Cinco secretarias serão transferidas e governo promete reduzir gastos com aluguéis
O Centro Administrativo do Distrito Federal, antigo Centrad, deve ter 31% da estrutura ocupada por órgãos do GDF em até 90 dias. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 9 de junho de 2026, pela governadora Celina Leão, em coletiva de imprensa. A primeira etapa prevê a transferência integral de cinco secretarias e o funcionamento parcial de outros três órgãos no complexo.
A ocupação inicial será feita em cinco blocos, com capacidade para receber até 1.638 servidores. Serão transferidas integralmente a Secretaria de Obras e Infraestrutura, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, a Secretaria de Mobilidade, a Secretaria do Meio Ambiente e a DF Legal. Casa Civil, Casa Militar e Secretaria de Governo passarão a funcionar parcialmente no local.
A medida marca o início de uso efetivo de um complexo que ficou mais de uma década associado a impasses administrativos, judiciais e logísticos. O prédio foi inaugurado em 2014, mas nunca chegou a abrigar a estrutura administrativa prevista originalmente.
Mudança começa pela Secretaria de Obras
A primeira pasta a iniciar a transferência será a Secretaria de Obras e Infraestrutura. A escolha das secretarias levou em conta contratos de aluguel próximos do vencimento ou da renovação, o que, segundo o governo, reduz risco de multas rescisórias.
A governadora afirmou que a decisão combina economia, mobilidade e descentralização administrativa. A aposta é tirar parte da estrutura pública de áreas mais pressionadas e levar servidores e atendimento para a região entre Taguatinga e Ceilândia.
Essa é a promessa central. O CAD-DF não será apenas depósito de repartição. Para justificar a mudança, precisa gerar economia mensurável, melhorar acesso do cidadão e não criar novo gargalo de deslocamento em uma área que já exige atenção viária.
Economia com aluguel é principal argumento
O governo calcula que os contratos de aluguel atualmente mantidos por órgãos do GDF somam cerca de R$ 14 milhões por mês, o equivalente a aproximadamente R$ 168 milhões por ano. Apenas as cinco pastas transferidas integralmente nesta primeira fase devem representar economia anual superior a R$ 18 milhões.
A economia deve crescer conforme novas etapas de ocupação forem implantadas. A estimativa apresentada pelo governo é que os recursos poupados com aluguel possam ser direcionados a áreas como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura.
Esse ponto precisará ser acompanhado com transparência. Economia anunciada não é economia comprovada. Será necessário demonstrar, nos próximos meses, quais contratos foram encerrados, quanto deixou de ser pago, quais custos novos surgiram no CAD-DF e qual será o saldo líquido da operação.
Complexo ainda passa por ajustes internos
A ocupação será feita com reaproveitamento de mobiliário e equipamentos já existentes nas secretarias. Segundo o governo, os gastos nesta etapa devem se concentrar em pequenos reparos e adequações para ativar os blocos.
As equipes técnicas trabalham em impermeabilização do teto, pintura interna, instalação de tomadas e cabeamento para as novas estações de trabalho. A infraestrutura do complexo já conta com sistemas de tecnologia, climatização e gestão predial, o que permite ocupação gradual dos espaços.
O governo informou ainda que não há impedimento jurídico para a primeira etapa. O Habite-se e o Relatório de Impacto de Trânsito já teriam sido emitidos para viabilizar a ocupação inicial.
Acesso viário ainda condiciona ocupação total
A ocupação de 31% é apenas a primeira fase. Para chegar a 100% do uso do complexo, o governo afirma que será necessário avançar em obras viárias, incluindo projetos para dois novos viadutos de acesso. A Secretaria de Obras já trabalha na elaboração desses projetos.
Esse é um ponto sensível. O CAD-DF fica em área estratégica, próxima ao metrô e ao terminal rodoviário, mas a ocupação plena pode alterar fluxos de trânsito, transporte público, circulação de servidores e demanda por serviços no entorno.
A presença de órgãos públicos pode fortalecer o comércio local e valorizar a região, como defende o governo. Mas também exigirá planejamento de mobilidade, calçadas, estacionamento, segurança, iluminação, transporte e integração com metrô e ônibus. Transferir secretarias sem resolver acesso seria trocar aluguel caro por deslocamento difícil.
Área comercial poderá ser concedida
Além dos blocos administrativos, o CAD-DF tem área comercial integrada à estação de metrô. O governo pretende estudar a concessão desses espaços para exploração comercial, usando a receita para ajudar a custear a manutenção do complexo.
A ideia pode ajudar a dar vida urbana ao empreendimento, desde que o modelo preserve interesse público, transparência contratual e equilíbrio entre receita, serviço ao cidadão e segurança do espaço.
Centros administrativos tendem a funcionar melhor quando não viram ilhas fechadas. Comércio, transporte e atendimento público precisam conversar entre si. Se o cidadão desce do metrô, resolve uma demanda e encontra serviços básicos no entorno, a descentralização deixa de ser discurso e vira experiência prática.
CAD-DF sai da condição de símbolo parado
O antigo Centrad se tornou, ao longo dos anos, símbolo de obra pronta sem uso efetivo. O contrato original da parceria público-privada foi estimado em mais de R$ 3 bilhões ao longo de 22 anos, segundo levantamento especializado sobre PPPs.
A ocupação parcial anunciada não encerra toda a história do empreendimento, mas muda seu estágio. O complexo deixa de ser apenas problema herdado e passa a ser testado como solução administrativa.
O teste será objetivo. Em 90 dias, será possível verificar se os órgãos foram de fato transferidos, se os servidores conseguem operar no local, se a economia projetada começa a aparecer e se o atendimento ao cidadão melhora ou apenas muda de endereço.
Descentralizar exige mais do que mudar endereço
A decisão de ocupar 31% do CAD-DF pode reduzir aluguéis e dar uso a uma estrutura pública subutilizada. Também pode estimular a região entre Taguatinga e Ceilândia, levando fluxo de servidores, usuários e serviços a uma área fora do eixo central de Brasília.
Mas a ocupação será bem-sucedida apenas se vier acompanhada de gestão de custos, acesso viário, transporte público, manutenção predial e comunicação clara ao cidadão. Órgão público não pode mudar como quem troca de sala. Precisa continuar atendendo, protocolando, respondendo e resolvendo.
O CAD-DF passou anos como promessa travada. Agora entra em fase de prova. Se a economia sair do PowerPoint e aparecer no orçamento, se o atendimento funcionar e se a mobilidade for tratada com seriedade, o complexo poderá finalmente deixar de ser problema administrativo e virar ferramenta de gestão pública.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Regularização rural tira 500 famílias da insegurança (Fonte em Foco)
– Terracap leva regularização fundiária a Ceilândia (Fonte em Foco)
– DF terá centro para cuidar de mulheres no climatério (Fonte em Foco)
– PCDF ganha reforço em efetivo, delegacias e perícia (Fonte em Foco)
– PLDO 2027 prevê R$ 75 bilhões para o DF (Fonte em Foco)
– Em até 90 dias, 31% do CAD-DF estará ocupado por órgãos do GDF, anuncia governadora (Agência Brasília)
– GDF vai lançar obras para ocupação do Centro Administrativo (Novacap)

