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InícioBrasilCulturaExposição chinesa reúne 10 mil anos de história no Rio

Exposição chinesa reúne 10 mil anos de história no Rio

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Mostra gratuita apresenta 121 objetos e reabre parte do Museu Histórico Nacional

O público poderá conhecer utensílios, recipientes rituais e objetos usados na preparação e no consumo de alimentos ao longo de milhares de anos da história chinesa. A exposição Sabores da Tradição — história da alimentação na China antiga abre neste sábado (27), no Museu Histórico Nacional, no centro do Rio de Janeiro, com entrada gratuita.

A mostra reúne 121 peças procedentes do Museu Nacional da China, em Pequim. O acervo atravessa um período que vai das primeiras sociedades agrícolas até 1911, quando a queda da dinastia Qing encerrou a era imperial chinesa.

Cerâmicas, bronzes, porcelanas, peças de ouro e prata, objetos de jade, madeira, laca e pedras preciosas mostram que comer nunca foi apenas uma necessidade biológica. A alimentação também organizou rituais, hierarquias sociais, relações de poder, práticas religiosas e formas de convivência.

A exposição permanecerá nas galerias temporárias até 11 de outubro. A abertura marca ainda a reabertura parcial do Museu Histórico Nacional ao público.

Objetos revelam transformações na alimentação chinesa

O percurso começa nas origens agrícolas da China, uma das regiões associadas ao desenvolvimento inicial do cultivo do arroz e do milheto.

A domesticação de animais como porcos e galinhas ajudou a formar uma alimentação combinada com grãos, carnes, frutas e vegetais. Cerca de quatro mil anos atrás, o contato com povos da Ásia Ocidental incorporou ao território chinês espécies como carneiro, gado bovino e cavalo, além do cultivo do trigo.

Entre os objetos mais antigos está um artefato de moagem de grãos estimado em aproximadamente 12 mil anos, conforme a consultoria de conteúdo da exposição.

A peça ajuda a mostrar como o processamento dos alimentos acompanhou mudanças na organização das comunidades, na ocupação do território e no desenvolvimento de novas técnicas agrícolas.

Cinco núcleos organizam a visita

A exposição foi dividida em cinco núcleos temáticos, que apresentam diferentes dimensões da cultura alimentar chinesa.

O primeiro, Uma alimentação variada como base da nutrição, aborda a combinação de grãos, animais, frutas e vegetais e a presença histórica da ideia de equilíbrio na alimentação.

O segundo, Alimentos cozidos e bebidas quentes, mostra como o domínio do fogo transformou os alimentos e ganhou significado civilizatório. O visitante encontra referências a técnicas como cozimento a vapor, fervura, salteado, assado, cura e fermentação.

O núcleo também apresenta práticas relacionadas ao vinho aquecido e ao preparo do chá, incluindo métodos anteriores à infusão popularizada posteriormente no Ocidente.

Banquetes também expressavam poder

No núcleo Reverenciar o Céu e cumprir os ritos, os objetos mostram como a alimentação estava ligada à religião, ao governo e à hierarquia social.

Recipientes de bronze usados em banquetes e cerimônias indicavam a posição ocupada por integrantes da nobreza. O formato, a função e até a quantidade de determinados utensílios comunicavam poder antes mesmo que qualquer palavra fosse pronunciada.

Entre os destaques estão vasos rituais das dinastias Shang e Zhou Ocidental e do período conhecido como Primaveras e Outonos. Algumas peças têm mais de três mil anos.

O recipiente chamado ding, por exemplo, passou de utensílio destinado ao preparo e à oferta de alimentos a símbolo de autoridade política e legitimidade real.

Beleza dos utensílios integrava a experiência

O quarto núcleo, Deleitar os olhos, apaziguar o espírito, apresenta a alimentação como experiência também estética.

Pratos, tigelas, jarras e recipientes não eram produzidos apenas para cumprir uma função prática. Formas, materiais, pinturas e acabamentos transformavam utensílios cotidianos em manifestações artísticas.

O conjunto reúne cerâmicas pintadas do período Neolítico, bronzes antigos, porcelanas imperiais, objetos de ouro e prata e peças de jade.

