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Racismo e baixa renda marcam desigualdades já aos 5 anos

Publicado em

Reportagem:
Janaina Lemos

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Diferenças aparecem antes mesmo do ensino fundamental

As desigualdades de aprendizagem associadas à raça e às condições socioeconômicas já podem ser observadas aos 5 anos, quando muitas crianças ainda estão na pré-escola. Uma análise dos resultados brasileiros do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS) encontrou diferenças em habilidades como numeracia, literacia e memória de trabalho. Os dados não indicam menor capacidade de crianças negras ou pobres, mas revelam como oportunidades desiguais podem aparecer no desenvolvimento desde os primeiros anos de vida.

Crianças pretas tiveram menor média em numeracia

A maior diferença observada somente pelo recorte de raça ou cor apareceu na numeracia emergente, habilidade relacionada a contar, comparar quantidades e reconhecer padrões.

Crianças pretas alcançaram média de 423 pontos. Entre as pardas, a pontuação foi de 447. As crianças brancas registraram 463 pontos.

Isso representa uma diferença de 40 pontos entre as médias de crianças pretas e brancas.

A distância entre os resultados não significa que a cor da pele determine a capacidade de aprender. A própria análise chama atenção para o ambiente em que cada criança cresce, as relações que estabelece, a qualidade dos serviços aos quais consegue chegar e as oportunidades de aprendizagem que encontra ao longo da primeira infância.

Na memória de trabalho, capacidade usada para guardar informações temporariamente e utilizá-las durante uma atividade, também foram identificadas diferenças estatisticamente significativas.
Crianças pretas alcançaram 462 pontos; pardas, 463; e brancas, 471.

Na vida de uma criança, memória de trabalho está presente em tarefas aparentemente simples, como lembrar uma orientação enquanto realiza uma atividade, acompanhar uma sequência, organizar informações e resolver pequenos problemas.

Estudo avaliou crianças de três estados brasileiros

Os resultados brasileiros precisam ser compreendidos dentro do alcance da pesquisa. O IELS avaliou 2.598 crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em Ceará, Pará e São Paulo.

Dessas crianças, 58,1% foram identificadas como pardas, 34% como brancas e 6,4% como pretas. Crianças amarelas representaram 1% da amostra e indígenas, 0,3%. Em 295 casos, não havia informação sobre raça ou cor.

Por isso, os resultados ajudam a compreender desigualdades presentes nas três unidades da Federação estudadas, mas não constituem uma estimativa representativa de todas as crianças brasileiras.

A avaliação faz parte do IELS, desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O levantamento analisa aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais de crianças aos 5 anos.

No ciclo de 2025, mais de 23 mil crianças participaram internacionalmente da pesquisa. No caso brasileiro, os resultados correspondem à média dos três estados participantes.

Raça e condição econômica juntas ampliam as diferenças

Quando raça e nível socioeconômico são analisados conjuntamente, as distâncias ficam maiores.

Em numeracia, crianças pretas, pardas ou indígenas pertencentes a famílias de nível socioeconômico baixo obtiveram média de 416 pontos. Entre crianças brancas ou amarelas de famílias com nível socioeconômico alto, a média chegou a 500.

São 84 pontos de diferença entre os dois grupos.

Em literacia emergente, relacionada à compreensão de palavras, sons e pequenas narrativas, a diferença foi de 55 pontos. O primeiro grupo alcançou 477 pontos, enquanto o segundo registrou 532.

A mesma distância de 55 pontos apareceu na memória de trabalho: 441 pontos entre crianças pretas, pardas ou indígenas de menor nível socioeconômico e 496 entre crianças brancas ou amarelas de famílias de nível socioeconômico mais alto.

Esses números não permitem olhar para uma criança e prever seu futuro a partir de sua raça ou renda familiar. Há crianças que se desenvolvem muito bem mesmo diante de condições econômicas desfavoráveis.

O que as médias revelam é outra coisa: alguns grupos chegam aos 5 anos tendo enfrentado, coletivamente, condições menos favoráveis para desenvolver determinadas habilidades.

