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Filme de Camurati questiona raízes da desigualdade

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Documentário investiga como religiões moldaram o lugar das mulheres na sociedade

O novo documentário da cineasta Carla Camurati, Raízes do Sagrado Feminino, investiga como textos e interpretações do Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo ajudaram a moldar estruturas sociais marcadas pelo patriarcado. Em cartaz em cinemas do Rio de Janeiro e de São Paulo, o filme propõe uma reflexão sobre fé, poder e desigualdade de gênero sem assumir tom de ataque religioso.

Raízes do Sagrado Feminino olha para fé e poder

A pergunta central do documentário é incômoda: como narrativas religiosas consideradas sagradas influenciaram o lugar reservado às mulheres ao longo dos séculos? A resposta, no filme, não vem como acusação direta contra a fé, mas como investigação sobre interpretações, usos políticos e apagamentos históricos.

Camurati resume a proposta ao dizer que não se trata de atacar a fé, mas de questionar as interpretações. Essa distinção é importante. O filme não mira a espiritualidade como experiência íntima ou comunitária. Mira a forma como estruturas religiosas, muitas vezes conduzidas por homens, contribuíram para legitimar silenciamentos, submissões e exclusões femininas.

A provocação chega em um momento em que debates sobre igualdade de gênero, violência contra a mulher e liberdade religiosa atravessam tribunais, parlamentos, escolas, templos e famílias. Não é uma discussão distante. É a velha pergunta sobre quem fala em nome de Deus quando o corpo cobrado é quase sempre o da mulher.

Documentário reúne lideranças e pesquisadores

O filme reúne pesquisadores, teólogos, historiadores, rabinos, lideranças religiosas e intelectuais para discutir a relação entre religião, cultura e patriarcado. Entre os entrevistados estão Monja Cohen, Nilton Bonder, Mary Del Priore e Ivone Gebara.

A obra investiga as cinco grandes tradições religiosas abordadas a partir de um mosaico de entrevistas, imagens de arquivo e pesquisa histórica. A sinopse oficial apresenta o longa como uma investigação sobre como cinco das maiores doutrinas religiosas do mundo desenharam o feminino ao longo dos séculos e como isso repercute nas sociedades contemporâneas.

Segundo Camurati, o processo envolveu pesquisa acadêmica sobre textos sagrados, busca por entrevistados e levantamento de imagens. A diretora afirma que a linha crítica não estava completamente definida no início. O filme teria nascido como processo vivo, guiado pelas descobertas feitas durante a investigação.

O feminino entre culpa, silêncio e conhecimento

Uma das chaves do documentário está na revisão de interpretações tradicionais. Camurati destaca, por exemplo, leituras contemporâneas da personagem bíblica Eva não apenas como origem da culpa, mas como figura associada ao conhecimento.

Essa releitura tem força porque mexe em uma imagem fundadora. Durante séculos, parte das tradições cristãs tratou Eva como símbolo de queda, desobediência e desvio. Ao deslocar o olhar para a escolha pelo fruto do conhecimento, o filme abre espaço para uma pergunta mais ampla: quantas narrativas sobre mulheres foram reduzidas para sustentar hierarquias já decididas?

A fala da teóloga Ivone Gebara, destacada pela diretora, amplia essa perspectiva ao afirmar que “é de nós, mulheres, que nasceu a experiência da liberdade”. No documentário, essa frase funciona como uma fresta. Por ela entra outra história possível, menos obediente, menos culpada, mais dona de si.

Camurati evita panfleto e aposta em reflexão

Conhecida por dirigir Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, marco da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, Carla Camurati volta ao documentário depois de Oito presidentes, 1 Juramento. Em Raízes do Sagrado Feminino, ela se afasta do ataque frontal e escolhe a investigação.

Essa escolha é relevante porque o tema poderia facilmente cair no ruído. Religião e gênero, quando tratados sem cuidado, viram trincheira em poucos minutos. O filme tenta outro caminho: perguntar, comparar, escutar e expor contradições.

A Revista de Cinema observa que o longa reúne colaboradores de diferentes áreas, como filósofos, monges, historiadores, cantoras, teólogos, padre, rabinos, freira e pesquisadores, buscando apresentar o tema ao público leigo sem cair no jargão acadêmico.

Estreia chega a cinemas do Rio e de São Paulo

O documentário está em cartaz em salas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A página do Grupo Estação, no Rio, lista sessões de Raízes do Sagrado Feminino e apresenta o filme como uma investigação sobre escrituras religiosas e o lugar das mulheres na sociedade.

A ficha disponível na Ingresso.com informa direção de Carla Camurati, gênero documentário, duração de 104 minutos e distribuição da Downtown Filmes e Copacabana Filmes.

A circulação posterior em plataformas de streaming ainda depende de calendário de distribuição. Por enquanto, a força do filme está justamente na experiência coletiva da sala de cinema, onde o incômodo não pode ser pausado no controle remoto.

Quando a fé encontra a pergunta certa

Raízes do Sagrado Feminino não pretende dividir fiéis entre bons e maus, nem reduzir religiões milenares a uma sentença única. Sua força está em outra direção: mostrar que textos sagrados também foram lidos por sociedades desiguais, traduzidos por estruturas masculinas e usados, muitas vezes, para organizar o poder.

A fé pode consolar, libertar e sustentar comunidades. Mas também pode ser instrumentalizada. O filme entra nesse terreno delicado sem gritar, o que talvez o torne mais incômodo. Há perguntas que não precisam levantar a voz para estremecer uma tradição.

Ao iluminar o que foi apagado, distorcido ou silenciado, Camurati propõe uma discussão necessária. Não para tirar a fé de ninguém. Mas para lembrar que nenhuma espiritualidade deveria exigir que mulheres paguem, com submissão, o preço da sua permanência.

Relacionadas, fontes e documentos:

Culturas tradicionais ganham política nacional (Fonte em Foco)
Filme sobre violência contra mulher chega a Cannes (Fonte em Foco)
Circo ganha reconhecimento legal como arte popular (Fonte em Foco)
Prêmio Rio de Contos abre inscrições gratuitas no RJ (Fonte em Foco)
Raízes do Sagrado Feminino (Espaço Petrobras de Cinema)
“Raízes do Sagrado Feminino” mostra papel feminino nas religiões (Agência Brasil)

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