CRMBs do DF unem proteção e autonomia para transformar a vida de mulheres
Os Centros de Referência da Mulher Brasileira do Distrito Federal nasceram para acolher mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade, mas sua força não termina no atendimento emergencial. Nas quatro unidades em funcionamento no DF, a proteção também passa por cursos, orientação, brinquedoteca e caminhos concretos para a autonomia financeira.
O Distrito Federal abriga quatro dos 15 CRMBs em funcionamento no país, localizados no Recanto das Emas, São Sebastião, Sobradinho II e Sol Nascente. Os espaços oferecem acolhimento psicológico e social, atendimento de enfermagem, orientação jurídica, encaminhamento à rede pública, cursos de capacitação, kit lanche e brinquedoteca com monitoria para que mães possam participar das atividades ou dos atendimentos sem precisar escolher entre cuidar dos filhos e cuidar de si.
A história de Neris Pereira, de 42 anos, mostra o alcance silencioso dessa política. Manicure há 26 anos e cabeleireira há 17, ela abriu o próprio negócio durante a pandemia, mas sentia o peso de tocar tudo sozinha. Moradora do Recanto das Emas, vive a uma rua do centro da região, mas nunca havia entrado no espaço porque acreditava que ele fosse destinado apenas a mulheres vítimas de violência.
Foi pelas redes sociais que descobriu a oferta de cursos gratuitos. Primeiro, fez aulas de tranças e marketing digital. Depois, voltou para o curso de empreendedorismo. A mudança, para ela, foi prática e íntima ao mesmo tempo: aprendeu a organizar melhor o negócio, a se posicionar diante das clientes e a enxergar com mais clareza o próprio trabalho. Hoje, já percebe retorno financeiro na atividade que ajuda a sustentar a casa.
Autonomia financeira também é proteção
Os CRMBs integram o Programa Mulher Viver sem Violência, política federal voltada à articulação de serviços públicos de saúde, segurança, justiça, assistência social e promoção da autonomia econômica. A lógica é simples e poderosa: uma mulher com renda, informação e rede de apoio tem mais condições de romper situações de dependência e reconstruir a própria vida.
No caso de Neris, o centro não entrou em sua trajetória por causa de uma agressão, mas por meio de uma oportunidade. Isso amplia o sentido da política pública. Enfrentar a violência contra a mulher não começa apenas quando o boletim de ocorrência já foi feito. Começa antes, quando o Estado ajuda a construir autonomia, renda, confiança e circulação social.
Desde o início do ano, os CRMBs do DF registraram 1.020 atendimentos. No ciclo de cursos encerrado no fim de abril, 183 mulheres receberam certificado. Um novo período de aulas começou nesta semana, e outro está previsto para 1º de junho, com cursos de crochê, tranças e penteados afro, marketing digital e empreendedorismo.
Espaço não é só para quem já sofreu violência
A percepção inicial de Neris não é incomum. Muitas mulheres associam os centros exclusivamente a casos de violência doméstica e, por isso, deixam de procurar serviços que também foram pensados para fortalecer autonomia e prevenir vulnerabilidades. Os CRMBs são serviços de portas abertas, gratuitos e sem necessidade de encaminhamento prévio.
Essa informação precisa circular mais. Quando uma mulher evita entrar em um equipamento público por acreditar que “ainda não é caso para isso”, o Estado perde a chance de agir antes que a fragilidade se transforme em ruptura. A política bem desenhada não espera a queda para oferecer a mão. Ela constrói corrimão.
A professora Carolina Freire, responsável pelo curso de empreendedorismo frequentado por Neris, observa que o ganho vai além da técnica. Em sala de aula, ela acompanhou a transformação da aluna, que saiu de uma postura tímida para apresentar o próprio negócio com mais segurança. O que parece pequeno na superfície pode ser decisivo na vida real: saber explicar o que se vende, calcular preço, organizar metas e reconhecer o valor do próprio trabalho muda a relação da mulher com o dinheiro e, muitas vezes, consigo mesma.
Rede de apoio precisa caber na vida concreta
Cada unidade do CRMB foi estruturada para receber mulheres em suas condições reais de vida. A brinquedoteca com monitoria, por exemplo, não é detalhe decorativo. É o que permite que mães participem de cursos ou atendimentos sem precisar faltar porque não têm com quem deixar os filhos. O lanche oferecido às mulheres e às crianças também ajuda a reduzir barreiras materiais que, para parte do público, poderiam inviabilizar a permanência no espaço.
Esse desenho revela compreensão madura de política pública. Não basta abrir a porta e declarar que o serviço existe. É preciso remover os obstáculos que impedem as mulheres de usá-lo. Transporte, filhos, renda, medo, vergonha e falta de informação são barreiras concretas. Ignorá-las é oferecer atendimento apenas no papel.
No DF, a rede especializada de atendimento às mulheres foi ampliada nos últimos anos, e os CRMBs passaram a compor uma estrutura mais extensa de enfrentamento à violência e promoção de direitos. O serviço se soma a outros equipamentos, como a Casa da Mulher Brasileira, os Centros Especializados de Atendimento à Mulher e canais de denúncia.
Quando a mulher cresce, a casa inteira se move
A trajetória de Neris não cabe na linguagem estreita do empreendedorismo como slogan. Ela mostra que qualificação gratuita, acolhimento e orientação podem ter efeito direto no orçamento doméstico, na autoestima e na capacidade de decisão de uma mulher. Em muitos lares, melhorar a renda feminina não é adereço de independência. É sustentação concreta da família.
Há uma tendência antiga de tratar políticas para mulheres como gasto acessório, quase uma gentileza institucional. Não são. São infraestrutura social. Quando uma mulher consegue estudar, trabalhar, gerar renda, romper violência ou simplesmente ocupar um espaço público que a reconhece, há impacto econômico, familiar e comunitário.
No Dia das Mães, a história de Neris serve menos para enfeitar uma data e mais para lembrar que cuidado também se faz com curso, atendimento, escuta, renda e porta aberta. A mãe que entra em um centro para aprender a organizar o próprio negócio pode estar fazendo muito mais do que buscar uma nova técnica. Pode estar abrindo, com as próprias mãos, uma saída que antes parecia não existir.
Endereços dos CRMBs no Distrito Federal
CRMB Recanto das Emas
Av. Buritis, Quadra 203, Lote 14
Telefones: (61) 3181-2665 / 3181-2666
Atendimento: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
CRMB Sol Nascente
Trecho 2, Quadra 100, Conjunto A, Lote SC1, Pôr do Sol
Telefones: (61) 3181-2255 / 3181-2660
Atendimento: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
CRMB São Sebastião
Área Especial 11, Centro de Múltiplas Atividades
Telefones: (61) 3181-2661 / 3181-2662
Atendimento: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
CRMB Sobradinho II
AE 06, COER, Quadra 1, Setor Oeste
Telefones: (61) 3181-2663 / 3181-2664
Atendimento: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h.
Fontes e documentos:
– Mães atípicas encontram apoio para seguir cuidando (Fonte em Foco)
Dia das Mães como os centros de referência transformam realidade de mulheres no DF (Agência Brasília)
– Programa Mulher Viver sem Violência (Ministério das Mulheres)

