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quarta-feira, 21 janeiro 2026, 07:29:32
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Hotel Social do DF soma 20 mil acolhimentos e muda lógica

Publicado em:

Autor: Paulo Andrade

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Inaugurado em julho pelo Governo do Distrito Federal (GDF), o primeiro Hotel Social do DF já ultrapassou 20 mil acolhimentos noturnos e se consolidou como uma das principais portas de entrada da política pública voltada à população em situação de rua. Administrado pela Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF), o espaço funciona diariamente das 19h às 8h, oferece 200 vagas e aceita animais de estimação, um diferencial que tem impacto direto na adesão.

O equipamento integra o Plano Distrital para a População em Situação de Rua, coordenado pela Casa Civil do DF, e representa uma ruptura com práticas antigas. A lógica agora não é apenas retirar pessoas de um ponto da cidade, mas criar condições reais para que deixem as ruas com autonomia.

O secretário-chefe da Casa Civil, Gustavo Rocha, explica que o foco da política pública mudou. Segundo ele, retirar sem oferecer alternativa apenas deslocava o problema. “O foco não é tirar da rua. O foco é acolher e criar condições para que a pessoa possa sair da rua”, afirma.

Acolher para reconstruir a vida

O Hotel Social foi planejado a partir de um estudo técnico conduzido pela Casa Civil em conjunto com outros sete órgãos do GDF. O levantamento traçou o perfil da população atendida e identificou lacunas históricas da política de acolhimento.

Moradia noturna, qualificação profissional, escola para os filhos e até um local seguro para os animais de estimação apareceram como fatores decisivos. Para Rocha, aceitar pets não foi um detalhe operacional, mas uma resposta direta à realidade das ruas. “Muitas pessoas se recusavam a ir para o acolhimento porque não tinham onde deixar seus cachorros. Isso era um bloqueio real”, relata.

O resultado aparece na prática. As vagas ficam praticamente lotadas todos os dias e, segundo o secretário, a intenção do governador é ampliar o modelo para outras regiões administrativas.

Estrutura básica, impacto concreto

O serviço atende idosos, mulheres, crianças e pessoas em tratamento contra dependência química. A estrutura inclui cama, banho quente, guarda de pertences, ventiladores, jantar e café da manhã. Em novembro, o espaço passou a contar também com uma biblioteca comunitária, com livros para leitura e empréstimo.

A unidade faz parte de uma rede maior de apoio do GDF, que inclui Centro Pop, restaurantes comunitários, concessão de passagens interestaduais, além de programas de qualificação e emprego, como RenovaDF e QualificaDF.

Dormir com segurança muda tudo

O Hotel Social nasceu ainda na pandemia de Covid-19, quando o fechamento do comércio levou o GDF a abrir alojamentos emergenciais. A rápida lotação mostrou que o pernoite poderia funcionar como porta de entrada para outras políticas públicas. A experiência virou política permanente em julho deste ano.

A secretária de Desenvolvimento Social, Ana Paula Marra, avalia que o pernoite tem papel estratégico. “Dormir em segurança melhora a adesão. A partir daí, a pessoa consegue aceitar tratamento, reconstruir vínculos familiares e buscar trabalho”, explica. Para ela, garantir o mínimo devolve dignidade e perspectiva.

“Aqui eu consigo dormir sem medo”

Entre os acolhidos está Maicon Gonçalves, que veio de Goiás para estudar e trabalhar, mas acabou nas ruas de Taguatinga após perder o emprego e não conseguir manter o aluguel. Em dois meses na rua, adoeceu. “Peguei pneumonia, depois agravou para tuberculose”, relata.

Segundo Maicon, a falta de endereço formal fecha portas no mercado de trabalho. Dormir no Hotel Social mudou sua rotina. “Aqui dá para acordar, tomar banho, comer e tentar um emprego no outro dia”, afirma.

Ele também destaca a sensação de segurança. “Na rua, já acordei sem mochila, sem chinelo, sem documento. Já sofri agressões por ser homossexual. Aqui, eu consigo dormir sem medo.” O atendimento humanizado, segundo ele, faz diferença. “Eles tratam a gente como pessoa.”

Trabalho é a saída

O atendimento no Hotel Social permite encaminhamentos individualizados. A partir do pernoite, os usuários podem acessar tratamento de saúde, passagens para retorno à cidade de origem, refeições gratuitas, vagas de trabalho em obras públicas, cursos de qualificação e até benefício excepcional de aluguel por até seis meses.

Ana Paula Marra reforça que não há soluções padronizadas. “Se você tem 100 pessoas em situação de rua, você tem 100 histórias diferentes”, afirma.

Para Gustavo Rocha, o eixo central é o emprego. “A porta de entrada é o acolhimento, mas a saída depende de trabalho. Sem renda, a pessoa volta para a rua”, resume.

Segundo ele, os resultados já aparecem. Mais de 200 pessoas foram empregadas por meio das ações integradas. Em 2024, mais de mil pessoas retornaram aos estados de origem. Em 2025, o número já se aproxima de 800 passagens, sempre por decisão voluntária.

Uma pausa no ciclo da rua

Maicon agora reorganiza seus planos. “Quero voltar ao mercado de trabalho, cuidar da minha saúde e reconstruir uma base familiar”, diz. Para ele, o Hotel Social representa algo simples e poderoso. “Só de ter segurança e ser tratado como gente, isso quebra o ciclo da rua.”

O Hotel Social recebe doações de roupas, livros e itens de higiene pessoal, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, no SAAN/SIA, Trecho 17, Conjunto 3, em Brasília.

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