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Brasil padroniza combate à violência sexual infantil

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Nova política define rede nacional de proteção a crianças

O Brasil passou a contar, nesta terça-feira (19), com uma política nacional padronizada para enfrentar o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. A medida cria diretrizes comuns para União, estados, Distrito Federal e municípios, com foco em prevenção, atendimento especializado, proteção das vítimas e responsabilização dos autores de violência.

A Portaria nº 836, publicada no Diário Oficial da União, regulamenta dispositivos da Lei nº 14.811/2024 e coloca em vigor a Política Nacional de Prevenção e Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A coordenação ficará sob responsabilidade do ministério, mas a execução deverá ocorrer de forma descentralizada, em articulação com diferentes áreas do poder público.

Política cria padrão nacional de prevenção

A principal mudança está na tentativa de reduzir a fragmentação das respostas públicas. Até agora, muitas ações dependiam da capacidade local de organização das redes de proteção. Com a nova política, o país passa a ter uma referência comum para orientar prevenção, atendimento, campanhas, capacitação profissional e avaliação de resultados.

A norma adota como base o princípio da proteção integral, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, e reforça a prioridade absoluta de crianças e adolescentes nas ações do poder público. Além disso, reconhece esse público como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento, o que exige cuidado específico, sigilo, acolhimento e proteção contra novas violações.

Entre os princípios definidos estão privacidade, confidencialidade, equidade, não discriminação, acessibilidade, inclusão e responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado. Portanto, a política não trata o problema apenas como caso policial. Ela amplia a resposta para saúde, educação, assistência social, segurança pública e justiça.

Atendimento integrado deve ganhar força

A política prevê o fortalecimento de centros de atendimento integrado, onde serviços de acolhimento, proteção e encaminhamento podem funcionar de forma concentrada. Essa diretriz é relevante porque crianças e adolescentes vítimas de violência não devem ser obrigados a repetir relatos em diferentes órgãos sem necessidade.

A norma também estabelece a não revitimização como diretriz. Na prática, isso significa que o atendimento deve evitar procedimentos que exponham novamente a vítima, agravem o sofrimento ou transformem a busca por ajuda em mais uma etapa de violência institucional.

Além disso, a política incentiva campanhas permanentes de conscientização, formação continuada de profissionais e produção de estudos. Esse ponto é decisivo: política pública sem dado vira boa intenção com crachá. Para funcionar, será preciso medir metas, prazos, atendimento, gargalos e resultados.

Plano decenal vai definir metas e indicadores

A governança ficará a cargo da Comissão Intersetorial de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. Já o Plano Nacional Decenal será o instrumento responsável por detalhar metas, prazos, prioridades e indicadores das ações.

Esse desenho é importante porque o enfrentamento à violência sexual exige continuidade. Campanhas pontuais ajudam, mas não substituem rede permanente, orçamento, capacitação, fluxo de atendimento e responsabilização. O problema não cabe em uma data simbólica, embora o calendário ajude a manter o tema sob vigilância pública.

A agenda nacional ocorre no mesmo período da campanha Faça Bonito e do III Congresso Brasileiro de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, realizado em Brasília entre 18 e 21 de maio. O evento reúne poder público, sistema de justiça, movimentos sociais e sociedade civil para discutir prevenção, proteção integral e revisão do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.

O avanço real dependerá da ponta

A nova política acerta ao padronizar diretrizes e reconhecer que a violência sexual contra crianças e adolescentes exige resposta intersetorial. No entanto, o teste verdadeiro não estará no texto da portaria. Estará na escola que identifica sinais de risco, no posto de saúde que acolhe sem julgamento, no conselho tutelar com estrutura, na delegacia preparada e no serviço social que consegue acompanhar a família.

A portaria organiza o mapa. Agora, o país precisa garantir o caminho. Sem orçamento, profissionais treinados e fluxo de atendimento funcionando, até a melhor política pública corre o risco de virar peça bonita em gaveta oficial.

Fontes e documentos:

Mães cientistas perdem espaço na carreira acadêmica (Fonte em Foco)
SUS amplia tratamento contra câncer com R$ 2,2 bi (Fonte em Foco)
Crimes de Maio chegam a 20 anos sem justiça às famílias (Fonte em Foco)
Câmara aprova penas mais duras para crimes sexuais (Fonte em Foco)
– Governo cria política de combate ao abuso de crianças e adolescentes (Agência Brasil)
– Brasília recebe mobilização nacional pelo enfrentamento ao abuso e à violência sexual contra crianças e adolescentes (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania)

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