As porcelanas da dinastia Qing incluem tigelas e conjuntos de chá decorados com motivos como pêssegos, morcegos, flores e lótus. Na tradição chinesa, parte desses elementos também carregava significados ligados à prosperidade, à longevidade e à harmonia.

Trocas comerciais modificaram ingredientes e costumes

O último núcleo, Beleza compartilhada em harmonia, trata dos intercâmbios que transformaram a alimentação dentro e fora da China.

Nozes e pimenta-do-reino chegaram por rotas comerciais ligadas à Ásia Central. Batata e pimentão foram incorporados depois do contato com produtos originários das Américas.

Em sentido contrário, arroz, chá, tofu e porcelana chinesa circularam por diferentes continentes e influenciaram hábitos alimentares, práticas comerciais e artes decorativas.

A exposição inclui uma referência direta ao Rio de Janeiro. Uma gravura retrata agricultores chineses trazidos durante o governo de Dom João VI para trabalhar no cultivo de chá no Jardim Botânico.

O episódio aproxima o conteúdo histórico da experiência brasileira e mostra que as relações entre os dois países não começaram no calendário diplomático contemporâneo.

Alimentação também era questão de estabilidade social

O diretor do Museu Histórico Nacional, Cícero de Almeida, destaca que sucessivos governos chineses trataram o abastecimento de alimentos como tema de organização política.

A escassez, as crises agrícolas e as dificuldades de distribuição poderiam provocar instabilidade e revoltas. Garantir alimentos, portanto, não representava apenas uma preocupação doméstica, mas uma condição para sustentar o próprio governo.

A dimensão coletiva também aparecia nos rituais à mesa. A maneira de servir, a posição dos participantes e a escolha dos recipientes comunicavam vínculos familiares, respeito, autoridade e pertencimento.

A exposição procura reconstruir essas relações a partir dos objetos, sem reduzir a alimentação a uma sequência de pratos ou ingredientes.

Mostra integra intercâmbio cultural entre os países

A programação faz parte do Ano Cultural Brasil-China 2026, criado para ampliar o intercâmbio artístico e institucional entre os dois países.

Enquanto o Museu Histórico Nacional recebe o acervo dedicado à alimentação chinesa, o Museu Nacional da China apresenta, em Pequim, a exposição O Brasil de Portinari, com obras do artista brasileiro.

A mostra sobre alimentação já passou pelo Museu de Etnografia de Budapeste, em 2024, e pelos Museus do Kremlin, em Moscou, em 2025. A versão organizada para o Brasil inclui adaptações e conteúdos destinados ao público local.

Ao longo da temporada, o Museu Histórico Nacional também prevê visitas mediadas e atividades educativas para o público geral, escolas e instituições de ensino.

A comida permite ler uma sociedade inteira

A principal força da exposição está em mostrar que os objetos usados à mesa podem documentar muito mais do que hábitos alimentares.

Uma tigela revela técnicas de produção. Um vaso pode indicar posição social. Um recipiente ritual informa como poder político e religião se encontravam. A chegada de um ingrediente registra rotas comerciais, deslocamentos populacionais e contatos entre civilizações.

Esse olhar também evita tratar a China como uma cultura imóvel e isolada. Ao longo de milhares de anos, sua alimentação foi modificada por invenções internas, trocas regionais e produtos vindos de outros continentes.

Vista por esse ângulo, a história da comida deixa de ocupar apenas a cozinha. Ela alcança o campo, o comércio, o templo, o palácio e as relações entre os povos.

Sabores da Tradição — história da alimentação na China antiga

Período
De 27 de junho a 11 de outubro de 2026

Local
Museu Histórico Nacional

Endereço
Praça Marechal Âncora, sem número, Centro, Rio de Janeiro

Funcionamento
De quarta-feira a domingo, das 10h às 18h

Última entrada
Às 17h

Entrada
Gratuita

Relacionadas, fontes e documentos:

Canoa Havaiana reúne 360 atletas no Lago Paranoá (Fonte em Foco)
Fim de semana no DF tem cultura gratuita em 11 locais (Fonte em Foco)
Festival do Parque leva fantasia ao Parque da Cidade (Fonte em Foco)
Maior São João do Cerrado volta a Ceilândia (Fonte em Foco)
– 
Sabores da Tradição no Museu Histórico Nacional (Ibram)
– Exposição temporária e horários de visitação (Museu Histórico Nacional)

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