Formação de professores a distância tem desempenho insuficiente em mais da metade dos concluintes
Mais da metade dos concluintes de licenciaturas EAD avaliados no Enade das Licenciaturas de 2025 teve desempenho insuficiente. O dado divulgado pelo Ministério da Educação acende um alerta direto sobre a formação inicial de professores no país, justamente em cursos que preparam profissionais para atuar na educação básica.
Licenciaturas EAD concentram baixo desempenho
O levantamento mostra que 53,1% dos concluintes de cursos de licenciatura a distância tiveram desempenho insuficiente no Enade das Licenciaturas de 2025. Entre todos os formandos avaliados, 60% estavam em cursos EAD e 40% em cursos presenciais.
A diferença entre as modalidades foi expressiva. Nos cursos presenciais, 73,9% dos concluintes foram considerados proficientes, ou seja, atingiram o nível esperado de conhecimento e habilidade na área de formação.
O dado não autoriza uma leitura simplista contra toda educação mediada por tecnologia. Porém, aponta um problema incontornável: quando a formação de professores falha, o impacto não fica restrito ao diploma. Ele chega à sala de aula, ao aluno da educação básica e ao futuro da aprendizagem no país.
Cursos com notas baixas serão monitorados
Entre os 4.547 cursos de formação de professores efetivamente avaliados, 1.730 receberam conceitos 1 e 2, faixas consideradas insatisfatórias. Na prática, isso corresponde a cursos em que menos de 60% dos estudantes alcançaram proficiência.
Quando o recorte considera a modalidade, 682 cursos EAD ficaram nas faixas mais baixas do conceito Enade. Isso representa 60,51% dos cursos de formação de professores a distância avaliados.
O Ministério da Educação informou que cursos com conceitos 1 e 2 terão acompanhamento sistemático durante o período de transição previsto nas novas regras da educação a distância. A medida inclui monitoramento dos indicadores de qualidade e suspensão da renovação automática de reconhecimento de cursos.
MEC endurece regra para formação docente
Pela nova política de educação a distância, os cursos de licenciatura deverão ser ofertados apenas nos formatos presencial ou semipresencial. A oferta totalmente a distância será vedada, e os cursos já existentes entram em processo de extinção até maio de 2027.
O Decreto nº 12.456/2025 reorganizou as regras para a oferta de graduação a distância no ensino superior. Já a Portaria MEC nº 381/2025 estabeleceu regras de transição, inclusive para cursos que passaram a ser vedados no formato EAD.
A regra também prevê que estudantes já matriculados tenham direito à conclusão no formato previsto no ato de matrícula, dentro das condições de transição. Portanto, a mudança não significa interrupção imediata para quem já estava no curso. O foco regulatório recai sobre novas matrículas, adequação institucional e reorganização dos formatos de oferta.
Instituições públicas lideram proficiência
O balanço também mostra diferença relevante entre categorias administrativas. Foram considerados proficientes 75,9% dos concluintes de instituições públicas federais, 73,3% dos concluintes de públicas estaduais, 70,8% dos estudantes de instituições comunitárias e 46,5% dos concluintes de instituições privadas.
Esses números ajudam a deslocar o debate do rótulo para a estrutura. A pergunta central não é apenas se o curso é presencial, semipresencial ou a distância. É se ele oferece formação sólida, prática supervisionada, acompanhamento docente, avaliação exigente e vínculo real com a escola.
Professor não se forma por download. Pode até usar tecnologia, plataforma e ambiente virtual. Mas formação docente exige presença pedagógica, prática, mediação qualificada e contato com a complexidade concreta da sala de aula.
Avaliação anual muda fiscalização das licenciaturas
O Enade das Licenciaturas passa a ter aplicação anual, o que permite acompanhar a evolução dos cursos e comparar desempenhos ao longo do tempo. Para o MEC, esse formato cria parâmetros mais claros para regulação e supervisão da formação docente.
O Inep disponibilizou os indicadores de qualidade da educação superior de 2025, incluindo o Conceito Enade das Licenciaturas, em arquivos públicos. Esses dados passam a servir como base para análise institucional, fiscalização e decisões regulatórias.
A mudança é relevante porque a formação de professores vinha sendo cobrada há anos sem um mecanismo suficientemente direto para medir proficiência dos concluintes de forma recorrente. Agora, a avaliação anual tende a aumentar a pressão sobre cursos com baixo desempenho.
O problema chega à educação básica
A qualidade da licenciatura não é uma discussão restrita ao ensino superior. Ela define, em grande parte, quem estará diante dos alunos nos primeiros anos da trajetória escolar, nas redes públicas e privadas.
Quando um curso forma professores sem proficiência adequada, a conta pode aparecer depois em alfabetização frágil, dificuldades em matemática, baixo repertório científico, insegurança didática e maior desigualdade entre estudantes. A escola básica recebe o reflexo da formação docente. Às vezes, recebe também a fatura.
O desafio do MEC será combinar regulação firme com transição organizada. Fechar a porta para formatos frágeis é necessário. Mas também será preciso garantir oferta suficiente, qualidade nos cursos semipresenciais e presenciais, avaliação séria in loco e condições para que futuros professores tenham formação compatível com a responsabilidade que assumem.
A tecnologia pode ajudar a educação. O problema começa quando ela vira atalho para formar mal quem terá a missão de ensinar bem.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Bolsas do GDF abrem 62 vagas no ensino superior (Fonte em Foco)
– Violência nas escolas desafia 71,7% dos gestores (Fonte em Foco)
– Revalida 2026 exige 59 pontos na primeira etapa (Fonte em Foco)
– Crianças fora da escola expõem falha na educação (Fonte em Foco)
– Formação de professores a distância mostra desempenho 53,1% inferior (Agência Brasil)
– Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025 (Planalto)
– Portaria MEC nº 381, de 20 de maio de 2025 (Ministério da Educação)
– Indicadores de qualidade da educação superior 2025 (Inep)

