O período de férias escolares, associado ao descanso e ao lazer em família, também acende um sinal de alerta para a segurança das crianças. Com a mudança da rotina, mais tempo dentro de casa, viagens e atividades ao ar livre, cresce de forma significativa o risco de acidentes infantis, muitos deles com potencial de causar sequelas graves ou levar à morte.
Especialistas do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) são diretos: supervisão constante é a principal ferramenta de prevenção, sobretudo durante as férias, quando a exposição a situações de risco aumenta. Não é exagero nem paranoia. É estatística.
Quedas, queimaduras e afogamentos lideram ocorrências
Os tipos de acidentes variam conforme a idade, porém os registros mais frequentes incluem quedas, queimaduras, engasgos, sufocamentos, intoxicações por medicamentos ou produtos de limpeza e, principalmente no verão, afogamentos.
Segundo a pediatra Maria Fernanda Spigolon, do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), um dos maiores perigos está na falsa sensação de segurança dentro de casa.
“Em crianças menores, como bebês e pré-escolares, entre 3 e 5 anos, a maioria dos acidentes ocorre no ambiente doméstico. Muitas vezes, os pais acreditam que está tudo seguro, mas basta um segundo de distração”, alerta.
Rotina alterada amplia riscos durante as férias
Viagens, casas de parentes, sítios, hotéis e a maior circulação de pessoas criam um ambiente propício para acidentes. Além disso, entra em cena um velho conhecido das emergências pediátricas: a supervisão diluída.
“Em reuniões familiares, é comum todos acharem que outro adulto está cuidando da criança. No fim, ninguém está supervisionando de forma ativa”, reforça a médica.
Esse cenário reflete diretamente nos prontos-socorros. Durante férias e feriados prolongados, cresce o número de atendimentos por quedas com traumas, queimaduras e ingestão acidental de substâncias tóxicas. Os casos mais graves envolvem, sobretudo, afogamentos e intoxicações, acidentes com alto risco de morte ou sequelas permanentes.
Afogamento é rápido, silencioso e letal
O afogamento merece atenção especial.
“Ele acontece de forma silenciosa e muito rápida. Pode causar lesão cerebral por falta de oxigênio, insuficiência respiratória e sequelas neurológicas permanentes, além do risco de morte”, explica Maria Fernanda.
Os dados ajudam a tirar qualquer dúvida. Em 2024, 456 crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, morreram no Brasil vítimas de acidentes domésticos, segundo o Ministério da Saúde. Os sufocamentos (213) e os afogamentos (104) lideram as causas. Entre 2010 e 2023, o país registrou mais de 71 mil mortes por afogamento, considerando todas as idades.
Prevenção começa em casa e exige ação constante
A pediatra reforça que a prevenção se sustenta em dois pilares: supervisão ativa e adaptação do ambiente.
“É essencial instalar redes e grades de proteção, manter medicamentos e produtos de limpeza fora do alcance das crianças, proteger tomadas e nunca deixar uma criança sozinha em ambientes com água, nem por um segundo”, orienta.
Outro cuidado simples, mas frequentemente ignorado, é ajustar a temperatura da água do banho, prevenindo queimaduras.
Em situações de risco ou acidentes graves, a recomendação é retirar a criança da fonte de perigo, se houver segurança, e acionar imediatamente o 192 (Samu) ou o 193 (Corpo de Bombeiros). Se possível, devem ser iniciadas manobras de primeiros socorros até a chegada do atendimento especializado.
“Mesmo que a criança pareça bem após um afogamento ou ingestão de substância, ela precisa ser avaliada em um serviço de saúde. Algumas complicações surgem horas depois”, finaliza a médica.
No fim das contas, férias são para relaxar. Mas quando o assunto é criança, relaxar demais nunca foi uma boa ideia.

