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Fotografia resiste à tecnologia e mantém olhar humano vivo

Publicado em

Reportagem:
Autor: Paulo Andrade

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Não era hora de ajustar foco nem mexer na câmera. Diante de uma mãe que relatava a dor de ter perdido dois filhos para a fome, na cidade de Irecê (BA), o repórter-fotográfico Joédson Alves ficou sem palavras. A cena aconteceu durante uma cobertura sobre a seca no Nordeste, na década de 1990, e segue viva na memória de quem entende que fotografia não é apenas técnica — é responsabilidade.

“Naquele dia, não consegui conter a emoção”, relembra o profissional, hoje com 35 anos de carreira. Ainda assim, era preciso registrar. O caminho escolhido foi enquadrar a mãe e os filhos em frente à própria casa, uma imagem capaz de sensibilizar o público sem explorar a dor. A fotografia, ali, cumpriu seu papel mais difícil: informar e tocar ao mesmo tempo.

Tecnologia ajuda, mas não substitui sensibilidade

Para Joédson, as novas tecnologias que transformaram o fotojornalismo ao longo das décadas facilitam processos, mas não substituem o olhar humano. A câmera evolui, os sensores melhoram, a inteligência artificial avança. O que não se automatiza é a decisão ética sobre quando e como apertar o botão.

Essa percepção é compartilhada pelo professor de Fotojornalismo Lourenço Cardoso, do Centro Universitário de Brasília (Ceub). Segundo ele, os estudantes chegam cada vez mais curiosos sobre equipamentos, mas acabam descobrindo que a essência da fotografia está além da máquina.

Para o pesquisador, a digitalização democratizou o acesso. A fotografia nasceu restrita, cara, distante de grande parte da população. Com o avanço tecnológico, produzir imagens deixou de ser privilégio. Ainda assim, o que diferencia uma boa foto continua sendo a subjetividade.

“A fotografia é muito mais profunda do que o que a máquina consegue oferecer. Ela é, antes de tudo, um resultado de subjetividade”, afirma.

Memória, informação e compromisso público

Atualmente, Joédson Alves é gerente executivo de Imagem, Arte e Web da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Para ele, o papel do fotógrafo em uma agência pública é estratégico. Não se trata apenas de ilustrar notícias, mas de garantir o direito à informação e ajudar a construir a memória coletiva do país.

Segundo Joédson, mesmo em um ambiente altamente tecnológico, é o fotógrafo quem define o enquadramento, o momento e a narrativa visual. A tecnologia serve ao interesse público, mas não decide sozinha o que deve ser mostrado.

“A combinação entre conhecimento técnico, responsabilidade social e inovação tecnológica fortalece a credibilidade da informação”, destaca.

Inteligência artificial: apoio, não autoria

No Dia do Fotógrafo, celebrado nesta quinta-feira (8), o debate sobre o impacto da inteligência artificial ganhou força. Para profissionais experientes, a IA pode ser aliada, desde que não substitua o fotógrafo.

Joédson observa que fabricantes de equipamentos e softwares já se preocupam em garantir rastros de autenticidade, capazes de comprovar que uma imagem foi feita por um ser humano. Isso se torna crucial em coberturas sensíveis, nas quais ética e responsabilidade social são inegociáveis.

“A IA é benéfica porque traz agilidade, desde que não retire a ação do fotógrafo e a sensibilidade humana”, pondera.

O fotógrafo Ricardo Stuckert, com mais de 30 anos de carreira, vai na mesma linha. Para ele, imagens não apenas documentam fatos, mas funcionam como testemunhos reais da história. Em tempos de desinformação, fotografar é também um ato de resistência.

Já o professor Lourenço Cardoso faz um alerta: a inteligência artificial trabalha a partir de bancos de dados já existentes. Ela reorganiza, mas não cria vivência, nem emoção. “Não há impressão de subjetividade naquilo”, resume.

O olhar que atravessa o tempo

A fotografia já sobreviveu à mecanização, ao filme, ao digital e agora enfrenta a IA. Em todas essas fases, o fim foi anunciado. Nenhuma previsão se confirmou.

“O tempo mostrou que a subjetividade é insubstituível”, diz Lourenço. É ela que permite que uma imagem faça sentido para quem vê, mobilize consciências e atravesse gerações.

No fim das contas, a tecnologia muda. O olhar humano permanece. E é ele que continua dando sentido à fotografia.

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