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GDF amplia compras da agricultura familiar nas escolas

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Fabíola Fonseca

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Merenda escolar e programas sociais ampliam mercado para quase 10 mil produtores no DF

O Distrito Federal movimentou R$ 183,9 milhões na compra de alimentos da agricultura familiar entre 2019 e 2025, com participação de quase 10 mil produtores. Na prática, o volume mostra que a política de compras públicas deixou de ser apenas uma obrigação administrativa e passou a funcionar como instrumento de abastecimento da rede pública e de sustentação da renda no campo.

Pnae concentrou a maior parte dos recursos

A maior fatia desse movimento veio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, que somou R$ 125 milhões no período. O crescimento ganhou força a partir de 2022 e foi puxado pela combinação entre o repasse federal e a complementação local. Em 2025, por exemplo, o repasse da União ficou em R$ 32,4 milhões, enquanto o investimento distrital chegou a R$ 189,1 milhões. Em 2024, a diferença também foi expressiva: R$ 62,7 milhões de origem federal e R$ 112,4 milhões colocados pelo próprio GDF. Esse desenho amplia a capacidade de compra e reforça o peso da alimentação escolar dentro do orçamento distrital.

Pelo marco legal do Pnae, ao menos 30% dos recursos repassados pelo FNDE devem ser destinados à compra de alimentos da agricultura familiar. No DF, porém, o volume de recursos locais empurra essa engrenagem para além do piso mínimo nacional. Em português claro, Brasília não ficou só no “mínimo obrigatório” e abriu uma avenida orçamentária para fornecedores locais.

Papa-DF e PAA ampliam a base de comercialização

Além do Pnae, outras frentes ajudaram a sustentar esse mercado. O Papa-DF movimentou R$ 44 milhões, adquiriu mais de 9,6 milhões de quilos de alimentos e envolveu mais de 3,3 mil agricultores. Já o PAA/TA somou R$ 14,8 milhões e alcançou 2,2 mil produtores, com destaque para os alimentos orgânicos, responsáveis por cerca de 39,4% do valor contratado.

Há também uma diferença importante no formato das compras. No Papa-DF e no Pnae, a comercialização ocorre sobretudo por meio de associações e cooperativas, o que fortalece a organização coletiva e dá escala para atender à demanda pública. No PAA/TA, por outro lado, a compra é feita diretamente com os produtores, abrindo espaço para agricultores que ainda não estão vinculados a estruturas formais. O efeito prático é duplo: de um lado, consolida cooperativas; de outro, evita que pequenos produtores fiquem do lado de fora.

O que muda dentro e fora da porteira

Segundo a estrutura apresentada pelo governo distrital, a política é articulada pela Seagri-DF, com participação da Secretaria de Educação na alimentação escolar e da Secretaria de Desenvolvimento Social nas ações de segurança alimentar. Outros equipamentos públicos também podem receber esses alimentos, como o Zoológico de Brasília. O secretário de Agricultura, Rafael Bueno, afirmou que os programas ajudam a dar previsibilidade de renda, reduzir a dependência das oscilações de mercado e permitir planejamento produtivo.

Na ponta, essa lógica aparece na rotina dos produtores. Em Planaltina, o agricultor Ivan Engler relatou que o fornecimento para a merenda escolar trouxe estabilidade financeira e reduziu a dependência de intermediários. Hoje, ele entrega cerca de 10 toneladas de hortifrutis, além de itens como feijão, milho e flocão. O caso ilustra como a compra pública pode funcionar como renda garantida recorrente, desde que haja capacidade de produção e organização para atender aos contratos.

Quando a compra pública vira política de desenvolvimento rural

O dado mais relevante não está apenas no valor contratado, mas no tipo de mercado que está sendo consolidado. Ao incluir, além de hortifrutis, itens de maior valor agregado como lácteos, mel e pescado, o poder público passa a induzir novas cadeias produtivas. A previsão de compra mensal de filé de tilápia a partir de 2026 aponta justamente para esse movimento. Não se trata apenas de comprar alimento; trata-se de empurrar a agricultura familiar para um estágio mais sofisticado de produção e fornecimento.

Com isso, o DF combina duas agendas que nem sempre caminham juntas no papel: segurança alimentar e desenvolvimento rural local. Quando a produção é colhida perto, distribuída rápido e consumida nas escolas e programas sociais, há menos perda logística, mais frescor e mais circulação de renda dentro do próprio território. Em tempos de cadeias longas, atravessadores e custos imprevisíveis, encurtar a distância entre o campo e o prato não é detalhe. É política pública com efeito concreto.

Fontes e documentos:

Agricultura familiar ganha espaço na rede pública de ensino e movimenta quase R$ 184 milhões no DF (Agência Brasília)
Sobre o PNAE Programa Nacional de Alimentação Escolar (FNDE)
Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009 (Planalto)

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