Publicidade
InícioVida & DesenvolvimentoSaúdeRecusa familiar ainda impede 45% das doações de órgãos

Recusa familiar ainda impede 45% das doações de órgãos

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

Cobertura relacionada

Os riscos das canetas emagrecedoras em crianças

Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para riscos do uso sem indicação de agonistas GLP-1 por crianças e adolescentes.

Demora no diagnóstico agrava esclerose múltipla no Brasil

Estudo divulgado pela ABEM mostra demora no diagnóstico da esclerose múltipla e impactos no tratamento, trabalho e rotina.

AdaptaSUS prepara a saúde para os impactos do El Niño

Plano do Ministério da Saúde organiza resposta do SUS aos impactos do El Niño 2026-2027 e das mudanças climáticas.

TRF1 derruba norma do CFO sobre harmonização

TRF1 reconheceu ilegalidade de norma do CFO que criou harmonização orofacial como especialidade odontológica.

Anvisa proíbe Artro100 e recolhe lotes de creatina

Anvisa proíbe todos os lotes do Artro100 e recolhe três lotes da creatina Creagummy. Confira os números e como agir.

Polilaminina ainda precisa provar eficácia em humanos

Pesquisa da UFRJ com polilaminina avança para fase 1, mas substância ainda precisa provar segurança e eficácia em humanos. Arte Fonte em Foco/IA
Publicidade

Decisão da família define se a doação poderá ocorrer

A recusa familiar continua sendo um dos principais obstáculos para a doação de órgãos no Brasil. Mesmo quando há diagnóstico de morte encefálica e possibilidade clínica de transplante, a retirada de órgãos só pode ocorrer com autorização da família, regra que transforma o acolhimento e a comunicação hospitalar em etapas decisivas para salvar vidas. O Ministério da Saúde informa que, no país, a doação de órgãos e tecidos após morte encefálica ou parada cardiorrespiratória depende de autorização familiar.

A vontade de doar precisa ser conversada em vida. No Brasil, declarar esse desejo a familiares é essencial porque a autorização final, nos casos de doador falecido, cabe à família.

O Sistema Nacional de Transplantes organiza a lista única de espera por estado ou região e monitora os processos de doação e transplante. O Ministério da Saúde informa que o SNT coordena, regulamenta e acompanha a doação de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano no Brasil.

A regra legal protege a família em um momento extremo, mas também cria uma responsabilidade difícil. A decisão costuma ser tomada em meio ao luto, à surpresa, ao medo e, muitas vezes, à dificuldade de compreender o que significa morte encefálica.

Recusa familiar gira em torno de 45%

A taxa média de recusa familiar no Brasil gira em torno de 45%. O índice varia entre estados e hospitais, o que indica que o problema não depende apenas da disposição da população para doar, mas também da forma como cada serviço identifica potenciais doadores, confirma a morte encefálica, acolhe a família e conduz a conversa.

Dados do Registro Brasileiro de Transplantes da ABTO mostram que, em 2025, o país registrou 15.940 notificações de potenciais doadores e 4.335 doadores efetivos, o equivalente a 20,3 doadores efetivos por milhão de população. Em 2024, essa taxa havia sido de 19,2 por milhão.

Entre as famílias entrevistadas em 2025, 4.200 não autorizaram a doação, número equivalente a 45% das entrevistas realizadas, conforme dados atribuídos ao Registro Brasileiro de Transplantes.

Comunicação ruim pode interromper uma doação possível

A recusa nem sempre nasce de oposição à doação. Segundo a AMIB, muitas famílias chegam ao hospital sabendo que o paciente gostaria de doar, mas ainda assim precisam receber explicações claras, humanas e tecnicamente seguras para tomar a decisão.

O presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Cristiano Franke, aponta falhas de acolhimento e comunicação como barreiras frequentes. Em conversas difíceis, termos excessivamente técnicos, abordagens frias ou locais inadequados podem aumentar a insegurança da família justamente no momento em que ela mais precisa confiar na equipe.

Esse ponto muda a interpretação do problema. Não basta pedir que a sociedade seja mais solidária; é preciso preparar os hospitais para conversar melhor, explicar melhor e cuidar melhor de quem acabou de perder alguém.

Morte encefálica precisa ser explicada com clareza

A compreensão da morte encefálica é uma das maiores dificuldades para muitas famílias. O paciente pode estar em ambiente hospitalar, ligado a aparelhos, com batimentos cardíacos mantidos artificialmente, enquanto a equipe informa que houve morte encefálica.

O Ministério da Saúde afirma que o protocolo de morte encefálica dá segurança à equipe médica para o diagnóstico e permite a conversa com a família sobre doação de órgãos. Sem explicação acessível, porém, o termo pode parecer distante da experiência emocional da família, que ainda vê o corpo do paciente em um leito.

