Atlântico Sertão abre no CCBB com leitura ampliada sobre memória, resistência e direitos humanos
A exposição Atlântico Sertão abre ao público nesta quarta-feira, 15 de abril de 2026, no CCBB São Paulo, propondo uma releitura do sertão menos como recorte geográfico fixo e mais como território simbólico de resistência, memória e defesa de direitos humanos. A mostra reúne mais de 70 artistas de diferentes regiões do país e ocupa todos os andares do prédio histórico com pinturas, esculturas, fotografias e instalações. A visitação é gratuita e segue até 3 de agosto, de quarta a segunda, das 9h às 20h, com fechamento às terças-feiras.
A proposta curatorial parte da ideia de que o termo sertão não é uma categoria técnica reconhecida nos mapas oficiais do IBGE, que operam com recortes como Caatinga e Semiárido brasileiro. Nesse sentido, a exposição desloca o olhar tradicional sobre a palavra e a trata como construção afetiva, histórica e política, inspirada também na formulação de Guimarães Rosa de que “o sertão está em toda parte”.
O sertão deixa de ser paisagem fixa e vira condição humana
Segundo a apresentação da mostra e os relatos de seus curadores, Atlântico Sertão busca retirar o sertão de uma imagem estreita, associada apenas à seca, à terra rachada e à escassez. A exposição o reposiciona como espaço de circulação de saberes, permanência cultural e enfrentamento de opressões históricas. A concepção do projeto está ligada às pesquisas acadêmicas de Marina Maciel e ao trabalho do Coletivo Atlântico, que se define como movimento social, artístico, jurídico, político e filosófico voltado à defesa dos direitos humanos por meio da arte.
Esse percurso não começou agora. Antes da etapa paulista, o coletivo realizou Atlântico Vermelho, exibida em Genebra em 2024, e Atlântico Floresta, apresentada durante as reuniões do G20 no Rio de Janeiro. A nova mostra amplia esse itinerário e passa a olhar para o sertão como lugar de vozes historicamente marginalizadas, mas ainda ativas na produção de memória, linguagem e sobrevivência cultural.
Mostra ocupa o centro de São Paulo com seis eixos temáticos
A exposição foi estruturada em seis eixos e organiza a visita por salas de cores e atmosferas distintas. O percurso começa por um ambiente ligado ao verde das veredas e da resistência da vida, avança por um núcleo azul associado ao céu, à liberdade e às cosmologias, e segue por salas em tons de laranja, vermelho e amarelo que remetem ao fogo das lutas e às tonalidades do fim do dia no sertão. Ao longo desse trajeto, a mostra articula temas como heranças indígenas, africanas e populares, espiritualidade, modos de vida, memória, ancestralidade e conexões entre Brasil e África.
No térreo, o público encontra ainda uma instalação inédita da artista multimídia biarritzzz, criada especialmente para o espaço do CCBB. A obra usa múltiplas telas digitais em estrutura triangular, numa referência simultânea ao triângulo do forró e a sonoridades ligadas ao deserto africano, reforçando a costura entre território, música, travessia e imaginação política.
Quando o sertão escapa do estereótipo e devolve complexidade ao país
O ponto mais forte de Atlântico Sertão está na tentativa de desmontar uma simplificação antiga da cultura brasileira. Durante décadas, o sertão foi muitas vezes apresentado como sinônimo de carência, atraso ou massa indistinta de povo. A exposição tenta operar no sentido contrário: devolver singularidade, linguagem própria e densidade histórica a esse universo. Não se trata de negar a dureza material que marcou muitas regiões sertanejas, mas de recusar que ela esgote o significado do termo.
Esse deslocamento importa porque o Brasil costuma tratar certos territórios pela imagem que mais conforta o centro. Quando a arte interrompe esse hábito, ela não apenas reinterpreta uma palavra; ela reorganiza a forma como o país enxerga seus próprios margens. Em Atlântico Sertão, o sertão deixa de ser cenário passivo e passa a falar em primeira pessoa. E isso, no campo cultural, raramente é detalhe.
Fontes e documentos:
– Atlântico Sertão (CCBB São Paulo)
– Exposição em SP propõe releitura do sertão como espaço de resistência (Agência Brasil)
– Semiárido Brasileiro (IBGE)
– Biomas brasileiros – Caatinga (IBGE Educa)