A desigualdade começa antes da primeira prova escolar

O impacto mais profundo desses resultados está no momento em que as diferenças aparecem. Aos 5 anos, uma criança ainda está construindo habilidades básicas que serão utilizadas quando começar a ler, escrever, calcular, seguir instruções e solucionar problemas mais complexos.

Uma criança que teve menos oportunidades de brincar com números, ouvir histórias, explorar livros, conversar com adultos, frequentar uma educação infantil de qualidade ou acessar serviços adequados não perdeu sua capacidade de aprender.

Ela pode simplesmente chegar à etapa seguinte precisando de oportunidades que outra criança já encontrou anteriormente.

É aqui que uma diferença aparentemente abstrata de pontuação começa a ganhar rosto. Na sala de aula, ela pode aparecer quando uma criança reconhece rapidamente padrões numéricos enquanto outra precisa de mais tempo; quando uma acompanha uma sequência de instruções com facilidade enquanto outra necessita de apoio adicional; ou quando o vocabulário e a familiaridade com narrativas são diferentes logo na entrada da escolarização.

Nada disso deveria ser interpretado como deficiência individual.

Quando diferenças se repetem de forma sistemática entre grupos raciais e sociais, o problema deixa de caber na explicação sobre esforço pessoal. Ele passa a exigir atenção às condições em que essas crianças estão crescendo.

Racismo não precisa aparecer como agressão para produzir desigualdade

Na primeira infância, o racismo pode afetar uma criança muito antes de ela conseguir explicar o que a palavra significa.

O impacto não se limita a uma ofensa explícita. Ele também pode aparecer nas desigualdades de acesso a serviços, nas condições dos territórios onde as famílias vivem, nas oportunidades educacionais disponíveis, na maneira como crianças são acolhidas pelas instituições e nas possibilidades que encontram para desenvolver suas habilidades.

Isso ajuda a compreender o conceito de racismo estrutural no cotidiano.

Não significa afirmar que toda diferença encontrada em uma avaliação foi provocada diretamente por um episódio de discriminação. Significa reconhecer que desigualdades raciais persistentes podem organizar de maneira diferente o acesso a direitos, recursos e oportunidades durante uma fase decisiva do desenvolvimento.

A condição socioeconômica acrescenta outra camada a esse cenário. Uma família com poucos recursos pode enfrentar maior dificuldade para ter acesso a determinados serviços, materiais, atividades culturais ou ambientes de aprendizagem.

Quando pobreza e desigualdade racial se sobrepõem, essas barreiras podem se acumular.

Políticas públicas já reconhecem a necessidade de agir cedo

O enfrentamento dessas diferenças não começa do zero: políticas nacionais já estabelecem a equidade na infância e na educação como responsabilidade pública.

A Política Nacional Integrada da Primeira Infância determina que as ações destinadas aos primeiros anos considerem as desigualdades socioeconômicas, territoriais e étnico-raciais. A política também estabelece atenção às crianças em situações de maior vulnerabilidade.

Na educação, a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola prevê ações para enfrentar desigualdades e o racismo nos ambientes de ensino.

O Plano Nacional de Educação também incorpora a redução das desigualdades educacionais por raça e condição socioeconômica entre seus objetivos e metas. A legislação estabelece o acompanhamento dos resultados de diferentes grupos e prevê estratégias para reduzir as distâncias de aprendizagem.

Essas políticas apontam para uma mudança importante na forma de enxergar o problema: oferecer o mesmo serviço a todos pode não ser suficiente quando as crianças começam de condições diferentes.

Os dados precisam mostrar quais crianças estão ficando para trás

Uma das medidas propostas é acompanhar os indicadores educacionais separando os resultados por raça e cor. Sem essa informação, uma média geral pode melhorar enquanto determinados grupos continuam muito atrás.

Imagine uma turma em que metade das crianças avança rapidamente e outra metade quase não progride. A média pode sugerir algum avanço, mas esconde quem continua precisando de ajuda.

