquidação de instituições do conglomerado Master em 18 de novembro de 2025, apontando uma grave crise de liquidez e comprometimento da situação econômico-financeira.
A investigação das responsabilidades é indispensável, mas suspeitas sobre dirigentes e operações específicas não devem ser confundidas com uma conclusão automática de responsabilidade pessoal da governadora.
A atuação dos órgãos de controle deverá determinar quais irregularidades ocorreram, quem participou delas e quais medidas de ressarcimento são possíveis.
Em setembro, o Tribunal de Contas do Distrito Federal determinou bloqueios cautelares de bens de ex-dirigentes do BRB, até aproximadamente R$ 2,76 bilhões, para preservar a possibilidade de recuperação de recursos. Os envolvidos têm direito de defesa.
A recuperação do banco pode exigir bilhões e decisões difíceis
A principal dificuldade financeira é encontrar recursos suficientes para fortalecer o BRB sem transferir riscos excessivos às contas públicas do Distrito Federal.
Uma das alternativas discutidas envolve um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões no âmbito do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com participação de outras instituições financeiras.
O BRB informou que um acordo entre União e Distrito Federal, homologado no Supremo Tribunal Federal, abriu caminho para a análise dessa estrutura. O arranjo, porém, não significa liberação automática do dinheiro.
A operação continua dependente de condições técnicas, avaliação do plano de negócios e definição de garantias aceitáveis. É essa diferença entre uma negociação possível e o dinheiro efetivamente disponível que torna a solução complexa.
Na prática, capitalizar um banco significa reforçar sua capacidade de absorver perdas e cumprir compromissos. Já obter liquidez significa assegurar recursos disponíveis para atender às obrigações financeiras.
Embora estejam relacionados, os dois problemas não são exatamente iguais.
Quem pode pagar a conta do BRB?
A pergunta decisiva é até que ponto a recuperação do banco poderá criar compromissos para o orçamento distrital. Como o GDF controla a instituição, decisões sobre aportes, garantias ou operações financeiras podem produzir consequências para as finanças públicas, conforme a estrutura adotada.
Se uma solução exigir recursos do Tesouro distrital, será necessário avaliar sua origem, os limites legais e os possíveis efeitos sobre outras despesas.
Se envolver empréstimos, também será fundamental conhecer taxas, prazos, garantias e riscos de inadimplência.
A população tem interesse direto nessas respostas porque o orçamento do DF precisa financiar hospitais, escolas, transporte, segurança e serviços urbanos. A recuperação de uma instituição financeira pública não pode ser examinada separadamente das demais obrigações do governo.
Isso não significa que uma operação de socorro já tenha retirado dinheiro dessas áreas. Significa que as condições escolhidas para resolver a crise precisam ser transparentes, para que seus efeitos possam ser conhecidos antes da execução.
Balanços financeiros e transparência serão decisivos
Uma das maiores exigências para recuperar a confiança no BRB será apresentar informações financeiras completas e verificáveis. A instituição acumulou atrasos na divulgação de demonstrações contábeis, dificultando a avaliação pública de sua situação.
Em outubro, Celina defendeu que a publicação dos balanços estivesse associada à obtenção de uma solução financeira capaz de fortalecer o banco.
O argumento reflete a preocupação da gestão com os efeitos que a divulgação de resultados negativos poderia provocar. Mas também evidencia um desafio: investidores, clientes, órgãos reguladores e cidadãos precisam conhecer a situação real da instituição.
Sem demonstrações financeiras atualizadas, torna-se mais difícil avaliar o tamanho das perdas, a necessidade de capital e a eficácia das medidas anunciadas.
Transparência, nesse contexto, não significa divulgar informações de maneira irresponsável. Significa cumprir as exigências legais e regulatórias, fornecer dados consistentes e permitir que as decisões sejam examinadas.
Recuperar o banco também exige recuperar sua governança
O BRB precisará demonstrar que os mecanismos de controle capazes de prevenir operações irregulares foram fortalecidos. A solução não se resume a encontrar recursos para cobrir possíveis prejuízos.
Será necessário acompanhar a responsabilização de envolvidos, a atuação dos administradores, os procedimentos internos de aprovação de negócios e a fiscalização das operações.
O banco informou ter contratado uma investigação independente sobre as transações relacionadas ao Master, com apoio especializado.
Uma instituição pode receber novos recursos e continuar vulnerável se os problemas de governança que contribuíram para a crise não forem enfrentados. Por isso, a recuperação financeira e o aperfeiçoamento dos controles precisam caminhar juntos.
Para Celina, o desafio será demonstrar que o papel do GDF como controlador do banco está sendo exercido com responsabilidade, sem interferência indevida nas decisões técnicas e regulatórias.
Saúde, mobilidade e segurança continuam no centro das cobranças
Mesmo com a gravidade da crise bancária, o mandato não poderá ser consumido exclusivamente pelo BRB. O cotidiano dos moradores continuará exigindo respostas para problemas que antecedem a eleição.
Na saúde, o desafio envolve melhorar o acesso a consultas, exames, cirurgias e atendimento nas unidades públicas. A construção ou ampliação de estruturas deverá ser acompanhada de profissionais, equipamentos e capacidade operacional.
Um hospital só amplia efetivamente a assistência quando consegue receber pacientes e oferecer os serviços para os quais foi planejado. Essa distinção entre infraestrutura e atendimento será fundamental na avaliação das entregas.
