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Culturas tradicionais ganham política nacional

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Reportagem:
Paulo Andrade

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Mestres, comunidades e festas populares terão rede federal de proteção

Manifestações culturais transmitidas pela oralidade, pela vivência comunitária e pela tradição passam a contar com uma política nacional própria no Brasil. O Decreto nº 12.981/2026, publicado nesta sexta-feira, 22 de maio, institui a Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares, voltada à preservação, valorização e proteção de mestres, mestras, grupos, comunidades e povos que mantêm esses saberes vivos.

Culturas tradicionais entram na agenda de Estado

A nova política define culturas tradicionais e populares como criações culturais transmitidas predominantemente pela oralidade e baseadas na tradição. Elas expressam identidades socioculturais por meio de valores, práticas, conhecimentos e tecnologias herdadas entre gerações.

O decreto reconhece como beneficiários mestras e mestres das culturas tradicionais e populares, além de grupos, coletivos, comunidades e povos que mantêm essas práticas. A medida busca transformar reconhecimento simbólico em diretriz pública, com articulação entre União, estados, Distrito Federal, municípios, agentes culturais e sociedade civil.

Na prática, o governo tenta dar estrutura institucional a expressões que, por muito tempo, sobreviveram mais pela resistência das comunidades do que pela presença organizada do Estado. Cultura popular não nasce em gabinete. Mas, quando o gabinete finalmente olha para ela com seriedade, pode ajudar a impedir que tradição vire lembrança de museu.

Política prevê memória, fomento e acesso

Entre os princípios da política estão o reconhecimento sociocultural dos mestres e mestras, a garantia dos direitos culturais, a participação social, o respeito à diversidade, a preservação da memória e a proteção dos conhecimentos tradicionais e da territorialidade.

As diretrizes incluem ampliação do acesso a bens e equipamentos culturais, participação das comunidades na gestão das políticas públicas, promoção da equidade étnico-racial, de gênero e socioeconômica, combate a discriminações e simplificação do acesso a mecanismos de fomento cultural.

O decreto também prevê incentivo à economia criativa, difusão das manifestações tradicionais no Brasil e no exterior, valorização do trabalho de mestres e grupos culturais e produção de dados para aprimorar políticas públicas.

Esse último ponto é menos vistoso, mas decisivo. Sem dados, o poder público tende a repetir uma velha coreografia: aplaude o mestre no palco e esquece a comunidade na planilha.

Regulamentação deve sair em até 30 dias

A implementação detalhada da política ficará a cargo do Ministério da Cultura, que deverá editar ato próprio em até 30 dias a partir da publicação do decreto. O ministério também coordenará a política nacional e deverá instituir um comitê gestor para assessorar, articular, monitorar e deliberar sobre sua execução.

Estados, Distrito Federal e municípios poderão aderir à política conforme regras que ainda serão definidas. Esse desenho é relevante porque muitas manifestações tradicionais dependem de políticas locais para existir com dignidade, seja no apoio a festas, espaços de ensaio, transmissão de saberes, circulação de grupos ou preservação de territórios culturais.

O financiamento poderá envolver recursos federais, estaduais, distritais e municipais, além de mecanismos como a Lei Rouanet, a Política Nacional Aldir Blanc, recursos privados sem incentivo fiscal, doações e fontes nacionais ou internacionais. A aplicação dependerá das dotações e disponibilidades orçamentárias de cada ente.

Rede de mestras e mestres reforça transmissão dos saberes

Para mapear e valorizar saberes tradicionais, o Ministério da Cultura também criou o Programa Rede Nacional de Mestras e Mestres das Culturas Tradicionais e Populares. A iniciativa é voltada a pessoas reconhecidas por suas comunidades como detentoras de conhecimentos transmitidos principalmente pela oralidade, pela vivência e pelas práticas culturais.

A valorização desses mestres tem avançado em outras frentes. Em março, mestras e mestres das culturas tradicionais e populares foram reconhecidos na Classificação Brasileira de Ocupações, medida apresentada pelo Ministério da Cultura como forma de dar visibilidade profissional e fortalecer direitos desses agentes culturais.

Esse reconhecimento importa porque muitos desses saberes não cabem no currículo formal, mas sustentam identidades, festas, ofícios, músicas, danças, rezas, culinárias, brincadeiras, técnicas e modos de organização comunitária. O Brasil real aprendeu muita coisa sem quadro branco, mas nem por isso aprendeu menos.

Festas populares também recebem programa específico

A Portaria nº 281, publicada no Diário Oficial da União, reconhece festas tradicionais em municípios, estados e no Distrito Federal como instrumentos de promoção da cultura de base comunitária e da economia cultural.

O programa voltado aos festejos populares prevê princípios como valorização da diversidade cultural, respeito às tradições regionais, participação ativa das comunidades na organização das festas e promoção da sustentabilidade, com incentivo à economia local e à produção cultural comunitária.

A portaria também aponta para o enfrentamento de desigualdades sociais e para o estímulo à inovação sem descaracterizar as tradições. Essa é uma fronteira sensível. Inovar pode fortalecer uma festa. Descaracterizar pode transformá-la em produto genérico, daqueles que parecem feitos para selfie e não para memória.

Reconhecimento precisa chegar ao território

A criação da política nacional representa avanço institucional. Ainda assim, a efetividade dependerá da regulamentação, do orçamento, da adesão dos entes federativos e da escuta real das comunidades.

Culturas tradicionais não precisam apenas de homenagem. Precisam de condições para transmissão de saberes, circulação, proteção de territórios, remuneração justa, acesso a editais, reconhecimento de mestres e respeito à autoria coletiva de conhecimentos.

O decreto abre uma porta importante. Mas a travessia será medida nos territórios, nas rodas, nos terreiros, nos cortejos, nas festas, nos quilombos, nas aldeias, nos bairros, nos grupos e nas comunidades que mantêm viva uma parte essencial da identidade brasileira. Política cultural séria começa quando o Estado entende que tradição não é passado imóvel. É futuro transmitido de mão em mão.

Relacionadas, fontes e documentos:

– Circo ganha reconhecimento legal como arte popular (Fonte em Foco)
– Fim de semana no DF tem cinema, teatro e shows (Fonte em Foco)
– DER abre inscrição para passeio ciclístico (Fonte em Foco)
– Filme sobre violência contra mulher chega a Cannes (Fonte em Foco)
– Decreto nº 12.981, de 21 de maio de 2026 (Diário Oficial da União)
– Governo cria política e programas para promover culturas tradicionais (Agência Brasil)
– Mestras e mestres das culturas tradicionais e populares são reconhecidos na CBO (Ministério da Cultura)

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