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Exposição no Rio debate mineração de lítio

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Fotografias revelam impactos ambientais e sociais da exploração mineral no Vale do Jequitinhonha

A exposição “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” está aberta ao público no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Catete, zona sul do Rio de Janeiro.

A mostra reúne 40 fotografias da fotógrafa e documentarista mineira Isis Medeiros, além de instalações e obras produzidas por ceramistas do Vale do Jequitinhonha.

O conjunto apresenta os efeitos humanos, ambientais e afetivos da mineração de lítio no nordeste de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, questiona as contradições entre a transição energética e os impactos provocados pela extração intensiva de minerais.

A visitação gratuita ocorre na Galeria Mestre Vitalino até 1º de novembro de 2026. O espaço funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Aos sábados, domingos e feriados, abre das 11h às 17h.

Imagens mostram mineração próxima às comunidades

Primeira exposição individual de Isis Medeiros no Rio de Janeiro, o projeto resulta de uma pesquisa documental desenvolvida ao longo de vários anos.

O trabalho combina fotografia, audiovisual, pesquisa de campo e escuta de moradores das áreas atingidas pela expansão da mineração.

Nas imagens, máquinas, áreas escavadas, rejeitos e poeira dividem o espaço com casas, plantações e comunidades tradicionais.

A proximidade entre a atividade mineral e a vida cotidiana expõe conflitos relacionados ao uso da terra, à disponibilidade de água e à permanência das famílias nos territórios.

A curadora Carol Lopes afirma que o trabalho foi construído a partir da convivência da fotógrafa com moradores de diferentes gerações.

Segundo ela, a paisagem registrada revela mudanças que se tornam visíveis tanto durante o dia quanto à noite.

Enquanto as crateras e os rejeitos marcam o território durante o dia, a iluminação e o ruído das máquinas anunciam a atividade contínua das mineradoras no período noturno.

Lítio alimenta tecnologias da transição energética

O lítio é utilizado na fabricação de baterias para veículos elétricos, celulares e sistemas de armazenamento de energia.

Por essa razão, o mineral ocupa posição estratégica na expansão das tecnologias destinadas à redução do uso de combustíveis fósseis.

O Vale do Jequitinhonha concentra grande parte das reservas brasileiras conhecidas e tornou-se um dos principais polos de produção e pesquisa mineral do país.

No entanto, o avanço dessa atividade também ampliou o debate sobre distribuição de renda, recursos hídricos, licenciamento ambiental e direitos das comunidades atingidas.

A exposição questiona se a promessa de uma economia menos dependente de carbono pode repetir práticas históricas de exploração territorial.

“Parece que tudo é novo, mas vemos a mesma prática de exploração e o mesmo uso desenfreado dos recursos”, afirma Isis Medeiros.

Para a fotógrafa, o título “do ouro ao pó” cria uma ligação entre a mineração iniciada no período colonial e a atual corrida pelos minerais considerados estratégicos.

Transição energética também produz conflitos

A proposta da mostra não rejeita a necessidade de transformação da matriz energética. Em vez disso, chama atenção para os custos sociais e ambientais dessa mudança.

Baterias e veículos elétricos podem contribuir para reduzir determinadas emissões. Contudo, sua produção depende da extração de recursos naturais em territórios habitados.

Assim, a transição energética não elimina automaticamente os conflitos associados à mineração.

O debate envolve a forma como os projetos são licenciados, a fiscalização das atividades e a participação das comunidades nas decisões.

Também inclui o destino dos benefícios econômicos gerados pela exploração mineral e a responsabilidade pela recuperação das áreas afetadas.

Audiências realizadas pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais já registraram questionamentos de comunidades tradicionais sobre os impactos da extração de lítio no Vale do Jequitinhonha.

Arte aproxima público das comunidades atingidas

A programação da exposição inclui encontros com pesquisadores, artistas e representantes das comunidades.

Uma das participantes é Helena Taliberti, fundadora do Instituto Camila e Luiz Taliberti.

Helena perdeu os filhos Camila e Luiz no rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, ocorrido em Brumadinho, em janeiro de 2019.

A tragédia provocou 272 mortes, além de danos sociais e ambientais na bacia do Rio Paraopeba.

Para Helena, a linguagem artística permite aproximar o público de acontecimentos que podem parecer distantes da realidade das grandes cidades.

“As pessoas precisam saber o que aconteceu e o que está acontecendo lá”, afirma.

A exposição busca justamente reduzir essa distância. Em vez de apresentar o lítio apenas como insumo tecnológico, mostra os territórios e as pessoas que convivem com sua extração.

Projeto recebeu apoio do Prêmio Marc Ferrez

“Zona de Sacrifício: do ouro ao pó” foi contemplada na 17ª edição do Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.

A montagem no Rio integra um projeto itinerante e resulta de cooperação cultural entre a Funarte e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Iphan.

A exposição ocupa a Galeria Mestre Vitalino, localizada na Rua do Catete, 179.

Ao reunir fotografia documental, cerâmica e instalações, a mostra transforma o debate técnico sobre mineração em uma experiência sensível.

A pergunta central permanece aberta. A transição energética poderá ser considerada sustentável quando seus benefícios não forem construídos à custa dos territórios que fornecem os minerais necessários.

Serviço

Exposição: Zona de Sacrifício: do ouro ao pó

Local: Galeria Mestre Vitalino do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular

Endereço: Rua do Catete, 179, Catete, Rio de Janeiro

Visitação: até 1º de novembro de 2026

Horários: terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h

Entrada: gratuita

Relacionadas, fontes e documentos:

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Rio recebe exposição sobre corrida mineral no Vale do Jequitinhonha (Agência Brasil)

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