A mesma lógica vale para políticas públicas.

Desagregar os dados permite localizar desigualdades que desapareceriam dentro de um único número. Isso ajuda governos e redes de ensino a identificar territórios e grupos que precisam de maior atenção e a verificar se as ações adotadas estão realmente reduzindo as diferenças.

Outro caminho é combinar políticas universais com medidas direcionadas para crianças que enfrentam maiores barreiras.

A formação de professores, a qualidade da educação infantil, oportunidades de aprendizagem por meio de brincadeiras e a integração entre educação, saúde e assistência social aparecem entre as estratégias apontadas para enfrentar as desigualdades desde cedo.

O que essas desigualdades podem fazer com a vida de uma criança

O problema não é onde a criança chega aos 5 anos, mas o que acontece depois

Uma diferença aos 5 anos não escreve o futuro de uma criança. O perigo está em permitir que ela seja carregada para a frente sem que ninguém intervenha.

Pense em duas crianças igualmente capazes de aprender. Uma chega à pré-escola tendo encontrado mais oportunidades para conversar, brincar, explorar números, ouvir histórias e acessar serviços de qualidade. A outra precisou crescer em um ambiente com menos recursos e oportunidades.

A segunda criança não tem menos potencial.

Ela pode apenas precisar que a escola e as demais políticas públicas façam um trabalho maior para que as condições de partida deixem de determinar o percurso.

Se esse apoio não acontece, pequenas diferenças podem acompanhar a criança quando começa a alfabetização, quando a matemática se torna mais complexa e quando as atividades passam a exigir cada vez mais atenção, memória e domínio da linguagem.

É assim que uma desigualdade inicial pode deixar de ser apenas uma fotografia da pré-escola e participar de uma trajetória escolar mais longa.

Racismo também pode significar receber menos oportunidades

Para uma criança, desigualdade não chega em forma de gráfico. Ela chega como experiência.

Pode ser uma escola com menos recursos. Uma família que precisa escolher entre necessidades básicas. Um território em que serviços são mais difíceis de acessar. Um ambiente que oferece menos estímulos. Ou uma instituição que ainda não consegue acolher e valorizar igualmente diferentes identidades.

Nenhuma dessas condições diminui a inteligência de uma criança.

O que elas podem diminuir é a quantidade e a qualidade das oportunidades que essa inteligência encontra para se desenvolver.

Essa distinção é essencial porque muda a pergunta. Em vez de perguntar por que determinadas crianças obtêm médias menores, é preciso observar quais experiências, direitos e oportunidades estão sendo distribuídos de maneira desigual.

Isso também evita um erro grave: transformar um resultado estatístico em rótulo para crianças negras, indígenas ou pobres.

As diferenças pertencem às condições sociais observadas entre grupos, não à capacidade individual de cada menino ou menina.

Combater cedo a desigualdade custa menos do que naturalizá-la

A primeira infância oferece uma possibilidade poderosa: agir quando as trajetórias ainda estão começando.

Se uma desigualdade aparece aos 5 anos, políticas públicas não precisam esperar que ela se transforme em dificuldade de alfabetização, atraso escolar ou perda de oportunidades futuras para responder.

A educação infantil pode ampliar experiências. A saúde pode acompanhar o desenvolvimento. A assistência social pode apoiar famílias. Professores bem preparados podem reconhecer necessidades diferentes dentro da mesma turma.

É justamente porque as diferenças não são destino que agir cedo faz sentido.

O resultado do IELS coloca números em uma realidade que muitas vezes é discutida apenas quando crianças já estão mais velhas. A desigualdade educacional não começa no vestibular, no ensino médio ou mesmo na alfabetização. Parte dela pode estar sendo construída muito antes.

Quando uma sociedade permite que raça e condição econômica influenciem sistematicamente as oportunidades oferecidas nos primeiros anos de vida, ela não está apenas produzindo resultados diferentes em uma avaliação.

Está distribuindo de maneira desigual algo muito mais valioso: a chance de cada criança desenvolver plenamente aquilo que é capaz de aprender.

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