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Rádio escolar em RO mostra força da educação midiática

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Janaina Lemos

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Projeto em assentamento usa microfone para formar cidadania na Amazônia

Na escola municipal Josué de Castro, na zona rural de Theobroma (RO), um estúdio improvisado com microfones e caixas de som virou ferramenta de aprendizado, cidadania e pertencimento. O projeto “Rádio na Escola”, criado há pouco mais de dois anos, permite que crianças e adolescentes falem sobre sustentabilidade, saúde, educação e combate à desinformação a partir do próprio território onde vivem, na Amazônia. A iniciativa integra o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, plataforma lançada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) que reúne, até agora, 226 experiências em todo o país.

O caso de Theobroma ajuda a traduzir, de forma concreta, um conceito que muitas vezes aparece embalado em linguagem técnica demais. Educação midiática, ali, não é palestra abstrata sobre fake news nem cartilha envernizada. É estudante produzindo conteúdo, reconhecendo problemas da comunidade e entendendo que mídia também pode ser instrumento de leitura crítica do mundo. Quando uma escola rural consegue fazer isso com estrutura simples, ela desmente a velha desculpa de que inovação educacional só floresce onde sobra recurso.

Projeto envolve alunos da pré-escola ao nono ano

Segundo o diretor Elias Bastos, o rádio é usado da pré-escola ao nono ano do ensino fundamental. As gravações são feitas pelos próprios alunos, com orientação dos professores, e depois transmitidas nas caixas de som do pátio escolar. O conteúdo vai de temas ambientais a alertas sobre dengue, evasão escolar e boatos, com retorno inclusive das famílias dos estudantes. Entre os assuntos que geraram repercussão está a poluição da nascente do Rio São João, citada pelo diretor como exemplo de mobilização provocada pelo projeto.

A escola atende 183 alunos e fica dentro do assentamento Antônio Conselheiro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O dado não é lateral. Ele mostra que a experiência nasce num contexto de ruralidade, distância geográfica e infraestrutura limitada, onde o acesso à informação qualificada costuma disputar espaço com isolamento e vulnerabilidade. Nesses cenários, dar voz aos estudantes não é só atividade pedagógica; é também gesto de inserção pública.

Mapa nacional quer ampliar rede e recebe inscrições até 16 de março

A segunda chamada para inclusão de novas iniciativas no Mapa Brasileiro da Educação Midiática segue aberta até 16 de março de 2026. Educadores, pesquisadores, escolas, organizações, governos e outras instituições podem enviar experiências por meio de formulário online, desde que promovam uso crítico, responsável e criativo das mídias em contextos educativos. A nova edição do mapa está prevista para junho.

De acordo com a Secom, o mapa foi produzido a partir de um processo colaborativo iniciado com a Consulta Pública sobre Educação Midiática, realizada entre 2023 e 2024, que recebeu 496 inscrições. A curadoria final da primeira edição foi consolidada em 2025 com apoio do governo do Reino Unido no Brasil, parceria técnica do Porvir e cooperação da Unesco Brasil. A plataforma foi lançada em fevereiro e passou a funcionar como vitrine pública de práticas espalhadas por todas as regiões do país.

Secom tenta transformar experiências dispersas em política de referência

A coordenadora de Educação Midiática da Secom, Thaís Brito, afirmou que a segunda chamada busca ampliar o mapeamento e fortalecer uma rede mais diversa, criativa e representativa. A fala indica a ambição do projeto: não apenas reunir casos inspiradores, mas criar uma base de referência para que práticas de educação midiática ganhem visibilidade e escala.

Esse esforço é relevante porque o debate sobre desinformação no Brasil frequentemente fica preso à superfície da indignação. Fala-se muito em combater fake news, mas nem sempre se investe com a mesma energia em formar leitores, ouvintes e produtores de conteúdo mais críticos. O mapa tenta corrigir um pedaço dessa falha ao mostrar que educação midiática não precisa começar num laboratório caro nem numa capital cheia de eventos; ela pode começar, como em Theobroma, com dois microfones, um pátio escolar e professores dispostos a transformar escuta em aprendizagem.

Quando a Amazônia deixa de ser cenário e vira voz

O mérito mais forte do projeto de Rondônia talvez esteja justamente aí. Em vez de tratar a Amazônia como cenário distante sobre o qual se fala de fora, a escola faz com que os próprios estudantes falem dela a partir da experiência cotidiana. Isso desloca o eixo da comunicação: o território deixa de ser apenas objeto de discurso e passa a ser sujeito da narrativa. É uma diferença enorme, sobretudo num país que costuma falar sobre periferias, campo e floresta com excesso de tutela e falta de escuta.

No fim, o “Rádio na Escola” vale menos pelo improviso simpático e mais pelo que revela. Revela que educação midiática pode ser ferramenta de cidadania, consciência ambiental e enfrentamento da desinformação. E revela também algo que o poder público às vezes esquece: quando a escola ensina o aluno a interpretar mídia e produzir sentido sobre a própria realidade, ela não forma apenas estudante mais informado. Forma comunidade menos manipulável.

Fontes e documentos:
Educação midiática: mapa revela projetos de conscientização pelo país (Agência Brasil)
– Abertas as inscrições para a segunda chamada do Mapa Brasileiro da Educação Midiática (Secom / Governo Federal)
– Governo lança Mapa Brasileiro de Educação Midiática (Secom / Governo Federal)
– Mapa Brasileiro da Educação Midiática (Secom / Governo Federal)
Educação midiática ganha mapa interativo com iniciativas de todo o país (Porvir)

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