Por isso, a entrevista familiar não pode ser tratada como formulário. Ela precisa de tempo, privacidade, escuta e linguagem compreensível para que a família entenda o diagnóstico, o processo de retirada dos órgãos, a reconstituição do corpo e os cuidados adotados até o funeral.

Curso capacitou mais de 2,5 mil profissionais

A AMIB, em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais de saúde entre setembro de 2025 e agosto de 2026 para atuar no processo de doação e transplantes de órgãos. O resultado superou em 25% a meta inicial do projeto, que era formar 2 mil participantes.

A capacitação busca preparar profissionais para etapas técnicas e humanas do processo. A AMIB informa que os cursos envolvem Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante, Determinação de Morte Encefálica e Comunicação em Situações Críticas.

Até agosto, foram realizados 73 cursos, distribuídos em 23 módulos, com atividades em 25 estados brasileiros. Ainda estavam previstos mais oito treinamentos até o encerramento do projeto, com atividades neste mês em Fortaleza e Florianópolis.

Médicos, enfermeiros e equipes multiprofissionais participaram

A formação não se limitou aos médicos. Entre os profissionais capacitados até agosto, estavam 933 médicos, dos quais 473 receberam treinamento específico para determinação de morte encefálica.

Os demais participantes incluíram enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, odontólogos, biólogos, além de um nutricionista e um pedagogo. Esse conjunto mostra que a doação de órgãos não depende de uma única conversa nem de uma única categoria profissional.

O processo envolve identificação de potenciais doadores, manutenção clínica, diagnóstico seguro, comunicação com a família, logística, regulação e encaminhamento. Quando uma dessas etapas falha, uma doação possível pode se perder.

Medos da família precisam ser enfrentados com respeito

As razões para a recusa costumam ser múltiplas. Entre elas estão dificuldade de compreender ou aceitar a morte encefálica, crenças religiosas, medo de alteração da integridade do corpo, desconfiança sobre o processo, desconhecimento da vontade do familiar e percepção de que a equipe está mais interessada nos órgãos do que na pessoa.

O receio sobre deformação do corpo aparece com frequência em entrevistas familiares. A resposta adequada não é minimizar a dúvida, mas explicar, com tempo e respeito, como ocorre o procedimento e como o corpo é preparado para os ritos de despedida.

A confiança nasce desse cuidado. Uma família em luto não precisa ser pressionada; precisa compreender o que aconteceu, o que será feito e por que aquela decisão pode transformar a vida de outras pessoas.

Doação pode salvar mais de uma vida

A doação de órgãos transforma uma perda familiar em possibilidade de vida para pessoas que aguardam na fila. O Ministério da Saúde informa que os órgãos doados são destinados a pacientes que necessitam de transplante e estão em lista única, organizada por estado ou região e monitorada pelo Sistema Nacional de Transplantes.

Um doador falecido por morte encefálica pode doar órgãos como coração, fígado, rins, pulmões, pâncreas e intestino, além de tecidos em situações específicas. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde também informa que, em caso de parada cardíaca, podem ser doados tecidos como córneas, pele, ossos, tendões e vasos sanguíneos.

Para quem está na fila, a recusa familiar não é um dado abstrato. Ela pode significar mais tempo de espera, agravamento da doença ou perda da chance de transplante.

O que cada pessoa pode fazer em vida

O gesto mais importante é conversar com a família. Como a autorização familiar é indispensável, deixar claro o desejo de doar órgãos reduz dúvidas em um momento de dor.

A conversa não precisa ser longa nem solene. Basta dizer, de forma direta, que deseja ser doador e explicar que a família poderá ser chamada a confirmar essa vontade se houver morte encefálica ou situação clínica que permita a doação.

Também ajuda buscar informação em fontes oficiais e de entidades especializadas. Quanto mais a família entende o processo antes da emergência, menor tende a ser o peso da incerteza quando a decisão precisa ser tomada.

Quando a vida depende de uma conversa difícil

A doação de órgãos acontece no ponto mais delicado entre a medicina e o luto. De um lado, há equipes tentando preservar uma chance rara de transplante. Do outro, há uma família que acabou de ouvir que alguém amado morreu, mesmo quando o corpo ainda parece presente.

É nesse intervalo que a comunicação decide muito. Uma abordagem fria pode fechar uma porta; uma explicação honesta, respeitosa e clara pode permitir que a vontade de doar, muitas vezes já manifestada em vida, seja respeitada.

O país não reduz a recusa familiar apenas com campanhas bonitas. Reduz quando prepara profissionais, organiza hospitais, respeita famílias e trata a doação como processo humano, não como corrida burocrática contra o tempo.

Relacionadas, fontes e documentos:

Saúde Pública, SUS, Ministério da Saúde, Hospitais Públicos, Filas na Saúde, Doação de Órgãos,

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.