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Mães cientistas perdem espaço na carreira acadêmica

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Maternidade ainda pesa na permanência de mulheres na ciência

O Brasil forma mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, mas as mulheres continuam sub-representadas nos postos mais altos da carreira científica. O problema se agrava quando a pesquisadora se torna mãe. Dados levantados por movimentos acadêmicos e novas políticas públicas mostram que a maternidade ainda reduz oportunidades, dificulta acesso a bolsas, afeta a produtividade formal e aumenta o risco de descredenciamento na pós-graduação.

Mães cientistas enfrentam queda ao avançar na carreira

O chamado efeito tesoura descreve a redução progressiva da presença feminina conforme a carreira acadêmica avança. As mulheres entram, concluem graduação, fazem mestrado e doutorado, mas perdem espaço nas etapas de maior prestígio, financiamento e poder institucional.

A distorção fica ainda mais visível nas bolsas de produtividade, destinadas a pesquisadores com maior destaque na carreira. Embora as mulheres formem a maioria entre tituladas em doutorado há anos, elas recebem apenas uma parte minoritária desses auxílios, que funcionam como selo de reconhecimento acadêmico e porta de entrada para novos projetos.

Para a pesquisadora Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fundadora do movimento Parent in Science, o problema não está na capacidade científica das mães, mas no modo como a carreira mede produtividade sem considerar o trabalho de cuidado. Quando uma pesquisadora reduz publicações por causa da maternidade, perde competitividade em editais, orientações, bolsas e financiamento. Depois, essa perda inicial retroalimenta novas perdas.

Essa é a engrenagem cruel do sistema. A maternidade provoca uma pausa. A avaliação acadêmica trata a pausa como falha. E a falha, uma vez registrada no currículo, vira obstáculo permanente. É assim que uma carreira promissora pode ser cortada sem que ninguém precise dizer, em voz alta, que está cortando.

Descredenciamento atinge mães com mais força

Levantamento recente do Parent in Science analisou a entrada e a permanência de docentes em programas de pós-graduação. Para atuar nesses cursos, professores precisam passar por processos de credenciamento e recredenciamento, nos quais produtividade acadêmica, publicações, orientações e participação em eventos costumam pesar de forma decisiva.

Os dados apontam diferença significativa entre pais e mães. Entre os homens com filhos, 43,7% deixaram o programa por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Entre as mães, a lógica se inverteu: apenas 24,6% saíram por decisão própria, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não atingir a produção mínima exigida.

A reinserção também é mais difícil para elas. Entre docentes que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, contra 25% dos pais. Já entre aqueles que deixaram o programa por iniciativa própria, 25% das mães não voltaram, enquanto o mesmo ocorreu com 7,1% dos pais.

Esses números mostram que o cuidado ainda é distribuído de forma desigual. A carreira acadêmica cobra disponibilidade contínua, mas a maternidade impõe uma jornada paralela, muitas vezes invisível. O currículo Lattes registra artigo, congresso e orientação. Não registra noite sem dormir, consulta pediátrica, falta de rede de apoio ou filho doente na semana de submissão do edital.

Permanência começa antes da pós-graduação

As barreiras não aparecem apenas no topo da carreira. Elas começam ainda na graduação, especialmente para estudantes mães de baixa renda, moradoras de periferias ou sem rede de apoio. A rotina combina trabalho remunerado, deslocamentos longos, cuidado com filhos, atividades acadêmicas, estágio e exigências de permanência que raramente foram pensadas para quem materna.

O Atlas da Permanência Materna, elaborado pelo Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade, mapeou políticas oferecidas por universidades federais. A principal medida encontrada é o auxílio financeiro, presente em 63 das 69 instituições analisadas, com valor médio próximo de R$ 370 por mês. No entanto, a oferta cai drasticamente na pós-graduação, e apenas 13 instituições estendem o benefício a alunas de mestrado e doutorado.

