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Alergias exigem diagnóstico correto

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Sintomas persistentes podem afetar sono, respiração, pele e rotina, mas não devem ser tratados como parte normal da vida

Espirros frequentes, nariz entupido, coceira intensa, tosse persistente e falta de ar não devem ser normalizados. Esses sintomas podem indicar doenças alérgicas que comprometem o sono, o desempenho escolar, a produtividade e, nos casos mais graves, colocam a vida em risco.

As alergias formam um conjunto amplo de condições provocadas por respostas inadequadas ou exageradas do sistema imunológico a determinadas substâncias. Podem atingir as vias respiratórias, a pele, o sistema digestivo e outras partes do organismo.

Estimativas utilizadas por entidades médicas indicam que aproximadamente um terço da população mundial convive com alguma doença alérgica. No Brasil, a rinite alérgica, a asma e a dermatite atópica estão entre as manifestações mais frequentes.

“É uma multidão, um país dentro de outro”, afirma a presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, Fátima Rodrigues Fernandes.

A Semana Mundial da Alergia ocorre entre 21 e 27 de junho de 2026, com o tema “Cuidado com a Alergia é Cuidado Essencial”. A campanha busca ampliar o reconhecimento dos sintomas e incentivar o diagnóstico e o tratamento adequados.

Rinite pode prejudicar o sono e passar anos sem tratamento

A rinite alérgica atinge aproximadamente 30% da população brasileira. Entre crianças, a estimativa é de cerca de 26%. Nos adolescentes, pode chegar a 30%.

Esses percentuais utilizados no Brasil são baseados, em parte, no Estudo Internacional de Asma e Alergias na Infância, pesquisa multicêntrica realizada em diferentes cidades e faixas etárias. Como os levantamentos foram conduzidos há vários anos, os números devem ser compreendidos como referências epidemiológicas, e não como um retrato atualizado de todos os municípios brasileiros.

Os sintomas mais comuns são:

  • coceira no nariz, nos olhos ou na garganta;
  • crises repetidas de espirros;
  • coriza;
  • obstrução nasal;
  • respiração pela boca;
  • redução do olfato;
  • sono fragmentado.

A persistência dos sintomas pode fazer com que o paciente passe a considerá-los parte de sua rotina.

“A pessoa dorme com a boca aberta, tem perturbação no sono, mas não liga. Ela se acostumou e pensa que aquilo é o normal dela. Mas não é”, alerta Fátima.

A obstrução nasal prolongada pode prejudicar o descanso, a concentração e o rendimento durante o dia. Em crianças, o sono inadequado também pode afetar o aprendizado e o comportamento.

O diagnóstico considera os sintomas, o histórico familiar, as condições do ambiente e o exame clínico. Testes alérgicos podem ser solicitados quando houver indicação, mas seus resultados precisam ser interpretados por profissional capacitado.

Asma exige controle mesmo fora das crises

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias respiratórias e atinge aproximadamente 10% da população brasileira. Nem todos os casos são alérgicos.

Os principais sintomas incluem:

  • falta de ar;
  • chiado no peito;
  • tosse recorrente;
  • sensação de aperto no tórax;
  • cansaço durante esforço físico;
  • dificuldade para falar ou rir em períodos de crise.

No mundo, mais de 260 milhões de pessoas vivem com asma. A doença responde por mais de 450 mil mortes por ano, muitas delas consideradas evitáveis com diagnóstico, acesso a medicamentos e acompanhamento adequado.

O controle não deve se limitar ao uso de medicação quando aparece a falta de ar. A inflamação permanece ativa mesmo entre as crises e precisa ser tratada conforme a orientação médica.

O frio, o ar seco, as infecções respiratórias, a fumaça, a poluição, o mofo, os ácaros e outros fatores podem agravar os sintomas. No inverno, o aumento da permanência em ambientes fechados favorece a exposição a alguns desses desencadeadores.

Crises com dificuldade intensa para respirar, coloração arroxeada nos lábios, incapacidade de falar frases completas, sonolência ou piora rápida exigem atendimento de urgência.

Informações sobre sinais e tratamento da asma podem ser consultadas no material da Global Initiative for Asthma.

Dermatite atópica vai além da coceira

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele. Não é contagiosa e costuma alternar períodos de melhora e piora.

A condição pode atingir até 20% das crianças, dependendo da população e dos critérios utilizados no estudo. Entre adultos, as estimativas variam e costumam ficar em percentuais menores.

Os sintomas incluem ressecamento, vermelhidão, descamação, feridas e coceira intensa. As lesões podem aparecer em diferentes regiões do corpo e mudar de localização conforme a idade.

A coceira interfere no sono e pode provocar escoriações e infecções secundárias. Nos quadros moderados ou graves, o impacto alcança a vida escolar, profissional, social e emocional.

O tratamento pode envolver hidratação frequente da pele, medicamentos tópicos ou sistêmicos e controle dos fatores que agravam a doença. Dietas restritivas não devem ser iniciadas sem diagnóstico, porque a dermatite atópica não é necessariamente provocada por alimentos.

Mudanças climáticas podem ampliar a exposição a alérgenos

O aumento das temperaturas, a concentração de dióxido de carbono e as mudanças nos ciclos das plantas podem antecipar e prolongar as temporadas de pólen. Esses fatores também podem elevar a produção de partículas alergênicas e ampliar o período de exposição.

A poluição atmosférica pode agravar a inflamação das vias respiratórias e aumentar a intensidade dos sintomas em pessoas suscetíveis.