Na mobilidade, a governadora terá de lidar com demandas por transporte coletivo, integração entre regiões administrativas e redução das dificuldades de deslocamento. A expansão da rede de transporte, incluindo projetos relacionados ao metrô, envolve investimentos elevados e execução de longo prazo.
Na segurança pública, o desafio será equilibrar prevenção, policiamento, investigação e proteção de grupos vulneráveis. O enfrentamento à violência contra as mulheres também exigirá articulação com a rede de atendimento e proteção.
São áreas nas quais o cidadão tende a avaliar o governo pelo serviço recebido, e não apenas pelo volume de recursos anunciado.
O equilíbrio fiscal será tão importante quanto as novas obras
A continuidade de programas e investimentos dependerá da capacidade financeira do Distrito Federal. O orçamento precisa acomodar despesas permanentes, compromissos com servidores, manutenção de serviços, contratos e projetos de infraestrutura.
A possível necessidade de fortalecer o BRB acrescenta uma pressão ao planejamento.
O desafio é evitar que decisões tomadas para solucionar uma emergência criem dificuldades financeiras duradouras.
O governo precisará demonstrar quanto pode investir, quais despesas são prioritárias e quais compromissos podem ser assumidos sem comprometer o equilíbrio fiscal.
Uma estratégia responsável dependerá de informações públicas sobre receitas, despesas, endividamento e riscos financeiros, acompanhadas pelos órgãos de controle e pelo Poder Legislativo.
A reeleição oferece estabilidade política para planejar. Mas o tempo de mandato, sozinho, não cria recursos.
Relação com a Câmara Legislativa e o governo federal também será importante
A capacidade de Celina para executar seu programa dependerá da articulação com instituições que não estão subordinadas diretamente à governadora.
A Câmara Legislativa do Distrito Federal participa da aprovação de leis, da fiscalização e das decisões orçamentárias. Medidas que envolvam recursos públicos, reorganização administrativa ou determinadas operações financeiras poderão exigir debates e autorizações legislativas.
A relação com o governo federal também continuará relevante, especialmente em temas que envolvem financiamento, serviços públicos e a própria discussão sobre o BRB.
Divergências partidárias não eliminam a necessidade de cooperação institucional quando estão em jogo serviços e recursos que afetam a população.
Celina foi eleita por uma coligação ampla, enquanto Leandro Grass representou um campo político de oposição. O resultado das urnas define o comando do Executivo, mas não encerra a fiscalização nem o debate sobre as decisões de governo.
Oposição terá papel na cobrança por resultados
Com 42,82% dos votos válidos, Leandro Grass recebeu o apoio de uma parcela expressiva do eleitorado e deverá continuar sendo uma referência na oposição à gestão.
A democracia depende de uma oposição capaz de fiscalizar, propor alternativas e cobrar explicações. Também exige que o governo reconheça a legitimidade dos cidadãos que fizeram outra escolha.
Esse equilíbrio ganha importância especial diante de uma crise financeira com possíveis consequências sobre o patrimônio público.
Fiscalizar o BRB, acompanhar a execução de obras e cobrar indicadores de saúde e educação são tarefas que ultrapassam a disputa eleitoral. Elas fazem parte do funcionamento regular das instituições.
O que a vitória de Celina Leão realmente representa para Brasília
Celina conquistou um mandato com legitimidade eleitoral própria, mas governará uma administração que carrega tanto projetos em andamento quanto problemas ainda sem solução.
A condição de primeira mulher eleita governadora pelo voto direto tem valor histórico. Sua trajetória também demonstra capacidade de articulação e permanência na política distrital.
Mas o acontecimento que poderá marcar os próximos anos está menos na solenidade da vitória e mais na maneira como a governadora enfrentará as decisões difíceis.
A continuidade oferece condições para concluir obras, aperfeiçoar programas e preservar iniciativas que produzem benefícios. Ao mesmo tempo, exige reconhecer situações em que continuar fazendo o mesmo não será suficiente.
O verdadeiro teste do novo mandato estará nas decisões, não nas promessas
A crise do BRB pode se tornar o ponto de inflexão da administração porque obriga o governo a conciliar proteção do patrimônio público, regras do sistema financeiro e responsabilidade fiscal.
Uma solução duradoura precisará mostrar o tamanho real do problema, identificar as fontes de recursos, esclarecer os riscos assumidos e demonstrar que o banco terá condições de funcionar com controles adequados.
Esse processo também deverá conviver com as necessidades de milhões de moradores que dependem diariamente da estrutura pública distrital.
Não basta salvar uma instituição no papel se a solução comprometer, de forma desproporcional, a capacidade de prestação de serviços. Da mesma maneira, permitir o agravamento de uma crise bancária pública sem avaliar suas consequências também seria uma decisão de grande impacto.
O mandato será medido pela qualidade dessas escolhas e pela disposição de prestar contas de cada uma delas.
Celina Leão recebeu 987.142 votos e entrou para a história política do Distrito Federal. Agora, sua principal missão será transformar essa vitória em estabilidade administrativa, melhorias concretas e confiança pública.
A eleição decidiu quem governará Brasília. A recuperação do BRB, a qualidade dos serviços e o equilíbrio das contas ajudarão a definir como esse governo será lembrado.
Fontes e Documentos:
- Celina Leão é reeleita governadora do Distrito Federal (Tribunal Superior Eleitoral)
- Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT) disputam o 2º turno no Distrito Federal (Tribunal Superior Eleitoral)
- Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Master (Banco Central do Brasil)
- NOTA À IMPRENSA – ACORDO/STF (Banco de Brasília)