Outro dado expõe a dimensão da lacuna: somente oito universidades federais têm cuidotecas, espaços destinados a acolher crianças enquanto mães estudam. Em março de 2026, o Ministério da Educação lançou edital de R$ 20 milhões para implantação de novas cuidotecas, uma tentativa de reduzir o gargalo logístico que empurra muitas estudantes para a evasão.

A permanência materna não se resolve apenas com discurso de incentivo. Precisa de dinheiro, espaço físico, acolhimento institucional e regra acadêmica compatível com a vida real. Sem isso, a universidade segue aberta no papel e estreita na prática.

Novas leis e bolsas tentam corrigir desigualdades

Nos últimos anos, o país começou a adotar medidas para reduzir o prejuízo imposto pela maternidade na trajetória acadêmica. Em julho de 2024, foi sancionada lei que prorroga prazos de conclusão de cursos e programas para estudantes e pesquisadores em casos de parto, nascimento de filho, adoção, guarda judicial e gravidez de risco. A norma também prevê extensão do prazo de bolsas nessas situações.

Em abril de 2025, outra lei passou a proibir discriminação contra estudantes e pesquisadoras em processos de seleção ou renovação de bolsas por motivo de gravidez, maternidade, adoção ou guarda judicial. A legislação também determina ampliação do período de avaliação de produtividade em casos de licença-maternidade.

A Capes também lançou o Programa Aurora, com até 300 bolsas de pós-doutorado para apoiar professoras de pós-graduação gestantes ou mães. As bolsas têm valor mensal de R$ 5,2 mil, duração de 24 meses e devem permitir que as docentes agreguem pesquisadoras ou pesquisadores de pós-doutorado às equipes, ajudando a manter pesquisas, orientações e produção acadêmica durante a maternidade.

A Capes ainda regulamentou, em maio de 2026, prazos de prorrogação de bolsas para estudantes de pós-graduação em razão de parto, nascimento de filho, adoção ou guarda judicial. A medida busca proteger bolsistas em situações de parentalidade e reduzir a interrupção de trajetórias acadêmicas.

Ciência perde quando expulsa quem cuida

O debate sobre mães cientistas costuma ser tratado como pauta de justiça individual. É isso, mas não é só isso. Quando a carreira acadêmica afasta mulheres por causa da maternidade, o país perde perguntas, métodos, experiências e olhares que poderiam qualificar a produção científica.

O problema se aprofunda quando gênero se cruza com raça, renda, território e deficiência. Mulheres pretas, pardas, indígenas, mães de filhos com deficiência e estudantes sem rede de apoio enfrentam barreiras adicionais. A ideia abstrata de mérito se torna frágil quando ignora que nem todos largam do mesmo ponto, nem correm com o mesmo peso nas costas.

Medidas compensatórias, como bolsas específicas, extensão de prazos e avaliação ampliada de produtividade, não são privilégio. São correção de percurso. A régua acadêmica sempre mediu produção. Agora começa, ainda tarde, a medir também as condições desiguais que tornam essa produção possível.

A ciência brasileira será mais forte se conseguir manter essas mulheres dentro dela. Porque uma carreira interrompida pela maternidade não é apenas uma perda pessoal. É uma hipótese que não será testada, uma orientação que não acontecerá, uma política pública que talvez nunca seja formulada e uma geração de pesquisadoras que aprenderá, cedo demais, que talento não basta quando o sistema confunde cuidado com falta de ambição.

Fontes e documentos:

– Centros ajudam mulheres a romper ciclos no DF (Fonte em Foco)
Pandemia reduziu expectativa de vida no Brasil (Fonte em Foco)
Ypê orienta troca após suspensão de lotes pela Anvisa (Fonte em Foco)
Lei reforça folga para exame preventivo sem desconto (Fonte em Foco)
– Parent in Science (Parent in Science)
– CAPES lança edital do Programa Aurora com 300 bolsas de pós-doutorado para apoiar mães pesquisadoras (CAPES)
– Edital nº 16 de 2026 Programa Aurora (CAPES)

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