Entre um plantão puxado e outro, o cuidado também precisa respirar. Foi com essa lógica — simples, mas raramente aplicada — que o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) levou música, diálogo e escuta ativa às UPAs e polos administrativos ao longo desta semana, dentro da campanha Janeiro Branco, dedicada à saúde mental.
Por meio do Núcleo de Qualidade de Vida no Trabalho (Nuvid) e do projeto Acolher, a ação Prosa e Melodia transformou, ainda que por alguns minutos, o ambiente de trabalho em espaço de acolhimento. Psicólogos conduziram conversas leves, sem discurso pronto ou frases de efeito, reforçando uma verdade básica: quem cuida também precisa ser cuidado.
Cuidar de quem sustenta o sistema
As atividades começaram no dia 12, passando pelas UPAs do Gama, Planaltina, Samambaia e Recanto das Emas. No dia seguinte, alcançaram São Sebastião e Paranoá. Já no dia 14, foi a vez de Brazlândia, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, Sobradinho e Vicente Pires. No dia 15, a iniciativa chegou ao PO700, sede administrativa do Instituto, e às UPAs de Ceilândia I e II.
O objetivo foi o mesmo em todas as unidades: criar um ambiente institucional mais humano, reduzir tensões e estimular a escuta ativa em um cotidiano marcado por pressão constante e alta demanda. Não é romantização do trabalho em saúde; é estratégia de sobrevivência.
Saúde mental como política, não discurso
Para o diretor-presidente do IgesDF, Cleber Monteiro, o Janeiro Branco expõe uma escolha de gestão. “A rotina de uma UPA exige preparo técnico, mas também equilíbrio emocional. Criar esses espaços significa reconhecer o valor do colaborador e proteger sua saúde mental. Isso se reflete diretamente em um atendimento mais humanizado à população”, afirmou.
A fala não é retórica vazia. O Instituto tem apostado em ações continuadas, entendendo que saúde mental não se resolve com campanha pontual nem com cartaz colorido no corredor.
Tabu em queda, adesão em alta
Segundo a chefe do Nuvid, Paula Paiva, a adesão dos profissionais mostra que o tema deixou de ser um tabu dentro da instituição. “Vamos percorrer todas as unidades. Somente nas UPAs, cerca de 800 colaboradores serão diretamente impactados. O foco é reduzir ansiedade e estimular a presença no momento atual, algo raro em ambientes de alta pressão”, explica.
Na ponta, o efeito é visível. Em Brazlândia, o gerente substituto Igor Cavalcante relata que os profissionais se sentiram valorizados. Já no Núcleo Bandeirante, o gerente Neviton Batista é direto: cuidar da saúde mental não é opcional. “Lidamos com sobrecarga e responsabilidades que não ficam do lado de fora quando o plantão termina”, resume.
Projeto Acolher vai além de janeiro
O Projeto Acolher já integra a rotina do IgesDF com atendimentos em psicologia, psiquiatria, acupuntura, nutrição, meditação, Reiki e ginástica laboral, além de ações como o Prosa e Melodia. A técnica de segurança do trabalho Luzia Tânia, da UPA de Brazlândia, destaca que o impacto vai além do emocional, refletindo também na prevenção de acidentes e na qualidade do trabalho.
O calendário segue ao longo do mês, com atividades no Centro de Distribuição, no dia 21, e expansão para unidades hospitalares e administrativas. Para Paula Paiva, o recado é claro: “Cuidar da saúde mental preserva talentos, fortalece equipes e melhora o serviço público. Em um cenário de demandas crescentes, cuidar de quem cuida é compromisso institucional”.