Essas evidências apontam para maior pressão das mudanças ambientais sobre a saúde respiratória. Não permitem, porém, afirmar com segurança que metade da população mundial terá alergias até 2050.

A diferença é importante. O risco crescente é sustentado por pesquisas, enquanto a projeção numérica precisa de fonte e metodologia claramente identificadas.

O documento Climate change, air pollution, pollen and health reúne evidências sobre a relação entre clima, poluição, pólen e doenças alérgicas.

Teste positivo não confirma alergia sozinho

O diagnóstico começa pela reconstrução detalhada do que ocorreu. O médico precisa avaliar quais sintomas apareceram, quando começaram, quanto tempo duraram e se houve relação consistente com alimentos, medicamentos, animais, poeira, pólen ou outras exposições.

Os testes cutâneos e os exames de sangue podem demonstrar sensibilização a determinada substância. Isso significa que o sistema imunológico reconheceu aquele componente, mas não necessariamente que ele provoca sintomas.

Uma pessoa pode apresentar resultado positivo e tolerar normalmente a substância avaliada. Também pode ter uma doença alérgica que não seja identificada pelo exame escolhido.

Por esse motivo, painéis extensos solicitados sem indicação clínica podem gerar diagnósticos incorretos, medo e restrições desnecessárias. Em alergias alimentares, a retirada injustificada de alimentos pode provocar prejuízos nutricionais, especialmente em crianças.

Algumas situações exigem testes de provocação, realizados sob supervisão médica e com estrutura para tratar possíveis reações. A escolha do exame depende do tipo de alergia suspeita.

O posicionamento sobre testes alérgicos indiscriminados explica os limites desses procedimentos.

Predisposição genética não explica todos os casos

Muitas doenças alérgicas apresentam componente hereditário. Filhos de pessoas com rinite, asma ou dermatite atópica podem ter maior probabilidade de desenvolver condições semelhantes.

A genética, entretanto, não age sozinha. Ambiente, exposição a poluentes, infecções, características da barreira da pele, ocupação profissional e outros fatores também participam do desenvolvimento e da intensidade das doenças.

Por isso, não é correto afirmar de forma geral que toda alergia é genética ou que nenhuma delas tem cura.

Algumas condições são crônicas e exigem controle prolongado. Outras podem desaparecer, diminuir com o passar dos anos ou ser tratadas por estratégias que modificam a resposta imunológica, como a imunoterapia indicada para determinados pacientes.

O objetivo do acompanhamento é permitir que a pessoa permaneça sem sintomas ou com manifestações mínimas e mantenha suas atividades habituais.

Casa precisa ser cuidada sem medidas exageradas

O controle ambiental pode ajudar principalmente pessoas sensíveis a ácaros, mofo, pelos de animais e outros componentes presentes dentro das residências.

Entre as medidas possíveis estão:

  • reduzir umidade e infiltrações;
  • eliminar focos de mofo;
  • lavar roupas de cama regularmente;
  • manter os ambientes ventilados;
  • evitar fumaça de cigarro;
  • limpar superfícies com pano úmido;
  • reduzir objetos que acumulem poeira quando houver indicação;
  • evitar produtos com odores fortes se eles desencadearem sintomas.

Essas providências precisam ser direcionadas ao problema identificado. Transformar a casa em uma operação permanente de esterilização aumenta trabalho e ansiedade sem garantir benefício clínico.

Animais de estimação também não devem ser afastados automaticamente. A decisão depende da confirmação de que o contato provoca sintomas e da avaliação das alternativas disponíveis.

Alergias graves exigem resposta imediata

Alergias alimentares, medicamentosas e a venenos de insetos podem causar anafilaxia, reação grave que se desenvolve rapidamente.

Os sinais de alerta incluem:

  • dificuldade para respirar;
  • inchaço da língua ou da garganta;
  • voz rouca repentina;
  • tontura ou desmaio;
  • queda de pressão;
  • urticária acompanhada de sintomas respiratórios ou circulatórios;
  • vômitos repetidos após exposição a um possível alérgeno.

Nessas situações, é necessário buscar atendimento de emergência. Pessoas com diagnóstico prévio de anafilaxia devem seguir o plano de ação definido pelo médico.

Receitas caseiras, automedicação e testes comerciais sem validação não substituem a avaliação clínica.

Controle começa quando o sintoma deixa de ser normalizado

Doenças alérgicas podem acompanhar famílias inteiras, mas não precisam determinar a rotina de todos os seus integrantes.

A rinite não deve ser aceita como simples incômodo permanente. A asma não pode ser tratada apenas quando falta ar. A coceira intensa da dermatite não é um problema menor. Reações a alimentos ou medicamentos não devem ser confirmadas por suposição.

O cuidado começa com a identificação correta dos sintomas, passa por um diagnóstico coerente e continua com tratamento compatível com a gravidade e as necessidades de cada paciente.

A meta não é isolar a pessoa de todos os possíveis riscos. É permitir que ela respire, durma, se alimente e viva com segurança.

Relacionadas, fontes e documentos:

Hanseníase ainda causa sequelas por falhas no diagnóstico (Fonte em Foco)
Pré-eclâmpsia exige alerta no pré-natal de gestantes (Fonte em Foco)
SUS terá nova terapia para leucemia mieloide aguda (Fonte em Foco)
Dor crônica ganha dia nacional e diretrizes no SUS (Fonte em Foco)
Semana Mundial da Alergia 2026 (WAO)
Semana Mundial da Alergia alerta para prevenção e diagnóstico (Agência Brasil)
– Clima, poluição, pólen e saúde (OMS)
– Testes alérgicos indiscriminados (Asbai)

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